Caixinhas rendem acima do CDI, mas podem empurrar gastos para o cartão
As “caixinhas” ou “cofrinhos” viraram um fenômeno. Elas aproximam a população comum do mundo dos investimentos através da criação de objetivos personalizados: “Junte dinheiro para o próximo Carnaval”, por exemplo. Foram, inclusive, um dos motivos que ampliaram a captação em CDBs – produtos que normalmente esses instrumentos investem.
Nas buscas, elas não ficam para trás. Nos últimos dois anos, as pesquisas pelas caixinhas aumentaram significativamente (297%), mostrou a pesquisa “Raio-X do Investidor” do Google. No mesmo período, buscas por investimentos no geral cresceram 69%, muito puxado pelas caixinhas. Em outras palavras, elas democratizaram o hábito de investir.
A soma do total investido nos principais bancos e fintechs até o momento? Mais de R$ 25 bilhões segundo levantamento da EXAME. Afinal, em algumas instituições financeiras o mínimo para se investir é de R$ 0,01, sem limite de investimento. A forma que elas rendem, por sua vez, é uma porcentagem do CDI – atualmente em patamares elevados, com a Selic em 15%.
Mas, com todo esse charme, muitos usuários podem estar usando uma estratégia perigosa para deixar o dinheiro rendendo: na hora das compras, em vez de pagar à vista, passar tudo no cartão de crédito para não tirar o dinheiro das caixinhas. Segundo especialistas, neste momento, é preciso mais do que atenção redobrada.
De acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), em 2025, o destaque dos meios de pagamento de cartões foi justamente o cartão de crédito, que cresceu 14,5%, registrando R$ 3,1 trilhões movimentados.
No acumulado do ano, o cartão de crédito se destaca também no volume de operações, com 21,6 bilhões de transações (alta de 9,6% com relação a 2024). O Banco Central calcula que o Brasil já possui mais de 200 milhões de cartões de crédito em circulação, quase o dobro do total de pessoas economicamente ativas.
Uso de cartão de crédito versus caixinha
Apesar de permitir que uma parcela da população tenha poder de consumo e, mais do que isso, facilitar as compras por meio do parcelamento, é necessário cuidado. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa de janeiro de 2026, do total de pessoas inadimplentes, 26,30% possuem restrições com instituições financeiras e cartões de crédito.
Neste sentido, as coisas podem se interligar: o movimento de deixar o dinheiro guardado em caixinhas pode ser uma justificativa para o aumento do uso de cartão de crédito.
“Quando o dinheiro guardado vira, ao mesmo tempo, garantia para gastar, cria-se uma confusão perigosa entre segurança e poder de compra. Do ponto de vista comportamental, o cliente perde clareza: o dinheiro parece protegido, mas já está comprometido”, diz Ana Paula Hornos, psicóloga e educadora financeira.
Sendo assim, a pessoa ainda sente que tem aquele valor disponível, quando, na prática, há antecipação de consumo.
Claro que se a pessoa separar o dinheiro da caixinha para pagar a fatura, deixar ele parado rendendo pode ser uma boa opção. Entretanto, o problema mora na psicologia financeira: a pessoa pode ter a ilusão de liquidez com o dinheiro no cofrinho.
“A pessoa pensa: “Tenho X mil na conta”, mas parte daquele valor já está comprometido. Essa dissociação entre saldo e obrigação futura aumenta a sensação de poder de compra”, comenta Diego Endrigo, planejador financeiro CFP pela Planejar.
Limite do cartão não é extensão da renda
Outro problema que surge é quando as pessoas entendem que limite do cartão de crédito é um valor totalmente disponível, ou seja, uma extensão da renda, explica Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Tudo isso leva as pessoas a gastarem mais do que elas deveriam.”
Segundo a especialista, outra questão é se a pessoa não tirar o dinheiro da caixinha para pagar a fatura e cair no rotativo do cartão. “Lembrando que o rendimento desses cofrinhos e dessas caixinhas é muito pequeno, perto do montante ou do custo da taxa de juros desse rotativo”, diz a coordenadora.
“Estamos falando de alguma coisa que vai render menos ou quando muito 1% ao mês e um rotativo de cartão de crédito podemos falar de taxas de 15% ao mês. Você paga de juros em um mês o equivalente ao que você ganharia em um ano guardando nesses cofrinhos”, destaca Yoshinaga.
Endrigo também complementa que em algumas instituições, o rotativo do cartão pode chegar na casa dos 300% ao ano.
Yoshinaga traz uma das principais contribuições dos psicólogos israelenses Kahneman e Tversky que justamente mostra que as pessoas são avessas a perdas. Por isso, elas “sentem menos quando gastam no cartão de crédito”, já que compram o bem agora, mas não veem o dinheiro saindo.
“Do ponto de vista de recomendação financeira, para as pessoas com dificuldade de controle, se sugere usar um cartão de débito, porque isso implica ter aquele saldo na hora para fazer a compra. Lá na frente o cartão pode acabar virando um incentivo perverso para você sair comprando mais. Nisso, as pessoas passam a achar que os parcelamentos são toleráveis, mas várias parcelas se tornam um negócio grande”, conclui.
Endrigo lista algumas estratégias simples, que podem ajudar muito:
O cartão, assim como as caixinhas, podem ser aliados se estiver subordinado a um planejamento financeiro claro, concluem os especialistas.
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