Cacau entra em novo ciclo com superávit após atingir US$ 10 mil por tonelada

Por César H. S. Rezende 5 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Cacau entra em novo ciclo com superávit após atingir US$ 10 mil por tonelada

O mercado global de cacau começou 2026 em transição para um novo ciclo, marcado pela saída de um período de escassez e preços recordes para um cenário de recomposição da oferta, segundo avaliação do Itaú BBA.

A mudança ocorre após o choque observado entre 2024 e 2025, quando as cotações ultrapassaram US$ 10 mil por tonelada e pressionaram os preços do chocolate ao redor do mundo.

Apesar da melhora nos fundamentos, o setor ainda enfrenta elevada volatilidade. Isso porque o ajuste recente ocorreu mais pela retração da demanda do que por um avanço estrutural consistente da produção.

A produção global reagiu em 2025/26, com alta de 11%, impulsionada por condições climáticas mais favoráveis na África e na América do Sul. Segundo o banco, a produção mundial alcançou cerca de 4,7 milhões de toneladas, superando a moagem estimada em 4,6 milhões de toneladas — movimento que levou o mercado de volta ao superávit após anos consecutivos de déficit.

“O mercado global de cacau entrou em 2026 em transição para um novo ciclo, com retorno ao superávit”, afirma o Itaú BBA. “Mas o ajuste ocorreu principalmente via retração da demanda.”

Na prática, o consumo foi impactado pelos preços elevados, levando à queda da moagem — principal indicador da demanda industrial. Na Europa, por exemplo, a moagem recuou 5,9% em 2025, atingindo o menor nível em uma década.

Após atingirem níveis recordes, os preços do cacau passaram por forte correção ao longo de 2025 e 2026. Em fevereiro, os contratos chegaram a ser negociados abaixo de US$ 3 mil por tonelada, patamar próximo ao período pré-crise.

“O movimento se inverteu com melhora relativa da oferta, aumento dos estoques e ajuste da demanda industrial”, afirma o banco.

A crise no mercado de cacau não é recente. Desde 2023, uma combinação de eventos climáticos e doenças afetou a produção global, especialmente em Gana e Costa do Marfim — países que, juntos, respondem por cerca de 70% da oferta mundial, com produção de aproximadamente 2,2 milhões e 680 mil toneladas, respectivamente.

Clima e cacau

Mesmo com a previsão de superávit em 2026, os preços do cacau seguem voláteis e sensíveis a fatores climáticos. A concentração da produção na África Ocidental — responsável por mais de 70% da oferta global — mantém o mercado exposto a riscos recorrentes.

Em 2024, o fenômeno El Niño elevou as temperaturas e provocou estresse hídrico nas lavouras. Ao mesmo tempo, chuvas intensas favoreceram a disseminação da “podridão parda”, doença fúngica que reduz a produtividade dos cacaueiros.

Outro fator de pressão é o vírus do broto inchado, que afeta plantações na África Ocidental há décadas e segue comprometendo a produção na região.

“A produção nessas regiões está envelhecendo, com lavouras mais suscetíveis a eventos climáticos extremos e doenças. Em Gana, a situação é agravada pela mineração ilegal, que, somada às perdas por pragas e clima, tem reduzido as áreas produtivas”, afirma Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Além dos fatores climáticos e estruturais, decisões locais também influenciaram o mercado. Gana reduziu o preço pago ao produtor em 28,6%, enquanto a Costa do Marfim cortou quase 60%, acompanhando a queda das cotações internacionais.

No Brasil, o cenário combina retração da demanda industrial e leve aumento da oferta. A moagem caiu 14,6% em 2025, enquanto o recebimento de amêndoas cresceu 3,7%, pressionando os preços domésticos.

“O prêmio entrou em campo negativo, refletindo o excesso de amêndoa no mercado interno”, aponta o relatório.

Mesmo com a queda recente da matéria-prima, o alívio ao consumidor ainda não se materializou. A inflação do chocolate acumulou alta de 26,4% em 12 meses até fevereiro de 2026, bem acima do IPCA.

A tendência é de redução gradual dos preços ao consumidor, diante do repasse defasado ao longo da cadeia.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: