Trump desmonta política climática dos EUA: 'Governo troca ciência por negação', diz John Kerry
Na considerada a maior ação desregulatória da história americana, Trump revogou a "constatação de perigo" de 2009, documento científico da era Obama que reconhecia os gases de efeito estufa como ameaça à saúde pública e ao meio ambiente.
A política climática fundamentava a autoridade da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) e sua revogação significa um "desmonte das ações" para limitar a poluição e as emissões, especialmente vindas da indústria de petróleo e gás, usinas de energia e veículos.
Com a medida, deixam de valer todos os padrões federais de emissões para veículos dos anos 2012 a 2027 e posteriores, com a promessa de economizar [grifar]US$ 1,3 trilhão aos contribuintes.
Ao lado do administrador da EPA, Lee Zeldin, Trump defendeu que a decisão "restaura a liberdade de escolha do consumidor" e tornará veículos mais acessíveis às famílias americanas, com economia média de US$ 2.400 por veículo.
A agência argumenta que a constatação de 2009 excedeu sua autoridade e que decisões dessa magnitude cabem ao Congresso, não a órgãos administrativos.
A medida também elimina créditos para tecnologias como o sistema start-stop e encerra a base legal que sustentou por 16 anos regulações climáticas no país.
Para a administração Trump, as previsões usadas para justificar a norma não se concretizaram e, mesmo que os EUA eliminassem todas as emissões de veículos, não haveria impacto significativo nos indicadores climáticos globais até 2100.
A decisão provocou reação imediata e contundente de governadores, parlamentares democratas, ex-autoridades e organizações ambientais.
'Troca de fatos por negação custará vidas'
John Kerry, ex-secretário de Estado e ex-enviado presidencial especial para o clima, disse que revogar a constatação de perigo "eleva a governância orwelliana a novos patamares e convida a danos enormes a pessoas e propriedades ao redor do mundo".
"O governo está trocando fatos e ciência por negação e negligência deliberada que custarão vidas, saúde e incontáveis dólares dos contribuintes", afirmou.
O ex-enviado alertou que a medida é "como um fósforo aceso sobre a lenha de furacões, incêndios e secas agravados pelo clima" e citou dados alarmantes: a poluição por combustíveis fósseis é responsável por 216 mil casos de asma infantil e 90 mil mortes prematuras anualmente nos EUA.
"Ignorar os sinais de alerta não impedirá a tempestade. Isso coloca mais americanos diretamente em seu caminho", disse Kerry, classificando a decisão como "tão antiamericana quanto se possa imaginar".
Califórnia anuncia ação judicial
O governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi categórico ao anunciar que o estado processará o governo federal.
"Esta decisão trai o povo americano e consolida o status do Partido Republicano como o partido pró-poluição", declarou.
"Trump pode colocar a ganância corporativa acima das comunidades e das famílias, mas a Califórnia não ficará parada e nós vamos processar para contestar essa ação ilegal."
O governador advertiu que, se a medida sobreviver aos questionamentos legais, ela levará a mais incêndios florestais mortais, mais mortes por calor extremo, mais enchentes e secas impulsionadas pelas mudanças climáticas e maiores ameaças às comunidades.
Como co-presidente da Aliança Climática dos EUA, Newsom emitiu declaração conjunta com Tony Evers, governador de Wisconsin: "Essa ação é ilegal, ignora a ciência básica e nega a realidade. Não deixaremos de lutar para proteger o povo americano da poluição".
'Abdicação vergonhosa' da agência ambiental
No Senado, o líder da minoria democrata, Chuck Schumer (D-NY), e o senador Sheldon Whitehouse (D-RI) acusaram a EPA de ter "abandonado completamente seu dever de proteger o povo americano da poluição por gases de efeito estufa e das mudanças climáticas".
"Essa abdicação vergonhosa é um fracasso econômico, moral e político e prejudicará a saúde, as casas e o bem-estar econômico dos americanos. Ela ignora fatos científicos e observações de senso comum para servir a grandes doadores políticos", afirmaram.
Os senadores alertaram ainda que a retirada da preempção federal deixa as empresas de combustíveis fósseis "mais vulneráveis a litígios pelos danos causados por seus produtos", e reagiram: "Estados, tribos e governos locais devem assumir essa responsabilidade e responsabilizar as grandes petroleiras pelas décadas de devastação".
Organizações prometem resistência judicial
Diversas organizações científicas e ambientais anunciaram que levarão a decisão aos tribunais. Manish Bapna, presidente do NRDC (Natural Resources Defense Council), foi direto: "Essa ação cínica e devastadora da EPA de Trump não avançará sem uma luta. Nos veremos nos tribunais, e venceremos."
Gina McCarthy, ex-administradora da EPA no governo Obama e ex-conselheira climática nacional da Casa Branca, disse que a EPA prefere passar o tempo nos tribunais trabalhando para a indústria de combustíveis fósseis do que proteger os americanos da poluição e dos impactos crescentes da crise climática.
Para Lena Moffitt, diretora-executiva da Evergreen Action, a EPA existe por uma razão: proteger a saúde humana e o meio ambiente. "Mas sob Trump e o administrador Zeldin, ela se tornou um esquema de proteção para seus aliados das grandes petroleiras".
"Este governo está orgulhosamente ignorando montanhas de evidências científicas de que a poluição está alimentando enchentes mortais, incêndios florestais e eventos climáticos extremos, apenas para que empresas possam extrair mais alguns dólares em lucros", afirmou Moffitt.
Riscos à competitividade americana
Gretchen Goldman, da Union of Concerned Scientists, classificou a medida como "inconcebível". "Em vez de enfrentar o desafio com as políticas necessárias para proteger o bem-estar das pessoas, o governo Trump abandonou vergonhosamente a missão da EPA", disse.
Alex Stapleton, da Foreign Policy for America, alertou para consequências geopolíticas: "Internacionalmente, afastar-se da ciência climática compromete nossa capacidade de cooperar e competir com países que reconhecem o clima como centrais para seus interesses comerciais, de segurança energética e geoestratégicos."
Segundo Stapleton, a decisão aumenta a probabilidade de que a liderança em setores e tecnologias de energia limpa em rápido crescimento transfira suas operações para fora dos Estados Unidos, levando à perda de empregos e a ganhos econômicos não realizados.
Enquanto a administração Trump sustenta que a medida economizará aos cofres públicos, "restaurando o Sonho Americano", as autoridades alertam que é é um incentivo a indústria poluente com custos incalculáveis para clima, saúde pública e liderança global em energias limpas.
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