CIA tentou criar 'gatinhos espiões' durante a Guerra Fria
Um gatinho andando por ruas, prédios e janelas não é algo que levantaria suspeitas de ninguém. Por isso mesmo, no auge das tensões durante a Guerra Fria, enquanto Estados Unidos e União Soviética disputavam informações um do outro, a Agência Central de Inteligência (CIA) americana teve uma ideia inusitada.
Entre 1964 e 1967, a CIA tentou treinar gatinhos para serem espiões. Com o nome de "Acoustikitty" ("Gatinho Acústico", em tradução livre), o programa custou cerca de US$ 20 milhões e terminou sem que um animal fosse usado operacionalmente uma única vez, de acordo com a revista Smithsonian.
Como funcionou o programa 'Acoustikitty'?
A ideia, segundo a própria CIA, era simples. Um gato poderia se aproximar de conversas em locais abertos, como um banco de praça onde agentes soviéticos se encontravam, sem levantar qualquer suspeita.
Para isso, o animal seria equipado com tecnologia de escuta e enviado para monitorar essas conversas à distância.
O processo de transformar um gato comum em espião tinha como maior desafio fazer com que o animal continuasse parecendo um gato normal, sem protuberâncias visíveis ou cicatrizes suspeitas.
Trabalhando com contratados externos de equipamentos de áudio, a CIA desenvolveu um transmissor de pouco menos de dois centímetros para ser implantado na base do crânio do animal. O microfone foi instalado no canal auditivo. Já a antena foi feita de fio finíssimo e entrelaçada discretamente ao longo do pelo, da cabeça até a cauda.
As baterias foram o maior obstáculo técnico: o tamanho do gato limitava o uso apenas das menores disponíveis, o que restringia o tempo de gravação.
Os dispositivos foram implantados em procedimento cirúrgico de baixo risco, sob as mesmas condições de uma clínica veterinária convencional, segundo a CIA. "A tecnologia funcionou", admitiu a própria agência à revista. O problema estava em outro lugar.
Por que os gatinhos espiões falharam?
Qualquer dono de gato provavelmente já até imaginou o motivo central para o fracasso do programa Acoustikitty: o animal simplesmente fazia o que queria.
"Durante os testes de campo limitados, o gato ia aonde queria, e não para onde queríamos que fosse", reconhece a CIA.
A fome era um dos maiores problemas. O animal se distraía facilmente, o que levou a uma cirurgia adicional para tentar contornar o comportamento, de acordo com a Smithsonian.
Os relatos sobre o destino do Acoustikitty divergem.
A versão mais difundida, segundo a Popular Science, é a do ex-agente da CIA Victor Marchetti, que afirma que um gato foi atropelado por um táxi durante seu primeiro teste de campo, antes mesmo de chegar perto dos alvos.
A CIA, no entanto, desmente essa versão, classificando-a como uma brincadeira mal interpretada de um ex-funcionário. O que a agência confirma é que o programa foi encerrado em 1967. Um memorando da CIA intitulado "Opiniões sobre gatos treinados", acessível de forma parcialmente censurada pelo arquivo da Universidade George Washington, conclui que "gatos podem ser treinados a se mover por curtas distâncias" — descrito como "uma conquista científica notável" — mas que "o programa não se prestaria de forma prática às nossas necessidades altamente especializadas".
O treinador de animais Bob Bailey, que trabalhou no projeto, defende que o programa não foi um fracasso total. "Nunca encontramos um animal que não pudéssemos treinar", disse à Smithsonian. "Descobrimos que podíamos condicionar o gato a ouvir vozes cada vez mais e a prestar menos atenção a outras coisas."
Animais espiões que a CIA criou durante a Guerra Fria
O Acoustikitty não foi o único caso em que a CIA recrutou o reino animal para missões de inteligência durante a Guerra Fria.
Segundo a própria agência, ela equipou pombos com câmeras em miniatura presas ao peito por uma pequena correia. Os pássaros eram soltos sobre áreas secretas em países estrangeiros e fotografavam o terreno enquanto voavam de volta para casa. A vantagem em relação a aviões e satélites era a altitude: os pombos voavam a poucos metros do solo, permitindo imagens muito mais detalhadas.
Em outro projeto, esse dos anos 1970, a CIA desenvolveu o "Insectothopter" - um veículo aéreo não tripulado disfarçado de libélula (e do tamanho de um inseto real). O dispositivo tinha um pequeno motor que fazia as asas baterem e era guiado por raio laser, chegando a percorrer 200 metros em 60 segundos. O projeto foi abandonado porque rajadas de vento acima de oito quilômetros por hora desviavam o inseto de sua rota.
Na água, dois robôs subaquáticos em forma de peixe-bagre, batizados de "Charlie" e "Charlene", foram desenvolvidos para coletar amostras de água em rios sem serem detectados. Os peixes-espiões eram úteis para identificar resíduos nucleares ou agentes bioquímicos em locais suspeitos.
Durante a Guerra do Vietnã, a CIA criou dispositivos de detecção sísmica disfarçados de fezes de tigre para monitorar movimentos inimigos. O aparelho tinha 10 centímetros de comprimento, era alimentado por pequenas células de energia e transmitia dados por impulsos codificados — camuflado de forma que ninguém jamais pensaria em tocá-lo.
Mais inusitado ainda: a CIA usou carcaças de ratos como esconderijos para mensagens e microfilmes em operações de "dead drop" — pontos de troca entre agentes durante a Guerra Fria.
Essa última iniciativa, porém, teve menos sucesso e a culpa foi, novamente, dos gatinhos. Animais de rua roubavam os ratos antes que os agentes pudessem recuperá-los. A solução encontrada pelos cientistas da agência foi embeber as carcaças em óleo de losna, que afastava os felinos. Tudo isso, segundo a própria CIA.
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