Centauro, 45 anos: como uma loja com 4 funcionários de MG virou uma gigante de R$ 4 bilhões

Por Layane Serrano 1 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Centauro, 45 anos: como uma loja com 4 funcionários de MG virou uma gigante de R$ 4 bilhões

Há algo curioso na trajetória de alguns empreendedores: nem todos escolhem um setor por paixão. Sebastião Bomfim Filho, fundador da Centauro, é um deles.

Torcedor do Cruzeiro e, hoje, praticante de golfe, ele não criou a Centauro movido pelo amor ao esporte. A decisão veio de outra fonte: intuição e leitura de mercado.

“Eu queria fazer varejo. Era o que eu sabia fazer desde garoto”, afirma Sebastião.

A companhia que começou em 1981 com 4 funcionários e um conceito inovador para a época (organizar e valorizar a experiência em lojas de artigos esportivos), se tornou em um dos maiores negócios do setor no Brasil.

A rede soma mais de 230 lojas, quase R$ 1 bilhão em vendas digitais e encerrou 2025 com R$ 4,1 bilhões em receita líquida. No centro dessa trajetória está uma combinação de três fatores, além de uma característica que o próprio fundador destaca como essencial: inquietude.

“O crescimento de um negócio é um misto de assumir riscos, inovar e trabalhar muito”, afirma. “Eu sempre fui muito inquieto. Quando estava tudo bem, eu pensava em um novo desafio”.

Com exclusividade à EXAME, Sebastião Bomfim Filho, fundador da Centauro, que hoje pertence ao Grupo SBF (holding que reúne marcas como Centauro, Fisia ou Nike no Brasil, NWB, FitDance, OneFan e X3M), compartilha os principais marcos dos 45 anos da empresa, e as expectativas para o ano que tem o evento mais esperado pela marca: a Copa do Mundo.

O mineiro que fez do empreendedorismo um esporte

Antes de criar a Centauro, Sebastião já tinha passado pela experiência de empreender.

Nascido em uma família de 10 filhos no interior de Minas Gerais, ele começou a trabalhar muito cedo. Aos 16 anos, com a morte do pai, como o filho homem mais velho, interrompeu os estudos para ajudar a sustentar a família. Trabalhou na fazenda e, depois, como representante comercial no setor agrícola.

O primeiro negócio próprio veio somente aos 26 anos, com a compra de uma pequena fábrica de balanças. A empresa cresceu rapidamente, mas quebrou após a suspensão de crédito bancário no país, um choque comum na economia brasileira da época.

Com cerca de US$ 10 mil restantes, guardados “em uma caixa de tênis”, ele decidiu recomeçar no varejo.

A escolha pelo esporte veio quase como intuição, e se transformaria em um dos maiores negócios do setor no Brasil.

A pequena loja de MG que ganhou os shoppings no país

Nos anos 1980, as lojas deitens esportivos eram vistas como espaços desorganizados, com baixa experiência de compra, mas Sebastião decidiu fazer o oposto: levar o esporte para um ambiente mais premium, com melhor exposição de produtos e atendimento. Foi assim que surgiu em 1981 a primeira loja da Centauro no centro de Belo Horizonte.

Depois, a empresa tentou avançar para o interior de Minas, mas percebeu que o esforço não compensava o retorno. A virada veio com a decisão de apostar em grandes centros urbanos. O Rio de Janeiro foi o primeiro movimento relevante, e rapidamente mostrou resultado.

“Fizemos a primeira loja no Rio e foi um sucesso. Em um ano, abrimos seis lojas em São Paulo e seis no Rio.”

Na sequência, a empresa avançou para Brasília, onde abriu cerca de 10 unidades em pouco tempo.

O grande diferencial competitivo veio com a aposta quase exclusiva em shopping centers.

“A gente é um bicho de shopping center”, afirma Sebastião.

A presença nos principais shoppings do país garantiu visibilidade, fluxo de clientes e padronização da operação, fatores que sustentaram a escala da rede.

O desafio de empreender com a hiperinflação da década de 80

Empreender no Brasil nunca foi simples, mas já foi ainda mais difícil, afirma Sebastião.

Sebastião relembra o início da operação em um cenário de hiperinflação, que chegou a 80% ao mês, além de sucessivos planos econômicos.

“Você precisava receber antes das 4 da tarde para pagar no banco. Era outro nível de instabilidade.”

Hoje, embora o ambiente seja mais competitivo, ele vê avanços na previsibilidade e nas condições de operação.

“O Brasil continua desafiador para empreender, mas já foi muito mais instável do que é hoje,” diz o empresário.

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Quando a Centauro virou fabricante para sobreviver

No início dos anos 1990, diante da instabilidade econômica do país, a limitação de presença de marcas internacionais e de confecções se tornou um desafio para o varejo - foi assim que a empresa decidiu montar sua própria produção para abastecer as lojas.

“Teve um momento em que praticamente não existia mais nenhuma marca de confecção no Brasil. A gente teve que montar uma confecção”, afirma o fundador.

A iniciativa começou como solução para manter o negócio operando, mas acabou deixando um legado importante.

