China e Índia: por que os países mais populosos (quase) nunca estão na Copa?
Com a Copa do Mundo de 2026 a todo vapor, 48 times representam seus países. A maior edição do torneio até então, a Copa desse ano é palco de azarões que nunca pisaram nos gramados do evento como Cabo Verde, Curaçao e Uzbequistão, que competem pela primeira vez — países consideravelmente menores e com menos recursos do que a China e a Índia.
Todavia, ambos os países se classificaram para a Copa apenas uma vez.
O caso da Índia aconteceu em 1950, e não foi por mérito do país: a seleção indiana obteve classificação automática para a primeira edição do torneio no Brasil após todas as outras seleções asiáticas com melhor desempenho na Copa da Ásia terem renunciado às suas posições.
Mesmo assim, a Índia veio para o Brasil, por conta de altos custos e pouco tempo de preparo. Ou seja, se qualificaram uma vez, mas nunca chegaram a jogar.
A China conseguiu sua classificação para a Copa de 2002, na qual acabou em um grupo azarado. No Grupo C, enfrentou Costa Rica, Turquia e, infelizmente para eles, o Brasil de Ronaldinho, Ronaldo Fenômeno, Cafu e Rivaldo. Perderam todos os jogos, por 2-0, 3-0 e 4-0 respectivamente, sendo eliminados na fase de grupos sem marcar um único gol, e concedendo nove.
Então, por que essas potências asiáticas, com tantos recursos financeiros e uma vasta fonte de talento em potencial, não conseguem apresentar desempenhos melhores no torneio? Veja alguns motivos que limitam o futebol nesses países:
Falta de base na Índia
Rua de comércio em Thiruvananthapuram, no sul da Índia: apesar da maior população do mundo, o futebol não consegue formar raízes no país (Creative Touch Imaging Ltd./NurPhoto/Getty Images)
O país mais populoso do mundo, apesar da proeminência do críquete como esporte nacional, não carece de fãs de futebol. Reconhecendo isso, a FIFA correu atrás de contratos de transmissão que, até as vésperas do torneio, ainda não haviam sido assinados.
O órgão fechou um contrato com a empresa de entretenimento indiana Zee Entertainment no dia primeiro de junho, apenas 10 dias antes da Copa, por uma cifra não divulgada — todavia, fontes familiarizadas com o assunto disseram à mídia que a FIFA reduziu seu preço usual de US$ 100 milhões pelos direitos de transmissão para US$ 60 milhões.
A aposta reflete uma confiança nos telespectadores indianos que ultrapassa preocupações com a popularidade do futebol no país e com o problema do fuso horário, que faz com que muitas das partidas sejam durante a madrugada na Índia.
Mesmo assim, sua seleção, Blue Tigers (Tigres Azuis), nunca passou das etapas preliminares dos torneios de qualificação da Ásia. Na posição de número 138 de 211 no ranking de seleções da FIFA, bem abaixo dos outros azarões dessa edição, um lugar na Copa ainda parece algo fora do alcance da Índia, pelo menos atualmente.
A classificação sublinha a escala do desafio que o futebol indiano enfrenta. Como disse Kalyan Chaubey, o primeiro ex-jogador de futebol a se tornar presidente da AIFF (All India Football Federation, semelhante à CBF), após assumir o cargo em 2022.
"Não venderei sonhos de que a Índia jogará a Copa do Mundo em oito anos. Em vez disso, direi que levaremos o futebol indiano adiante a partir de sua condição atual", disse.
Quase quatro anos depois, a questão é se a sua administração conseguiu isso. Muitos veteranos do futebol indiano acreditam que não, mas mantém as esperanças.
Baichung Bhutia, ex-capitão da seleção nacional e um dos maiores nomes do futebol indiano, acredita que não é impossível – embora não haja atalhos.
Bhutia acrescentou que não falta talento em um país grande como a Índia. "O que falta é o ecossistema adequado, pois não temos um programa de base sério com uma visão de longo prazo. É o esporte coletivo mais popular do mundo e precisaremos de tempo para que os resultados apareçam", afirmou.
