Carajás: maior jazida da Vale foi descoberta em pouso de emergência na Amazônia

Por Letícia Furlan 29 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Carajás: maior jazida da Vale foi descoberta em pouso de emergência na Amazônia

Em 1967, uma equipe de geólogos brasileiros sobrevoava o sudeste do Pará em busca de manganês, insumo essencial para a produção de aço. Contratados por uma subsidiária da US Steel, os profissionais seguiam um roteiro técnico comum à época: mapear onde havia minério em uma região ainda pouco explorada. O que encontraram, no entanto, fugiu completamente do plano original — e acabaria redesenhando o mapa da mineração global.

Foi por acaso que nasceu Carajás, hoje responsável por cerca de 65% de todo o minério de ferro produzido pela Vale (VALE3).

Conhecida como a “a última descoberta romântica da geologia”, o episódio tem como protagonista o geólogo Breno Augusto dos Santos. Durante um dos voos de reconhecimento sobre a floresta amazônica, o helicóptero da equipe precisou fazer um pouso de emergência em uma clareira — áreas incomuns em uma região marcada pela densidade da vegetação. Durante a parada inesperada, os geólogos, institivamente, decidirem analisar o solo ao redor.

O que deveria ser manganês revelou-se um pó avermelhado: minério de ferro de altíssimo teor, em uma extensão muito além do comum. Naquele momento, Breno percebeu que não estava diante de uma ocorrência isolada, mas de uma jazida de proporções excepcionais.

A descoberta, no entanto, precisava ser tratada com sigilo. Para evitar qualquer vazamento de informação, ele recorreu a um código previamente combinado e enviou um telegrama ao seu superior no Rio de Janeiro com uma mensagem aparentemente banal: “Pode mandar o soro antiofídico”. Na prática, o recado indicava que algo de grande relevância havia sido encontrado.

Nos anos seguintes, a região de Carajás passou por uma série de estudos conduzidos pela US Steel, que avaliava o potencial econômico da jazida. O projeto, porém, mudou de mãos ao longo do processo. O governo brasileiro assumiu o controle da operação por meio da então Companhia Vale do Rio Doce, em um movimento alinhado à estratégia de manter sob domínio nacional ativos considerados estratégicos para o desenvolvimento industrial.

A exploração comercial só começou em 1985, quase duas décadas após a descoberta. Desde então, Carajás se transformou em um dos principais complexos de mineração do mundo, tanto pela escala de produção quanto pela qualidade do minério extraído.

Principal pilar da operação de minério

Hoje, o minério de ferro responde por mais de 80% do balanço da Vale, e Carajás é o principal pilar dessa operação.

Em 2025, a companhia produziu 336 milhões de toneladas de minério de ferro, volume que a mantém entre as maiores mineradoras globais. Parte relevante dessa produção vem da região descoberta acidental nos anos 1960, consolidando Carajás como um ativo central na geração de receita da empresa.

A operação envolve uma logística de grande escala. O minério percorre cerca de 900 quilômetros pela Estrada de Ferro Carajás até o porto de Itaqui, no Maranhão, de onde é exportado para diferentes mercados. Apesar da magnitude da atividade, apenas cerca de 3% da área total da reserva é efetivamente utilizada para mineração, enquanto o restante permanece preservado como mata nativa.

A longevidade do ativo ainda não é uma preocupação: nem mesmo as minas mais antigas de Carajás têm perspectiva de esgotamento.

Segundo fontes ouvidas pela EXAME, o foco atual da Vale está na ampliação da produção e na incorporação de tecnologias para aumentar a eficiência operacional, incluindo o uso de sistemas autônomos. Ao mesmo tempo, a companhia começa a diversificar sua base de negócios, com atenção crescente ao cobre — metal considerado estratégico para a transição energética. A meta é dobrar a produção até 2035, movimento que já levou à criação da Vale Base Metals, unidade dedicada a esse segmento.

A história que começou com um pouso forçado no meio da floresta amazônica segue, quase seis décadas depois, como um dos principais motores da mineração brasileira — e como base de sustentação de uma das empresas mais valiosas do país.

*A reportagem viajou a Paraupebas (PA) à convite da Vale

Assista ao vídeo completo no Instagram da EXAME:

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