Com o tempo, a experiência contribuiu para o desenvolvimento de marcas próprias e maior controle sobre o portfólio, um movimento que hoje é comum no varejo, mas ainda incipiente na época, segundo Sebastião.

Quando o negócio se tornou o Grupo SBF

Em 2019, a Centauro passa por um novo momento estrutural com o IPO, se tornando um ecossistema esportivo que deu origem ao Grupo SBF.

O movimento incluiu aquisições e, principalmente, a parceria com a Nike, que transferiu sua operação no Brasil para a empresa, dando origem à Fisia.

“Foi uma questão de credibilidade construída ao longo do tempo”, afirma o fundador.

Hoje, o negócio está dividido de forma equilibrada: cerca de 50% da operação vem da Centauro e 50% da Fisia, consolidando o grupo como um dos principais players do esporte no Brasil.

O conceito das megalojas importado dos EUA

Outro movimento que escalou a Centauro no Brasil foi inovar no modelo das lojas. Até os anos 1990, segundo Sebastião, as unidades eram pequenas, entre 60 e 150 m².

“Eu via megalojas de livros em um país em que a leitura não é o forte e me perguntei: como o país do futebol não tinha uma megaloja de esporte?”, conta Sebastião.

Antes de tirar o projeto do papel, o empresário viajou para os Estados Unidos para entender como funcionavam os grandes formatos de varejo.

“Nos Estados Unidos, já existiam projetos fantásticos, mas que não cabiam no Brasil”, diz.

Mas foi com essa inspiração internacional que o conceito de megastore da Centauro chegou ao Brasil em 2000, quando a empresa passou a priorizar lojas maiores, mais completas e com experiência que já começa no chão da loja.

“A criação da primeira megastore esportiva do Brasil aconteceu em São Paulo, em um espaço de 2.400 m² com áreas de experimentação, tecnologia e interação”, diz Sebastião.

O modelo virou referência e abriu caminho para a expansão nacional. Entre 2000 e 2010, as megalojas impulsionaram um crescimento médio de 27% ao ano para o negócio.

A aposta em tecnologia desde o começo do negócio

A aposta em tecnologia não é algo tão recente para a Centauro. As soluções digitais aceleram os negócios da companhia desde os tempos dos primeiros computadores.

Ainda nos anos 1980, Sebastião conta que a empresa utilizava sistemas básicos para gestão. Já em 1998, começou a operar no e-commerce - em um período em que o ambiente digital ainda enfrentava desafios como fraude e baixa confiança do consumidor.

“Quando começamos no digital, lá em 1998, era um desafio enorme. Tinha muita fraude de cartão de crédito”, afirma. “Mas desde aquela época percebemos que sem tecnologia não seria possível tomar decisões na velocidade que o varejo exige,” afirma.

Hoje, o digital já representa R$ 923 milhões em receita anual, com crescimento de quase 20%, segundo o balanço da companhia.

Nova fase: as apostas para este ano

Aos 45 anos, a Centauro entra em uma nova fase, com foco em produtividade das lojas e experiência do cliente.

Entre os movimentos está o lançamento da “Casa Centauro”, novo escritório em São Paulo com mais de 9 mil m².

O ambiente foi desenhado para reforçar a cultura esportiva, com academia, espaços de teste e integração entre equipes.

“Não se faz varejo com home office. Varejo é presença, é estar na loja”, afirma Sebastião.

Ano de Copa do Mundo: “esperamos esse momento de 4 em 4 anos”

A expectativa para o ano se intensifica com o evento que move o ponteiro de vendas da Centauro: a Copa do Mundo. Segundo o empresário, a empresa já começou a capturar essa demanda com lançamentos de produtos ligados a seleções e clubes.

“É o nosso ano. A gente espera esse momento de quatro em quatro anos”, diz o fundador.

O ano também é marcado pelo acordo entre Mercosul e União Europeia, que deve entrar em vigor em maio. No entanto, Sebastião não vê um impacto direto nos negócios.

“Não vejo impacto relevante no nosso negócio com esse acordo, porque a cadeia de produção do setor esportivo está muito mais concentrada na Ásia do que na Europa”, diz Sebastião.

A principal preocupação do empresário, no entanto, está no alto nível de endividamento das famílias, o que pode limitar o consumo.

“A gente ainda vê um cenário desafiador, com endividamento das famílias em nível muito elevado”, diz o empresário.

Os resultados de 2025 e o que se espera neste ano

Apesar de todos os desafios, a Centauro chega ao aniversário de 45 anos com crescimento consistente em 2025:

Para 2026, o fundador não pode comentar o número de lojas que pretendem abrir neste ano e expectativa com o faturamento, mas, segundo ele, a meta é manter o ritmo de crescimento, impulsionado por Copa do Mundo, além da expansão e reformas de lojas, lançamentos de produtos e maior integração entre o físico e o digital - todos os movimentos pensando no cliente.

“Empreender, no final, é um misto de risco, inovação e trabalho. Mas, no fim, tudo começa pelo cliente”, diz o fundador. “Quem está no varejo e não pensa em servir os outros, não deveria estar aqui.”

Aos 45 anos, o fundador da Centauro mostra que para 'vencer' no varejo, é como no esporte: é preciso ter estratégia, resiliência e capacidade de adaptação a cada novo cenário.

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