Corroborando essa perspectiva está Shyam Thapa, outro grande nome do esporte na Índia, que protagonizou o maior sucesso internacional do futebol indiano nos Jogos Asiáticos de 1970, conquistando o bronze para seu país.
Conhecido por seus gols de bicicleta, Thapa também se irrita com a falta de uma base que fortaleça o futebol indiano, argumentando à BBC que é necessário incentivar o interesse principalmente das crianças pelo jogo.
"Eu mesmo administrei uma academia de jovens por anos e posso garantir que quanto mais crianças se dedicarem ao futebol, maiores serão as chances de encontrarmos talentos promissores. No entanto, o que a AIFF fez para implementar um sistema nesse sentido?"
O jogador aposentado acrescenta que muitos pais indianos estão levando seus filhos para campos de treinamento de críquete, na esperança de que eles consigam um "contrato lucrativo na Liga Indiana de Críquete (IPL)". "Eles precisam entender que também é possível ganhar muito dinheiro se conseguirem construir uma carreira no futebol", disse ele.
China na Copa
Xi Jinping, que se diz fã de futebol, falhou em cultivar uma boa cena do esporte no país,apesar de investimentos intensos (Leon Sadiki/Getty Images)
O vizinho da Índia e o segundo país mais populoso do mundo, a China também luta para estabelecer uma equipe nacional forte.
Na posição 91 do ranking, a paixão dos chineses pelo futebol parece ser ainda maior do que a dos indianos, com internautas acompanhando de perto a equipe de arbitragem chinesa nessa Copa, na ausência de outros representantes. E, ao contrário da Índia, a China fez investimentos pesados no esporte ao longo dos anos.
O dirigente chinês, Xi Jinping, declarou, em 2011, quando ainda era vice-presidente, seus três desejos para o futebol chinês: classificar-se para a Copa do Mundo, sediá-la e vencê-la.
Para esse fim, um plano de 50 pontos foi implementado em 2015, que gerou grande expectativa e abriu as portas para investimentos no futebol, tanto na liga nacional chinesa quanto na aquisição de clubes europeus por chineses.
Menos de dois anos depois, técnicos da Premier League inglesa, incluindo Arsène Wenger, do Arsenal, e Antonio Conte, do Chelsea, começaram a se preocupar publicamente com o poder de atração financeira da liga chinesa e a ameaça que ela representava para as ligas europeias.
]Todavia, os esforços não vingaram: escândalos de corrupção, interferência política e uma filosofia de futebol imposta pelo governo, de cima para baixo, em vez de construída pelo interesse do povo, de baixo para cima.
E a mão do governo também pesa no futebol doméstico: mais de metade dos times da Superliga Chinesa começaram essa temporada com saldo negativo devido a punições por arranjar partidas, apostas e corrupção. Mais de dez jogos depois, ainda há times negativados.
A interferência de dirigentes e autoridades do Partido Comunista Chinês no futebol nacional teve impacto tão profundo quanto as limitações enfrentadas pelos clubes. Integrado à estrutura burocrática do estado, o esporte é administrado por uma associação que, na prática, responde ao aparato governamental.
Sob o governo de Xi Jinping, o desenvolvimento do futebol foi elevado à condição de prioridade nacional, cercado por metas ambiciosas, campanhas oficiais e planejamento centralizado.
Essa abordagem, quando aplicada ao esporte, pode dar frutos. Afinal, é com base nesse modelo que a China é uma das maiores medalhistas olímpicas do mundo, ocupando o quinto lugar, segundo lista da Enciclopédia Britannica.
No entanto, a experiência evidenciou os limites dessa abordagem no futebol: embora o país tenha demonstrado capacidade de liderar setores industriais estratégicos, como o de veículos elétricos, e de formar atletas olímpicos de elite em diversas modalidades, o futebol mostrou-se menos suscetível a resultados decorrentes de diretrizes estatais e metas administrativas.
Algo como o amor ao esporte, estima a revista britânica The Economist, é melhor cultivado como uma iniciativa popular, atraindo crianças, formando clubes comunitários e fortalecendo uma cena amadora sólida.
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