CEO da Latam vê 'bomba atômica' em reforma tributária que leva imposto a R$ 6 bi
O CEO da Latam, Jerome Cadier, classificou a reforma tributária como uma "bomba atômica" e um "desastre" para o setor aéreo e de turismo. Segundo o executivo, a mais ampla reestruturação do sistema de impostos sobre o consumo desde a Constituição, em 1988, poderá triplicar a carga tributária atual paga pela companhia aérea.
"Apesar de a reforma tributária ser boa para o Brasil, necessária, e de a intenção por trás dela ser impecável, quando ela se aplicou a alguns setores é uma bomba atômica. É um desastre para a gente", afirmou Cadier.
"A Latam paga por ano R$ 2 bilhões em impostos hoje. Com a reforma tributária implementada, isso vai passar para R$ 6 bilhões. E não é a Latam que paga o imposto. A Latam repassa o imposto. Quem paga é o cliente, é quem está voando", acrescentou
Cadier argumentou que o aumento da tributação compromete a expansão do setor e dificulta investimentos de longo prazo. Segundo o executivo, empresas aéreas precisam de previsibilidade para ampliar operações, trazer novas aeronaves e gerar empregos. "Hoje a gente não sabe o que vai acontecer. Todas as discussões são de curtíssimo prazo. O que a gente precisa é de um plano de longo prazo para o turismo brasileiro", afirmou.
A reforma tributária, que vem sendo regulamentada desde o ano passado, criou o chamado Imposto sobre Valor Adicionado (IVA). O tributo incidirá apenas sobre o valor adicionado em cada etapa da cadeia de produção e comercialização. Ele é não cumulativo e, com isso, as empresas recuperam o imposto pago nas etapas anteriores, evitando a cobrança em cascata.
Mas o novo imposto, o IVA, deve ficar entre 26% e 27%, o que, segundo as empresas do setor aéreo, impactará diretamente os custos repassados aos passageiros. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) calcula que uma viagem doméstica que hoje custa R$ 650 deve subir 23%, chegando a R$ 800 por trecho.
Já os voos internacionais devem registrar aumento ainda maior, de 26%, elevando o valor médio de US$ 740 para cerca de US$ 935, o equivalente a R$ 4.675.
Turismo do Brasil faz um 'trabalho medíocre', diz CEO da Latam
O executivo também criticou a falta de coordenação entre os diferentes agentes da cadeia do turismo. Durante o evento, Cadier afirmou que embora os profissionais do setor desempenhem bons trabalhos individualmente, o resultado coletivo é insuficiente. "Coletivamente, o turismo do Brasil faz um trabalho medíocre", disse.
Como exemplo, Cadier citou o desempenho de países vizinhos como o Chile, que tem o dobro de passageiros por habitante em relação ao Brasil, apesar de o país brasileiro ter mais atrativos turísticos. O CEO da Latam também mencionou a concorrência de destinos internacionais que atraem mais visitantes do que o Brasil.
Para o executivo, a falta de uma atuação conjunta também ficou evidente na incapacidade do setor de convencer o governo sobre os impactos da reforma tributária. "A gente não conseguiu nem convencer o governo que essa reforma tributária é absurda", afirmou.
Outro ponto de preocupação destacado por Cadier foi a escalada dos custos com combustível de aviação. Segundo ele, o preço médio pago pelas companhias aéreas passou de cerca de US$ 90 por barril para US$ 180, praticamente o dobro do registrado anteriormente.
O aumento dos custos tem provocado revisões nas operações das empresas aéreas, incluindo a reavaliação de frequências de voos e reajustes de tarifas. "Não tiramos nenhuma rota, ainda não deixamos de conectar nenhuma cidade, mas os preços vêm subindo para compensar parte desse efeito combustível. Isso é inegável", afirmou.
Nesta terça, 9, as companhias aéreas Azul, Latam e Gol formalizaram pedidos de acesso a uma linha de crédito de R$ 5,5 bilhões do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), com o objetivo de enfrentar desafios financeiros, como o aumento do preço do querosene de aviação. A medida inclui contrapartidas para ampliar a presença nas regiões da Amazônia Legal e Nordeste.
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