Cessar-fogo entre Irã e EUA alivia fertilizantes, mas crise persiste
O acordo de cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos trouxe um alívio pontual ao mercado global de fertilizantes nitrogenados, ao reduzir o risco imediato de novas rupturas na oferta.
Ainda assim, o cenário segue distante da normalidade, com baixo volume de negócios e cautela elevada entre os agentes, avalia a Stone X, consultoria de commodities.
“As tensões diminuíram no curto prazo, mas o mercado ainda opera com muita incerteza. A atividade segue limitada e os preços continuam firmes, justamente porque os problemas estruturais de oferta e logística não foram resolvidos", diz Tomás Pernías, analista da Stone X.
E esse sentimento já mostra reflexos no campo. Um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, divulgado na última sexta-feira, 10, mostra que o aumento dos preços dos fertilizantes e o risco de interrupção no fornecimento estão forçando produtores a rever planos em pleno início das decisões para a safra 2026/27, que começa em 1º de julho.
No caso do Irã, o país é um dos principais fornecedores globais de ureia, muito utilizado no plantio do milho. Desde o início do conflito, os preços da ureia acumulam alta de 61% no Brasil, o que tem gerado resistência dos compradores, mostra a StoneX.
Além disso, as relações de troca entre ureia e milho estão nos piores níveis dos últimos anos, reduzindo o poder de compra do produtor rural e dificultando o avanço das negociações.
E há um agravante estrutural: a dependência externa. O Brasil importa 85% dos insumos que utiliza. Na prática, isso significa que o produtor brasileiro está exposto tanto ao preço quanto ao risco físico de falta do produto.
Essa dependência se distribui entre diferentes nutrientes: o nitrogênio é importado principalmente na forma de ureia, com forte presença de Rússia e China; o fosfato depende de países como Marrocos e Rússia; e o potássio é fornecido por Canadá, Rússia e Bielorrússia.
Para o milho, o impacto imediato é menor porque a safra atual já foi plantada. Ainda assim, os preços da ureia e do fosfato também se aproximam de máximas históricas, o que pode influenciar as decisões para 2027.
Mesmo com a possibilidade de maior estabilidade caso as negociações avancem, a normalização do mercado no curto prazo é considerada improvável.
A fragilidade do processo diplomático e os custos elevados de seguro de guerra nas rotas pelo Estreito de Ormuz continuam pressionando o comércio internacional.
O impacto acontece justamente porque a região é responsável por escoar cerca de um terço dos fertilizantes transportados por via marítima, o que transforma qualquer instabilidade em choque imediato de preços e oferta.
“Qualquer frustração nesse processo pode trazer de volta a volatilidade de preços. O cessar-fogo ajuda, mas está longe de ser uma solução definitiva”, diz Pernías.
Estreito de Ormuz
Segundo relatório da StoneX, do lado da oferta, os gargalos logísticos continuam sendo um fator crítico. A navegação no Estreito de Ormuz permanece praticamente paralisada, enquanto a produção iraniana foi afetada nos últimos dias.
No domingo, 13, além do Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que bloquearia o Estreito de Ormuz após as negociações de paz do fim de semana em Islamabad entre os EUA e o Irã não terem resultado em um acordo.
Mesmo em um cenário de retomada das rotas, a prioridade deve ser a liberação das cargas acumuladas, e não novos embarques. Com isso, diz Pernías, o represamento logístico deve prolongar os efeitos da crise no mercado global.
“Ainda que o fluxo de navegação pelo Estreito de Ormuz seja retomado, é esperado que o mercado global permaneça enfrentando dificuldades. O cessar-fogo reduz a tensão, mas não resolve os desequilíbrios estruturais no curto prazo”, afirma.
Se o choque já seria relevante por si só, o timing torna a situação ainda mais delicada. A compra de fertilizantes para a próxima safra do Brasil ocorre entre fevereiro e maio, justamente durante a escalada do conflito.
E os números mostram cautela no campo uma vez que apenas cerca de 30% do volume estimado havia sido adquirido, abaixo da média dos últimos anos.
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