C&A sobe 23% após tombo em janeiro e tenta virar o jogo no Ibovespa
Depois do tombo de dois dígitos no início de janeiro, as ações da C&A (CEAB3) ensaiam uma recuperação consistente no Ibovespa. Desde o dia 5 de janeiro, quando os papéis despencaram 15,71%, a varejista acumula alta de 23,04% até o fechamento de ontem, 11, pouco mais de um mês após o episódio.
O pano de fundo da forte queda passada foi a repercussão de um alinhamento de expectativas feito pela companhia com analistas que cobrem o papel. A empresa teria sinalizado ao sellside um quarto trimestre mais fraco que o esperado, e os papéis derreteram.
No dia seguinte, relatórios de bancos reforçaram a leitura de um cenário mais desafiador para o fim de 2025, especialmente em dezembro. O UBS BB, por exemplo, revisou suas projeções após incorporar sinais de desempenho abaixo do esperado no período.
O banco passou a esperar vendas "decepcionantes" no quarto trimestre, citando um ambiente mais difícil para o varejo de moda. Dados da consultoria Virtual Gate mostraram queda de 9% no tráfego de shoppings em dezembro, na comparação anual — mês crucial por causa do Natal.
Com isso, o UBS BB reduziu em cerca de 10% as estimativas de lucro líquido, projetando R$ 511 milhões em 2026 e R$ 566 milhões em 2027, e cortou o preço-alvo de R$ 23 para R$ 20, embora tenha mantido recomendação de compra. O banco agora estima vendas comparáveis estáveis no quarto trimestre, após alta de 8,1% no terceiro.
"O desempenho do CEAB3 se manteve estável em outubro, mas houve deterioração sequencial em novembro, devido ao clima adverso, e um dezembro decepcionante", afirmaram analistas na ocasião.
Expectativas e recuperação da C&A
Apesar do choque inicial, o mercado passou a recalibrar as expectativas. Entre 19 e 23 de janeiro, as ações engataram cinco sessões consecutivas de alta. Nesta quarta, em um dia de forte apetite por risco — com o Ibovespa renovando máxima histórica acima dos 189 mil pontos — a C&A subiu 2,14%, negociada a R$ 12,87, chegando a operar na casa dos R$ 13.
O movimento ocorre em meio a um debate mais amplo sobre o setor de varejo. Relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), divulgado em 23 de janeiro, aponta fundamentos ainda pressionados e revisões negativas de lucros para 2026 no varejo discricionário, refletindo incertezas macroeconômicas e tendências de consumo mais fracas no fim de 2025.
No vestuário, os múltiplos são considerados atraentes, mas o momento operacional segue fraco.
A C&A, segundo o BTG, é o nome mais discutido no segmento e negocia a cerca de 7 vezes o lucro projetado para 2026, com desconto em relação ao setor. Ainda assim, as revisões para baixo sobre o quarto trimestre de 2025 da companhia reforçaram cautela, diante da expectativa de vendas nas mesmas lojas estáveis e alavancagem operacional limitada nos volumes atuais.
Para o próximo balanço, o BTG projeta que a receita líquida de vestuário da C&A avance 1% na comparação anual, com vendas nas mesmas lojas (SSS) estáveis e queda de 100 pontos-base na margem Ebitda consolidada.
Ao mesmo tempo, o banco incluiu a companhia em sua carteira de small caps de fevereiro. A aposta está no foco crescente em eficiência operacional, especialmente em vendas por metro quadrado, dentro do programa Energia C&A, além do uso de precificação dinâmica para preservar competitividade.
Na visão de Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, o setor de varejo tende a se beneficiar de cortes de juros, ainda que o quarto trimestre deva mostrar desaceleração nas vendas de vestuário, incluindo C&A.
Peretti pondera que, embora parte do fluxo estrangeiro esteja concentrada em grandes empresas de commodities e bancos, o varejo ainda negocia com desconto relevante na Bolsa. "Tem que ter, não precisa ter tanto medo, mas seja um pouco mais seletivo", afirma. Para investidores dispostos a assumir mais risco dentro do segmento de moda, a C&A está entre as preferidas da casa.
Citi, porém, reduziu preço-alvo
Nem todos, porém, estão totalmente confortáveis com a tese. O Citi manteve recomendação de compra em janeiro, mas reduziu o preço-alvo de R$ 22 para R$ 18 e classificou a ação como High Risk, citando "grande volatilidade" nos resultados de curto prazo.
O banco cortou em 12% a estimativa de lucro líquido para 2026, a R$ 492 milhões, ao incorporar crescimento mais lento nas vendas em mesmas lojas, de 5% ante 7%.
As projeções do Citi para receita, Ebitda e lucro estão abaixo do consenso e embutem redução de 4% nas vendas líquidas, compressão de margem bruta e queda de 60 a 80 pontos-base no Ebitda ajustado. Ainda assim, a instituição avalia que, mesmo em um cenário mais pessimista, o papel continuaria negociado a cerca de 8 vezes o lucro, o que sustenta, na visão da casa, uma relação risco-retorno atrativa.
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