Chineses fumam quase metade dos cigarros do mundo — e o governo não consegue mudar isso

Por Matheus Gonçalves 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Chineses fumam quase metade dos cigarros do mundo — e o governo não consegue mudar isso

O tabagismo encontra na China seu maior polo — com uma população de 1,4 bilhão, cerca de 300 milhões são fumantes, o que se traduz em cerca de 2,4 trilhões de cigarros vendidos no país por ano, ou mais de 40% do consumo mundial de tabaco.

A indústria na China desafia tendências globais, já que o número de fumantes, em média, vem caindo pelo mundo, de 34,3% dos adultos sendo fumantes em 2000 para 21,7% em 2022, data do último censo global da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar do número de fumantes per capita também vir caindo no país, à medida que menos jovens desenvolvem o hábito, a tendência tabagista em geral na China segue na direção oposta: entre 2003 e 2023, o consumo de cigarros no país aumentou em 39%. Em comparação, a figura global do consumo de cigarros registrou uma redução de 26% no mesmo período.

Apuração da revista britânica The Economist estima que, todos os anos, cerca de 2,6 milhões de chineses morrem prematuramente devido a doenças relacionadas ao tabagismo.

Esses problemas de saúde representam 23% de todas as mortes anuais; em comparação, nos Estados Unidos, o percentual é de 10%. O Atlas do Tabaco, um recurso online produzido pela Universidade Johns Hopkins e pela Vital Strategies, uma ONG de saúde pública, estima ainda que o tabagismo custa à China cerca de US$ 300 bilhões por ano em tratamento e perda de produtividade.

O incrível número de fumantes revela uma dinâmica econômica importante na China: a indústria do tabaco, apesar de indesejável, é monopolizada pela Administração Estatal do Monopólio do Tabaco (STMA, na sigla em inglês), que mantém preços baixos e consistentes, garantindo a acessibilidade do tabaco em todo o país e tornando-se, nesse processo, parte integral da economia.

Segundo apuração do New York Times, o preço de um maço de cigarro na China costuma ficar em torno de 3 dólares, o que equivale a 20 yuans ou cerca de 15 reais — um terço do preço médio nos EUA.

Dessa forma, o elevado número de fumantes gera bilhões de dólares por ano para a China, o que ajuda o país a lidar com seus problemas financeiros. No ano passado, a STMA sozinha reportou lucros de US$ 244 bilhões, uma cifra que representa cerca de 7% de todo o lucro do governo e quase todo o orçamento de defesa do país, apura o New York Times.

Isso faz com que o tabagismo na China seja parte constante do cotidiano e um aspecto indesejável, mas indispensável à economia, o que, por sua vez, se traduz em considerável influência política para a indústria do tabaco.

A economia política do tabaco na China

Apesar de haver limites duros à venda e ao consumo de vapes na China, 90% dos cigarros eletrônicos do mundo são produzidos no país. Mesmo assim, são regulamentados para que não roubem o protagonismo do tabaco.

O presidente da China, Xi Jinping, já havia condenado o tabagismo em seu país mesmo antes de se tornar o líder chinês mais influente em décadas. Em 2012, enquanto era vice-presidente, Xi, ex-fumante, descreveu ao empresário americano Bill Gates o uso de tabaco como um dos mais sérios problemas do país, antes de prometer "fazer algo em relação ao tabaco".

Mesmo assim, 14 anos mais tarde e sob o controle firme de Xi, a China fez pouco progresso nesse âmbito, devido à forte influência política e à importância econômica da indústria do tabaco.

Em meio a um crescimento econômico desacelerado por crises, como os intensos problemas no mercado imobiliário, os lucros da indústria tabagista tornaram-se cada vez mais importantes para a economia, injetando recursos diretamente em diversos setores essenciais para o país.

No ano passado, por exemplo, a STMA contribuiu com mais de US$ 1 bilhão distribuído entre os maiores bancos do país para reforçar o sistema econômico. Também apoiou fundos nacionais de investimento em semicondutores — uma importante indústria emergente no país, à medida que a China busca aumentar sua competitividade no setor — com mais de US$ 100 bilhões distribuídos.

Um estudo conduzido pelo professor Zheng Rong, da Universidade de Comércio e Economia Internacional de Pequim, concluiu que cerca de metade do lucro de cada cigarro individual acaba diretamente nos cofres do governo.

Em alguns lugares do país, o dinheiro proveniente dos impostos sobre essa indústria representa mais de metade do orçamento de cidades inteiras, como em Kunming, na província de Yunnan, que obtém mais de 50% de seu orçamento de cerca de 11 bilhões de dólares apenas da indústria do tabaco. Isso faz com que iniciativas contra o fumo no país sejam rapidamente derrotadas.

O peso econômico naturalmente se traduz em influência política, com alguns membros sêniores do órgão tabagista em posições de poder consideráveis no governo. Por exemplo, o diretor da STMA, Yao Laiying, ocupa um cargo no governo equivalente ao de um vice-ministro, o que lhe permite influenciar a política do país em torno de seus interesses.

Em 2017, por exemplo, a STMA conseguiu influenciar um movimento político que visava proibir o fumo em locais fechados, atribuindo a responsabilidade pela fiscalização aos governos locais, que têm consideravelmente menos capacidade de fazer cumprir a proibição, o que levou muitos chineses a acender cigarros normalmente em espaços como trens e bares, ajudando a manter o consumo de cigarros conveniente e generalizado.

Em 2022, o órgão conquistou outra importante vitória, desta vez contra os vapes, impondo regras extremamente duras para cigarros eletrônicos, como limites sobre onde podem ser comprados e vendidos e o banimento total de versões saborizadas. Isso fez com que, ao contrário de outros países, os vapes na China não reduzissem o consumo tradicional de cigarros.

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