Cartão, pré-pago ou em espécie: qual a melhor forma de aproveitar a baixa do dólar?
O dólar à vista iniciou esta semana rompendo um patamar simbólico. Pela primeira vez em pouco mais de dois anos, a moeda americana caiu abaixo de R$ 5 na segunda-feira, 13, em um movimento que ganhou força nesta terça, 14, quando a divisa fechou com leve queda de 0,07%, cotada a R$ 4,993. Foi o menor nível em mais de dois ano e a quinta sessão consecutiva de desvalorização frente ao real.
Na semana anterior, a moeda brasileira já havia registrado o melhor desempenho contra o dólar desde agosto de 2024. O que, de acordo com a educadora financeira, planejadora pessoal e consultora independente de investimentos há mais de uma década, Carol Stange, não é um patamar trivial.
"A cotação do dólar abaixo de R$ 5 representa um nível historicamente favorável para aquisição da moeda", afirma. Ainda assim, a especialista alerta que tentar prever até onde a queda vai é uma estratégia arriscada.
"A volatilidade inerente ao mercado cambial torna a tentativa de prever o 'fundo' uma estratégia de alto risco", diz. Por isso, a recomendação mais prudente, segundo Stange, é adotar o chamado preço médio, isso significa fracionar as compras ao longo do tempo para diluir o risco.
Essa visão é praticamente unânime entre especialistas em finanças pessoais. O planejador financeiro Bruno Mori, que é membro da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), reforça que o momento ideal depende do objetivo da compra.
"Se o objetivo for dolarizar uma parte dos investimentos financeiros, o ideal é definir qual é a proporção da carteira que vai ser convertida em dólar e fazer as compras parcialmente", afirma Mori.
Para o caso em que a carteira de investimentos já está dolarizada e o objetivo é continuar fazendo os aportes mensais, a recomendação é não se "precipitar", mas aumentar a proporção destinada aos ativos em dólar em função da queda recente. "Vale lembrar que, com a cotação em queda, a mesma quantidade de reais do aporte do mês anterior vai comprar mais dólares esse mês", diz.
Já para quem está de viagem marcada, o conselho é começar a comprar com antecedência. "A estratégia é a mesma: fazer compras parciais para diminuir o risco de uma taxa de câmbio desfavorável", diz Mori. Na mesma linha, Stange sugere iniciar esse processo entre três e seis meses antes do embarque.
Qual é a melhor forma de comprar e usar dólar?
Mas com o câmbio mais favorável, surge outra dúvida prática, sobre qual é o melhor meio para comprar e gastar em moeda estrangeira, se o tradicional dinheiro em espécie, o cartão de crédito, o cartão pré-pago ou contas globais.
Segundo os planejadores financeiros consultados pela EXAME, antes de comparar, é importante entender que o custo não depende apenas da cotação. Ele envolve três fatores principais: o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o spread, que é diferença entre o câmbio comercial e o cobrado pela instituição, e eventuais tarifas.
Por isso, todos os especialistas recomendam olhar sempre o Valor Efetivo Total (VET), que reúne todos esses custos em um único indicador.
Conta global: a opção mais barata — na maioria dos casos
As chamadas contas globais, oferecidas por bancos digitais, vêm ganhando espaço como principal alternativa. Elas permitem converter reais em dólares e usar o saldo no exterior com cartão de débito. Segundo os especialistas, o principal atrativo é o custo.
"Os bancos digitais oferecem câmbio mais próximo do comercial, com spread baixo e muita agilidade", diz Mori. O IOF, nesses casos, é de 1,1% para remessas e conversões. Na avaliação de Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, esses cartões são "a forma mais inteligente e barata de levar dinheiro, além de trazer mais segurança nas transações".
Além disso, segundo Patzlaff, essas plataformas costumam cobrar o dólar comercial, que é um pouco mais em conta do que o dólar turismo, que tem ficado em torno dos R$ 5,19. "Mas, como nem tudo é perfeito, elas podem não ser a melhor se o país que você vai visitar tiver a cultura de usar muito dinheiro de papel como alguns lugares no interior da Ásia e América Latina", afirma o planejador.
