'Casa de Mainha': o lar pernambucano que venceu o prêmio mundial de arquitetura
Tijolos expostos, luz natural, paredes amarelo gema e a sensação inconfundível de "conforto de mãe". Distante das propostas de condomínios de luxo de Alphaville (São Paulo) e do Leblon (Rio de Janeiro), esses são alguns dos detalhes que definem a "Casa de Mainha", residência vencedora do prêmio Building of the Year 2026, da ArchDaily, localizada no interior de Pernambuco.
O nome não é à toa, tampouco está ali só para remeter às raízes nordestinas. Localizada em Feira Nova, cidade de 20 mil habitantes, a construção é lar da costureira Dona Marinalva, de 59 anos, e foi assinada por seu filho, o arquiteto Zé Vágner, de 33 anos. Erguida por moradores locais em 1980, foi reformada no ano passado e recebeu o prêmio na categoria de "casas".
A premiação é uma das mais reconhecidas no setor, realizada pela ArchDaily internacional. A construção de Vágner é a única brasileira entre as vencedoras.
Conforto ambiental e cultural
Formado pela Universidade Federal de Pernambuci (UFPE), o arquiteto transformou a casa onde nasceu em um espaço que reflete e conversa com o clima e a cultura locais. A reforma, concluída no ano passado, manteve a estrutura original da casa e resolveu alguns dos problemas de ambientes isolados e falta de ventilação. Foi motivada por problemas respiratórios de Dona Marinalva.
Ao todo, a construção tem 165m² de área. Produzida com base nos conceitos apresentados por Armando de Holanda no Roteiro para construir no Nordeste (2010), adota o uso predominante de materiais naturais e locais, com ventilação cruzada e iluminação natural para priorizar baixos custos de construção e manutenção.
Para adaptá-la melhor às altas temperaturas de Pernambuco, Vágner manteve as paredes de adobe (tijolos de terra crua) que garantem um conforto térmico. O ponto alto do projeto foi o aumento do pé-direito com telhados de inclinações desiguais, que permitiu a instalação de uma linha de cobogós — blocos vazados que facilitam a ventilação da fachada oeste e criam um jogo de luz e sombra que se assemelha a esculturas de arte.
Segundo a reportagem do ArchDaily, cinco espaços subutilizados foram demolidos para dar lugar a uma sala de estar ampla, um jardim interno e um terraço aberto. As portas de entrada, agora restauradas, são protegidas por painéis de concreto pré-moldado, utilizados aqui como brises horizontais de baixo custo; o mesmo elemento também forma os bancos do terraço aberto.
Entre os detalhes, traz cerâmicas típicas da região, ladrilhos de Olinda e pinturas de cores quentes, que remetem ao conforto do lar de mãe.
Arquitetura brasileira com destaque internacional
Com o destaque, a "Casa de Mainha" se junta a outras construções brasileiras que já foram destaque na premiação do Building of the Year. Em 2016, um imóvel na Vila Matilde, zona Leste de São Paulo, ganhou o prêmio na mesma categoria. A casa, toda feita em concreto, recebeu investimentos de 150 mil reais e foi projetada do zero pelo escritório Terra e Tuma Arquitetos.
Foi toda feita em bloco aparente, e até o chão é de concreto. Os construtores priorizaram a iluminação natural, a ventilação e um pé direito alto. Não há revestimento. O imóvel possui no total 95 metros quadrados de área construída, com dois quartos, cozinha, sala de TV e jantar, além de garagem e uma laje aparente.
Em 2023, uma residência na favela de Belo Horizonte também foi laureada com o prêmio. O "barraco" de 66 m², com tijolos aparentes, pertence a Kdu dos Anjos, um artista de 32 anos que vive na populosa comunidade de Aglomerado da Serra, situada em um morro na região centro-sul de Belo Horizonte.
A construção tem dois andares, é bem ventilada e tem bastante iluminação natural, com janelas de batentes horizontais e uma grande varanda, construída num terreno que ele comprou em 2017.
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