Cientistas descobrem 'mundo escondido' sob até 5 km da camada de gelo da Antártida

Por Mateus Omena 12 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Cientistas descobrem 'mundo escondido' sob até 5 km da camada de gelo da Antártida

A Antártida concentra cerca de 90% do gelo do planeta e aproximadamente 70% da água doce da Terra, fator que coloca o continente no centro das pesquisas sobre clima e nível do mar. O território também influencia correntes atmosféricas e oceânicas, embora permaneça entre as regiões menos conhecidas do planeta.

Um grupo internacional liderado por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, apresentou novos dados sobre o relevo escondido sob a camada de gelo antártica. O trabalho foi publicado na revista científica Science e utilizou dados de satélite combinados com um método de análise do movimento do gelo para identificar estruturas geológicas ocultas.

O estudo conseguiu mapear montanhas, vales e outras formações localizadas sob camadas que chegam a 5 km de gelo. As informações resultaram em um mapa que detalha a paisagem subglacial do continente em escala continental.

Segundo os pesquisadores, o levantamento oferece dados para estudos sobre o comportamento da camada de gelo diante do aquecimento global. Os resultados também podem contribuir para modelos que projetam o aumento do nível do mar nas próximas décadas.

Explorar o que existe abaixo do gelo da Antártida representa um desafio científico em razão das condições ambientais, ao isolamento do continente e à espessura da camada de gelo. Métodos tradicionais incluem perfurações profundas e voos com radar de penetração no gelo, tecnologia conhecida como ice-penetrating radar, radar capaz de detectar estruturas abaixo da superfície congelada.

Essas técnicas revelam detalhes do relevo, mas apresentam limitações. Os levantamentos costumam cobrir áreas reduzidas e exigem operações logísticas complexas.

Para ampliar a escala da análise, a equipe adotou um método chamado IFPA (sigla para Ice Flow Perturbation Analysis, análise de perturbação do fluxo de gelo. O procedimento observa como o gelo reage ao relevo localizado abaixo da superfície.

Quando uma grande massa de gelo se desloca sobre montanhas, vales ou cânions, pequenas ondulações aparecem na superfície. Essas variações são discretas, mas podem ser detectadas por satélites que monitoram a elevação e a velocidade do gelo.

A partir desses padrões, modelos físicos permitem inferir o tipo de relevo localizado no leito rochoso. Os pesquisadores combinaram esse método com dados recentes de satélites que acompanham o movimento do gelo em toda a Antártida.

Segundo a pesquisadora Helen Ockenden, da Universidade de Edimburgo, a abordagem permite observar indícios do terreno sem a necessidade de perfurações diretas.

Paisagem subglacial da Antártida apresenta estrutura mais complexa

Os novos dados indicam que o relevo sob a Antártida apresenta variações maiores do que as registradas em mapas anteriores. O continente reúne estruturas geológicas diversas, incluindo cadeias de montanhas, planícies erodidas e antigos canais fluviais.

Entre as formações identificadas estão vales profundos comparáveis aos observados nos Alpes, além de milhares de colinas e depressões que não haviam sido registradas anteriormente.

Muitas dessas estruturas possuem dimensões entre 2 e 30 quilômetros. Essa escala intermediária dificultava a identificação por métodos anteriores, que priorizavam levantamentos locais ou análises em escala continental.

Os pesquisadores apontam que essas características influenciam diretamente o deslocamento das geleiras. Regiões montanhosas ou irregulares aumentam o atrito e reduzem a velocidade do fluxo de gelo em direção ao oceano.

Superfícies mais planas permitem deslocamento mais rápido das massas de gelo. Essa diferença altera a velocidade de perda de gelo conforme a temperatura média global se eleva.

A camada de gelo da Antártida possui espessura média próxima de dois quilômetros e atinge quase cinco quilômetros em alguns pontos do continente. Mesmo a liberação de uma pequena fração dessa massa pode provocar mudanças no nível dos oceanos.

Mapas mais detalhados do leito rochoso ajudam pesquisadores a aprimorar modelos climáticos utilizados para prever a evolução da camada de gelo nas próximas décadas.

Os autores do estudo indicam que o novo mapa ainda apresenta limitações e não registra as menores estruturas do relevo. O levantamento, contudo, amplia o conjunto de dados disponíveis e pode orientar futuras missões científicas e pesquisas geofísicas na Antártida.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: