Chocolat du Jour: como a verticalização e a 2ª geração impulsionam a marca

Por Giulianna Iodice 4 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Chocolat du Jour: como a verticalização e a 2ª geração impulsionam a marca

Há um certo encanto inebriante que envolve o chocolate. Não por acaso: o cacau, sua essência mais pura, já foi reverenciado como alimento dos deuses e tratado como sagrado por civilizações antigas, que reconheciam, em seu sabor, algo próximo do divino. Embora eu não me considere exatamente uma devota, fui tomada por esse fascínio ao atravessar as portas da fábrica da Chocolat du Jour, na Zona Oeste de São Paulo.

Negócio familiar que nasceu de forma discreta em 1987, a marca ganhou forma quando Claudia Landmann decidiu estudar chocolate fino na Bélgica — referência máxima em chocolate, ao lado da Suíça — e trouxe para o Brasil uma versão de trufa primorosa, inspirada nos belgas, mas adaptada ao paladar brasileiro.

Hoje, sob o comando dos filhos Patrícia e Manoel Landmann — respectivamente diretora de marketing e CEO — a marca, que atravessou décadas mantendo-se no topo do mercado de chocolates, investiu na verticalização da produção, controlando todas as etapas do processo, algo incomum no segmento.

Com produção anual de cerca de 100 toneladas, a Chocolat du Jour possui 14 lojas próprias espalhadas pelo Brasil, além de uma operação online que atende todo o país. Tudo nasce na fábrica que visitei, de onde saem criações elaboradas a partir do cacau cultivado na Fazenda Santa Luzia, localizada no sul da Bahia — propriedade adquirida pela família em 2017.

“Nossa capacidade produtiva de cacau na fazenda é de 60 mil quilos por ano. Desses, em média, 22,5 mil são de cacau fino”, conta Manoel. Para quem não conhece as diferenças entre as matérias-primas, vale a explicação: o cacau convencional sustenta a produção em larga escala, com perfis mais diretos e padronizados; já o cacau fino aponta para outra direção. Cultivado com atenção minuciosa em cada etapa, revela nuances que escapam ao óbvio — notas frutadas, florais, por vezes levemente ácidas ou amadeiradas — e transforma o chocolate em algo que vai além do simples doce: uma expressão de origem, de processo e, sobretudo, de intenção.

É justamente ele que dá alma às criações da Chocolat du Jour, cuja linha é extensa e constantemente renovada, principalmente em datas comemorativas. Entre os mais vendidos, as truffes du jour, onde tudo começou, brilham em versões não convencionais e brasileiríssimas, como a de jabuticaba, que se assemelha na aparência e na mordida à fruta verdadeira.

A fantástica fábrica de chocolate

Adentrar os andares da Chocolat du Jour, na véspera da Páscoa, é como presenciar arte em movimento — ou, nas palavras da própria marca, #beantoart. “O trabalho é extremamente manual, em todas as etapas. São muitas mãos”, conta Patrícia.

Com 40 funcionários, muitos deles veteranos, a produção combina intensidade e delicadeza. Vejo a montagem de um ovo inteiro de corações, criação de 2026. Ao lado, outro, imitando um cogumelo, pintado à mão, vistoso e imponente. Bombons alinhados com precisão; ovinhos pequenos, que lembram a infância. Silêncio absoluto, concentração total no que importa: chocolates frágeis, que derretem facilmente em mãos quentes e exigem cuidado extremo em cada gesto.

Uma produção extremamente artesanal — e que, segundo os números, que nunca mentem, funciona. Nos últimos anos, a empresa cresceu 21%, e até o fim deste ano projeta mais 20% de crescimento. Décadas de trabalho não se resumem apenas ao produto, mas também à educação do consumidor e do mercado, para que se compreenda e valorize o que torna esses chocolates especiais. Os movimentos de valorização da saúde e a tendência a prestar mais atenção à procedência do que se come, também corroboram positivamente.

Com sentidos aguçados, provo uma sequência de bombons e trufas da marca e concluo: por aqui, nem o cacau nem os deuses são desrespeitados.

A coluna Por trás dos pratos, publicada semanalmente na Casual EXAME, traz os bastidores da gastronomia em entrevistas com chefs, empresários, restaurateurs e profissionais que constroem a cena atual, sob a visão de uma jornalista com formação culinária, que busca observar, entender e traduzir essa “cena invisível” para o leitor. As conversas abordam cozinha, negócios e pessoas, revelando um ecossistema que não aparece nos menus, mas sustenta cada serviço.

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