Carro alugado, crédito negado, nome sujo: o 'corre' do motorista de app para ter o próprio veículo

Por Clara Assunção 21 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Carro alugado, crédito negado, nome sujo: o 'corre' do motorista de app para ter o próprio veículo

"Eu era basicamente um escravo do aluguel". A afirmação de José Victor Oliveira, que há seis anos ronda as ruas de Salvador e região metropolitana como motorista de aplicativo, resume um dilema que atravessa milhares de trabalhadores brasileiros: dirigir o dia inteiro para pagar o carro sem conseguir, de fato, sair do lugar.

Depois de três anos alugando veículos para rodar nos aplicativos, Oliveira decidiu financiar um automóvel no fim do ano passado. Achou que finalmente teria um respiro, mas encontrou, porém, outro sufoco, o dos juros altos do financiamento, parcelas pesadas e o medo constante de perder o carro, justamente o instrumento que garante sua renda.

Hoje, o motorista está com três parcelas atrasadas do financiamento e recebeu nesta semana uma notificação de busca e apreensão. "Hoje, de certa forma, não sou tão escravo. Mas estou me acabando de rodar para poder pagar o valor do financiamento do carro", afirma.

A história de Oliveira ajuda a dimensionar o tamanho do desafio que o novo programa Move Brasil Táxi e Aplicativos, lançado nesta terça-feira, 19, pelo governo federal, precisará enfrentar para funcionar além da promessa oficial de crédito barato.

O programa prevê até R$ 30 bilhões via Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para financiamento de veículos novos de até R$ 150 mil para taxistas e motoristas de aplicativo. A expectativa do governo é reduzir em mais da metade o custo dos juros cobrados atualmente no mercado.

De fato, pelas simulações feitas pela EXAME com base nas taxas do Banco Central, enquanto o financiamento tradicional cobra, em média, 26,23% ao ano, o programa deve operar com taxas de 12,6% ao ano para homens e 11,6% para mulheres. Na prática, isso significa uma diferença de mais de R$ 78 mil em juros ao longo do contrato no caso de um carro no limite do programa, de R$ 150 mil.

Mas, para quem vive de aplicativo, o problema não é apenas o valor da parcela. Muitas vezes, o obstáculo começa antes, de conseguir aprovação no crédito.

Movimento R$ 8 mil por mês, mas banco não aceita

Em São Paulo, o motorista Fernando Santos, de 36 anos, trabalha há oito anos com carro alugado. Ao longo desse período, ele conta que já tentou financiar um veículo diversas vezes, mas sem sucesso. "Movimento mais de R$ 8 mil por mês, mas o extrato das corridas muitas vezes não serve como comprovação de renda", afirma.

Atualmente, Santos compromete cerca de R$ 5 mil mensais de aluguel de um carro para trabalhar. Segundo o motorista, o valor é maior do que seria uma parcela de financiamento do mesmo modelo. "O que pesa não é nem o valor do financiamento. É a falta de crédito. A maioria trabalha na informalidade. Então muita gente não consegue aprovação", diz.

Ele vê o programa federal como positivo, mas acredita que o alcance inicial será limitado. "Acho que vai beneficiar pouca gente no começo. A maioria dos motoristas não tem crédito aprovado".

Dados divulgados em outubro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas tinham os aplicativos como principal fonte de renda, uma alta em relação aos 1,3 milhão registrados no fim de 2022.

Ao todo, de acordo com levantamento da plataforma GigU, 25,4% dos motoristas que trabalham por aplicativo ainda dirigem com carros alugados. Outros 74,6% utilizam veículos próprios, quitados ou financiados.

Os dados foram coletados desde fevereiro deste ano e levam em conta cerca de 125 mil autodeclarações de motoristas de aplicativo das plataformas Uber, 99, InDrive, em todos os estados brasileiros.

"Nome sujo" também é uma barreira para comprar o carro

Se Santos esbarra na informalidade, Wilton Galvão, de 43 anos, enfrenta outro obstáculo comum entre trabalhadores do setor: o endividamento. Motorista de aplicativo em São Paulo há nove anos e meio, Galvão trabalha de 12 a 16 horas por dia para conseguir faturar entre R$ 500 e R$ 600 diários. Desse valor, R$ 3 mil por mês vão apenas para o aluguel do carro.

"É trabalhar de segunda a segunda para manter o carro rodando", afirma. Formado em gestão e marketing e especialista em planejamento estratégico de vendas, Galvão já foi eleito um dos melhores vendedores da América Latina da Caoa, vendendo R$ 35,5 milhões em um único mês. Hoje, roda em aplicativos como Uber, 99 e InDrive pela capital paulista.

