Classe média sofrerá efeito 'inédito' com IA, dizem vencedores do Nobel de Economia

Por Luciano Pádua 26 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Classe média sofrerá efeito 'inédito' com IA, dizem vencedores do Nobel de Economia

Os economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee, vencedores do Prêmio Nobel de Economia em 2019 por seus trabalhos quantitativos sobre desigualdade econômica, apontam um efeito "inédito" que a Inteligência Artificial (IA) pode ter nas classes médias globais.

Para Duflo, a IA, sem dúvida, aumentará a desigualdade global. "E será particularmente doloroso nas classes médias que têm empregos intelectuais ou facilmente substituíveis por IA", disse a economista em entrevista à edição de abril da EXAME. "É uma ironia que as pessoas que podem ser mais afetadas agora sejam os programadores, que estão se tornando obsoletos por meio da programação."

Segundo a economista, alguns programadores são verdadeiras estrelas e podem ter até dez agentes trabalhando para eles nos bastidores. "Enquanto isso, milhares ou centenas de milhares de pessoas que tinham uma vida muito confortável, que pertenciam à classe média na Índia, perderão seus empregos", afirmou.

Na prática, avalia, as empresas de tecnologia têm focado em construir novas ferramentas pensando em substituir trabalhadores da maneira mais rápida possível.

"Essa será uma situação totalmente nova, em que a proteção social será necessária para as classes médias, que não estão acostumadas a isso. Elas estão acostumadas a pensar que apenas os perdedores precisam de proteção social", disse a economista.

Colapso da sociedade?

Duflo conversou com a EXAME junto com marido, o também economista e acadêmico Abhijit Banerjee. Segundo ele, um novo mundo se avizinha com a chegada da IA, e as perdas possíveis com as novas tecnologias terão de ser financiadas. "O fato de haver agora quase uma revolta aberta dos ultrarricos contra o pagamento de impostos é o cerne da crise e, se eles eventualmente conseguirem se impor ao mundo, o que parece ser o que desejam, então não sei o que acontecerá", afirmou Banerjee.

Segundo ele, os governos precisam se preparar para pensar no que fazer em um mundo onde os bilionários controlam grande parte da economia.

"Mesmo nos EUA, praticamente todo o boom do mercado de ações foi impulsionado por essas sete empresas [as chamadas Sete Magníficas]. Se o equivalente a isso acontecer com a IA, provavelmente será ainda maior, porque ela dominará muitas outras áreas da vida, e eles se recusam a pagar impostos porque, você sabe, eles podem...", disse.

Para ele, seria importante as políticas públicas dedicarem mais energia à criação de uma coalizão mais eficaz para tributar bilionários. "E, de outras formas, impedi-los de operar", afirmou.

"Se não houver empregos para a classe média e os bilionários não pagarem impostos, a sociedade entrará em colapso."

Segundo Duflo, bilionários precisam ser tributados, mas a IA também deveria ser regulamentada e orientada pelo governo. "Mas isso não está acontecendo, porque as empresas de IA estão, em sua maioria, nos EUA, e não há ninguém lá para fazer isso por elas", disse.

Nova inciativa

Duflo e Banerjee estiveram em São Paulo em março para anunciar a criação de uma iniciativa global com a Fundação Lemann para excelência na formulação de políticas públicas. Eles tocarão o projeto na Universidade de Zurique, a nova casa dos economistas que estiveram nos últimos 30 anos no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT).

“O objetivo é compartilhar evidências de toda a experiência da rede J-PAL com brasileiros formuladores de políticas em todos os níveis, desde as prefeituras até o governo federal”, disse Duflo.

Na conversa com a EXAME, também abordaram a reformulação de políticas públicas, como o Bolsa Família, a importância — e a boa qualidade — dos dados para orientar iniciativas de governos, além de explorarem possibilidades que estudam aplicar no Brasil.

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