Busca por riscos? Cientistas descobrem 'falha' biológica em psicopatas
Exames de ressonância magnética identificaram uma diferença estrutural no cérebro de pessoas com traços psicopáticos. O estriado — região associada à recompensa, motivação e tomada de decisões — pode ser, em média, até 10% maior nesses indivíduos. A conclusão é de um estudo conduzido pela Universidade Tecnológica de Nanyang, com colaboração da Universidade da Pensilvânia e da Universidade Estadual da Califórnia.
O trabalho analisou 120 participantes nos Estados Unidos e relacionou o aumento dessa área cerebral a comportamentos de impulsividade e busca por sensações intensas. As informações são do Journal of Psychiatric Research, e foram publicadas no ScienceDaily.
O que muda no cérebro dos psicopatas
O estriado fica localizado em uma região profunda do cérebro e desempenha papel central na forma como o organismo responde a recompensas, planeja ações e toma decisões. Segundo os pesquisadores, indivíduos com maiores volumes nessa estrutura tendem a apresentar maior necessidade de estímulo e menor controle de impulsos.
Para chegar aos resultados, a equipe combinou exames de imagem com avaliações clínicas baseadas na escala Psychopathy Checklist-Revised, amplamente utilizada para medir traços psicopáticos. A observação foi de que impulsividade e busca por estimulação explicaram parcialmente a relação entre o aumento do estriado e os traços psicopáticos, respondendo por cerca de 49,4% dessa associação.
De acordo com a neurocriminologista Olivia Choy, uma das autoras do estudo, os dados indicam que fatores biológicos também influenciam o comportamento antissocial — e não apenas o ambiente.
Biologia e comportamento
A psicopatia costuma estar associada a características como empatia reduzida, ausência de remorso e maior propensão a atitudes de risco. No entanto, os pesquisadores destacam que nem todas as pessoas com esses traços cometem crimes.
O estudo reforça a ideia de que alterações no desenvolvimento cerebral, possivelmente influenciadas por fatores genéticos, podem contribuir para esse perfil comportamental. Segundo o pesquisador Adrian Raine, da Universidade da Pensilvânia, o tamanho do estriado pode ter relação hereditária, o que fortalece hipóteses de origem neurobiológica da psicopatia.
Além de uma única região do cérebro
Embora o estriado tenha se destacado na análise, pesquisas mais recentes indicam que a psicopatia não depende de uma única área cerebral. Estudos posteriores da revista Neuroscience and Biobehavioral Reviews apontam para alterações em redes mais amplas, envolvendo regiões ligadas ao controle emocional, tomada de decisão e comportamento social, como córtex orbitofrontal, tálamo, cerebelo e áreas frontais do cérebro.
Isso sugere que o transtorno pode resultar da interação entre diferentes sistemas cerebrais, além de fatores ambientais e experiências de vida.
Traços psicopáticos fora do sistema prisional
Um dos diferenciais da pesquisa foi a análise de pessoas da população geral, e não apenas de indivíduos encarcerados. Essa abordagem permitiu identificar traços psicopáticos em níveis variados dentro da sociedade. Os cientistas também observaram o mesmo padrão estrutural em homens e mulheres, embora ressaltem que o número de participantes do sexo feminino ainda é limitado e exige novas investigações.
Ainda assim, os pesquisadores apontam que o comportamento humano é resultado de múltiplos fatores — e que o cérebro, sozinho, não determina as ações de uma pessoa.
Os autores afirmam que compreender melhor as bases biológicas da psicopatia pode ajudar no desenvolvimento de estratégias de prevenção, políticas públicas e possíveis abordagens terapêuticas no futuro.
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