"Comecei nos aplicativos meio que para testar. Na época, eu aluguei um carro para o meu irmão trabalhar, porque ele estava sem emprego fixo. Depois, comecei eu mesmo a alugar carros e percebi que aquilo podia virar uma fonte de renda", diz.

"Tinha trabalhado com vendas em concessionárias, passei pela Hyundai e pela Caoa, mas fiquei cerca de um ano fora desse mercado. Nesse período, comecei a rodar nos aplicativos e vi que conseguia ganhar dinheiro. Depois, até recebi convite para voltar para concessionária, e voltei por um tempo. Mas aí veio a pandemia", conta.

"Naquele momento, o aplicativo foi o que me segurou financeiramente. As grandes empresas estavam reduzindo salários e o mercado estava muito instável. Então decidi sair de vez e apostar no trabalho por aplicativo, porque ali eu sentia que dependia mais do meu esforço do que das empresas".

Galvão vê com entusiamos o programa Move Brasil Táxi e Aplicativos, mas admite que tem receio de não conseguir aprovação no financiamento por estar com restrições no nome. "Já estou correndo atrás para limpar o nome. Vou trabalhar ainda mais para tentar entrar no programa", diz.

Mas ele afirma que, mesmo inadimplente, pretende se cadastrar assim que as inscrições forem abertas. "Tenho mais de 33 mil viagens só na Uber. Eu sei trabalhar. Sei fazer dinheiro. Espero que isso também seja levado em consideração".

Pelas regras anunciadas até agora, porém, não há garantia de aprovação para quem está com o "nome sujo". O governo informou apenas que a análise final de crédito será feita diretamente pelos bancos participantes do programa.

E para quem já tem financiamento?

Mas a situação de José Victor Oliveira, do início da reportagem, mostra que sair do aluguel não significa, necessariamente, sair do sufoco. Depois de anos alugando carros, o motorista financiou um Fiat Cronos seminovo com entrada de R$ 15 mil e parcelas de R$ 2.780 por 48 meses.

Mas no fim do contrato, ele calcula que terá pago mais de R$ 153 mil pelo carro. Em anúncios online, o mesmo veículo está saindo por cerca de R$ 97 mil.

"As taxas de juros são muito altas, abusivas, mas, naquele momento, foi a única oportunidade que eu tive para finalmente sair do aluguel. a emoção de conseguir sair do aluguel, eu confesso que não parei para calcular direito o tamanho dos juros. A negociação foi toda online, por telefone, com uma vendedora de São Paulo. Acabei assinando o contrato sem dimensionar o peso financeiro disso no longo prazo", afirma.

A expectativa de Oliveira é que o programa do governo possa abrir espaço também para renegociar a dívida atual.

"Todos os advogados com quem conversei dizem que os juros do meu contrato são abusivos e que várias taxas cobradas ali nem seriam necessárias. Eles afirmam que eu teria direito de entrar com uma ação revisional. O problema é que, para abrir esse processo, os honorários também são muito altos, e hoje eu não tenho condições de pagar", afirma o motorista.

"Quando vi esse programa do governo, pensei que talvez pudesse surgir uma oportunidade de refinanciar minha dívida. Não sei se isso será possível, mas imaginei algo como conseguir um crédito mais barato para quitar o financiamento atual com o Banco Omni e passar a pagar parcelas menores em outra linha. Foi uma esperança que surgiu quando vi o anúncio do programa, embora eu ainda não saiba se isso realmente poderá acontecer", diz.

Até o momento, não há previsão oficial de que o programa permita refinanciamento de contratos antigos.

Parcela não é o único custo

Para especialistas, o risco é que muitos motoristas olhem apenas para a aprovação do crédito sem considerar o peso total da operação. Henrique Soares, planejador financeiro CFP pela Planejar, afirma que um motorista de aplicativo com renda mensal de R$ 8 mil deveria comprometer, no máximo, entre 20% e 30% da renda líquida com a parcela do veículo.

Na prática, isso significaria prestações entre R$ 1,6 mil e R$ 2,4 mil. As simulações do próprio programa, porém, mostram parcelas acima disso. No cenário previsto para homens, por exemplo, o financiamento de R$ 142,5 mil em 72 meses geraria prestações mensais de R$ 2.780.

"Quando falamos de motoristas de aplicativo, o ideal é ter ainda mais cautela com financiamento, porque a renda costuma ser variável e o carro gera outros custos, além da parcela. O motorista ainda precisa lidar com combustível, manutenção, seguro, pneus e períodos de menor faturamento", afirma Soares.

"O principal risco é olhar apenas para a aprovação do crédito e não para a sustentabilidade financeira da operação no longo prazo", acrescenta.

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