Braskem vale R$ 5 bi para o acionista e quase nada para o credor — quem está certo?

Por Ana Luiza Serrão 26 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Braskem vale R$ 5 bi para o acionista e quase nada para o credor — quem está certo?

A Braskem encerra a semana com valor de mercado acima de R$ 5 bilhões, enquanto seus títulos de dívida eram negociados a cerca de 40 centavos por dólar na quinta-feira, 25, após a petroquímica protocolar um pedido de tutela de urgência cautelar e abrir um processo formal de mediação com credores para renegociar US$ 9,5 bilhões.

A diferença entre o valor atribuído às ações e o risco precificado na dívida chama atenção de analistas ouvidos pela EXAME.

Para o gestor de renda variável da AZ Quest, Welliam Wang, a explicação é que quem está segurando o papel é o investidor "pessoa física", sem saber que "a dívida vem antes do acionista". Ele diz que fenômeno semelhante sustentou as ações da Gol por meses depois que a empresa já havia entrado em crise.

Segundo Wang, se o credor já está precificando uma perda de 60% sobre o valor nominal da dívida, o acionista, que fica depois na fila, não deveria estar esperando nada. "Não tem como você achar que você, como dono da empresa, vai ganhar dinheiro se você não consegue pagar suas obrigações", avalia.

O impasse da negociação da Braskem

A Braskem tentou prorrogar todos os vencimentos em cinco anos, reduzir os juros em 200 pontos-base e permitir o pagamento de encargos em uma modalidade sem desembolso de caixa (PIK), entre julho de 2026 e dezembro de 2028. Os credores rejeitaram o acordo e fizeram uma contraproposta, que a empresa recusou.

Wang interpreta a postura da IG4 Capital, controladora da Braskem, como uma aposta agressiva que não encontra paralelo recente, a exemplo da reestruturação da Raízen, também conduzida pela IG4, em que a Shell aportou R$ 3,5 bilhões e os acionistas sofreram diluição.

Sem reestruturação, as projeções da Braskem mostram caixa livre negativo já em dezembro, com déficit de US$ 821 milhões. Só no terceiro trimestre, o serviço da dívida soma US$ 878 milhões. Há ainda uma linha rotativa de US$ 1 bilhão com vencimento em dezembro e cartas de crédito em aberto de mais US$ 1,3 bilhão.

Braskem está no radar de 'fundos abutres'

O analista de renda fixa da Eleven Financial, Otávio Faria, lê o movimento dos credores como algo que já estava em curso antes da tutela. "A Braskem é uma empresa que já saiu do radar dos fundos tradicionais de crédito (...) para entrar no radar de investidores que operam dentro de fundos de special situations."

Os fundos "abutre" compram dívida descontada apostando nos ativos que poderão ser obtidos em caso de liquidação, não na recuperação da empresa como negócio em funcionamento. Neste cenário, as fontes veem que a Braskem não consegue atrair capital de longo prazo em condições compatíveis com o que precisa.

Faria acrescenta que a empresa vem prometendo melhora de resultados há anos sem entregar. E sem resolver Maceió, onde a exploração de sal-gema provocou o afundamento do solo, gerando um passivo que a empresa estima em R$ 12,2 bilhões já pagos e R$ 8 bilhões que podem vir a mais, diz.

O que especialistas veem pela frente

Wang avalia que o caminho mais provável é o da recuperação judicial (RJ) para a Braskem. A tutela cautelar dá 60 dias para uma solução extrajudicial, mas ele não acredita que a rigidez atual da IG4 permita um acordo dentro desse prazo. Em uma recuperação judicial, a diluição dos acionistas deixa de ser opcional.

Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, espera correção adicional no papel, afirmando que a ação ainda não precificou 100% um "desfecho mais doloroso."

Ele também relata que o mercado de crédito já opera "claramente em modo de gestão de perdas, com yields elevados refletindo expectativa de alongamentos forçados, redução de cupons ou (...) conversão; a liquidez apertada e as obrigações internacionais reforçam essa visão mais pessimista."

Uarian admite, no entanto, que o tamanho exato do impacto depende da velocidade das negociações e de como o plano final será percebido pelo mercado. Faria, por sua vez, não descarta que a ação suba em um primeiro momento, se o plano for bem apresentado.

Hoje a ação da Braskem (BRKM5) cai MAIS DE 7%. O analista da Eleven vê, ainda, que o risco já estava incorporado por investidores fundamentalistas, mas acredita que os especuladores ainda possam trazer mais volatilidade à frente.

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