Outra limitação é o fato de que os caixas eletrônicos (ATMs) costumam cobrar uma taxa fixa alta por cada saque.
Dinheiro em espécie: opção mais cara, mas ainda necessária
Já o dólar em espécie, o tradicional papel-moeda, costuma ter um custo mais elevado. Isso porque envolve logística, transporte internacional, seguro e armazenamento. "A disponibilização da moeda em espécie envolve uma operação mais complexa e custosa, por isso a taxa é mais alta", diz o especialista da Planejar.
Nesse caso, a cotação utilizada é o chamado "dólar turismo" e a alíquota de IOF cobrada é de 1,1%. Apesar disso, há um consenso entre os especialistas de que o dólar em especíe não deve ser descartado. Eles avaliam que o dinheiro vivo é essencial para pequenas despesas, gorjetas e locais que não aceitam cartões, além de funcionar como reserva em caso de imprevistos.
Gustavo Moreira, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, recomenda sempre pedir o VET antes de fechar a compra da moeda, comparar entre diferentes instituições e, se possível, negociar valores, principalmente para quantias maiores, porque existe margem para conseguir condições melhores.
"O erro mais comum é comparar apenas a cotação na vitrine, quando o correto é olhar o Valor Efetivo Total, conhecido como VET, que representa o custo final da operação já com IOF, taxas e spread incluídos. É isso que mostra de fato quanto você está pagando por cada dólar. Muitas vezes uma casa de câmbio com cotação aparentemente mais baixa acaba saindo mais cara no final", afirma.
Cartão de crédito: custo maior, mas papel estratégico
O cartão de crédito internacional, por sua vez, costuma ser a opção mais cara, principalmente por causa do IOF, de 3,5%, e do spread, que pode ser elevado. "O uso do cartão de crédito no exterior deve ser tido como uma opção secundária em função do custo mais alto em relação à conta global", diz a planejadora financeira.
Outro ponto negativo é a imprevisibilidade, em muitos casos, o câmbio só é fechado na data de fechamento da fatura, o que pode gerar surpresas, já que a cotação do dólar para cobrança vai se referir ao dólar no dia do fechamento da fatura. Parte dos especialistas, porém, avaliam que o cartão de crédito ainda assim pode ser um "colete salva-vidas" em uma emergência.
"Apesar de não ser o meio principal, o cartão de crédito é o seu colete salva-vidas e tem funções como calção, para alugar um carro ou fazer check-in no hotel, eles exigem um cartão de crédito. Fazer isso na conta global vai prender o seu dinheiro de verdade, no cartão de crédito, prende apenas o seu limite", afirma Patzlaff.
O planejador observa que ele também deve ser usado em situações de emergência, caso precise de um hospital ou comprar uma passagem de última hora. "Se o seu cartão oferece um seguro viagem excelente, acesso a salas VIP e acumula muitos pontos, usá-lo para comprar a passagem aérea, pagar o hotel ou fazer compras com valores maiores compensa", afirma.
E o cartão pré-pago?
Embora tenha sido bastante popular no passado, o cartão pré-pago vem perdendo espaço para as contas globais. Na prática, ele funciona de forma semelhante, o usuário carrega dólares e usa no exterior, mas costuma ter menos vantagens.
O custo tende a ser mais alto, com um IOF de 3,5%. Além disso, muitas vezes há tarifas de recarga e manutenção, o que reduz sua competitividade frente às novas alternativas digitais.
Existe uma combinação ideal?
A resposta, segundo os especialistas, é sim — mas ela passa pela diversificação. "Não é escolher um único meio, mas combinar opções para equilibrar custo, segurança e conveniência", afirma Gustavo Moreira.
Carol Stange sugere uma divisão de cerca de 70% em conta global, 20% no limite do cartão de crédito e 10% em dinheiro vivo. Outros especialistas trabalham com proporções semelhantes, sempre reforçando que o ideal depende do perfil do viajante e do destino.
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