Colágeno rompe a barreira dos cosméticos e conquista os suplementos. O que a ciência diz?
O colágeno deixou de ser apenas um ativo popular entre cosméticos para se tornar o mais novo "queridinho" dos suplementos alimentares. De barras de proteína a bebidas e cremes para café, a proteína passou a ser associada a promessas que agora também englobam, além da pele mais firme, mais saciedade e até ganho muscular. Mas esse apelo comercial não veio acompanhado, na mesma proporção, de evidências científicas, segundo informações do New York Times.
Produzido naturalmente pelo organismo, o colágeno é uma proteína que dá sustentação à pele, ossos, tendões e ligamentos. A partir dos 20 e poucos anos, sua produção começa a cair de forma gradual, o que ajuda a explicar o interesse por reposição via suplementos ou alimentos enriquecidos.
Na indústria, o ingrediente também tem apelo funcional. Extraído de subprodutos de origem animal, como ossos e pele, o colágeno é processado para se tornar neutro em sabor e fácil de incorporar em diferentes produtos. Além disso, pode ser uma alternativa mais barata a outras fontes de proteína, como o soro do leite.
O problema é que o marketing está indo além do que a ciência consegue provar. "Tudo começa de um lugar muito saudável", afirmou a dermatologista Lauren Taglia ao New York Times. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, a forma como esses produtos são promovidos cria expectativas difíceis de cumprir.
Nem toda proteína é igual
Apesar de frequentemente aparecer nos rótulos como fonte de proteína, o colágeno não tem o mesmo valor nutricional de outras opções, porque ele não contém triptofano, um aminoácido essencial para a construção e reparo muscular.
Ou seja: produtos com a mesma quantidade de proteína podem ter efeitos diferentes no organismo, dependendo da fonte. Proteínas como whey, ovos ou soja têm um perfil de aminoácidos mais completo, enquanto o colágeno costuma contribuir menos para o ganho de massa muscular ou saciedade.
Por esse motivo, sua qualidade proteica é considerada baixa. Em sistemas usados por cientistas da nutrição para avaliar proteínas, baseados na composição de aminoácidos, o colágeno recebe pontuação próxima de zero, enquanto as outras fontes atingem níveis mais altos, como explicou o nutricionista Kevin Klatt, da Universidade de Toronto, ao NYT.
A saciedade também é outra promessa sem muito embasamento. Segundo a pesquisadora Heather Leidy, professora associada de ciências nutricionais da Universidade do Texas em Austin, os estudos disponíveis até agora — analisados em sua área de pesquisa — não demonstram que o colágeno auxilia mesmo na redução do apetite, como relatado ao NYT.
A recomendação dos especialistas é priorizar fontes proteicas completas no dia a dia, como ovos, laticínios, leguminosas ou carnes, especialmente para quem busca saciedade ou ganho de massa muscular.
Onde há evidência?
O colágeno pode até não cumprir todas as promessas vendidas nas prateleiras, mas seria injusto dizer que ele é completamente ineficaz. A maior revisão já feita sobre o tema, com quase 8 mil participantes, aponta benefícios mais claros em áreas específicas, principalmente relacionadas ao envelhecimento.
"O colágeno não é solução para tudo, mas apresenta benefícios consistentes quando usado de forma contínua ao longo do tempo, especialmente para a pele e para a osteoartrite. Nossos achados mostram ganhos claros em áreas centrais do envelhecimento saudável e também ajudam a desfazer alguns mitos sobre seu uso", afirmou Lee Smith, professor da Universidade Anglia Ruskin e coautor do estudo, à BBC.
Outro autor da pesquisa, Roshan Ravindran, reforça que os ganhos existem, mas são limitados. "O marketing muitas vezes se antecipa às evidências", disse. "Não é um produto milagroso, mas como um suplemento adjuvante tomado regularmente, parece ser uma opção sensata e de baixo risco para pessoas que desejam cuidar da pele, articulações e músculos à medida que envelhecem", pontuou.
Vale ressaltar que essa revisão não encontrou uma grande influência do colágeno no desempenho esportivo, recuperação muscular ou indicadores cardiometabólicos, como colesterol e glicemia. Nessas áreas, os resultados seguem inconclusivos.
Consumo e expectativa
A popularização do colágeno expõe esse desalinhamento entre o que os produtos prometem e o que a evidência científica consegue sustentar hoje.
Na União Europeia, por exemplo, nenhuma alegação de benefício à saúde para suplementos de colágeno foi aprovada até agora. Leng Heng, cientista da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), afirmou à BBC que as evidências disponíveis ainda não são consideradas suficientes nem consistentes o bastante.
Um dos fatores para isso é que a grande parte dos estudos sobre colágeno são financiados pela indústria de suplementos, e os resultados variam bastante. "É difícil encontrar qualquer um deles que seja totalmente independente da indústria", afirmou David Hunter, pesquisador clínico em reumatologia da Universidade de Sydney, à BBC.
Para Faisal Ali, dermatologista consultor do Mid Cheshire Hospital, isso não invalida automaticamente os resultados, mas ajuda a entender por que as conclusões são menos consistentes. Segundo ele, os dados disponíveis ainda não mostram um efeito substancial do colágeno — seja em suplementos ou produtos tópicos.
Também entram na conta possíveis riscos. O consumo elevado de proteínas pode ser um problema para pessoas com doenças renais ou hepáticas, e suplementos podem interagir com medicamentos. Por isso, especialistas recomendam avaliar o uso com acompanhamento profissional, especialmente em casos de uso contínuo.
O consenso entre especialistas é mais simples do que o marketing sugere: o colágeno pode ter um papel complementar, mas não substitui o básico. "A melhor coisa que você pode fazer pela sua pele é usar protetor solar", disse Ali à BBC. "Protetor solar, uma dieta saudável e, se você fuma, parar. Isso terá um impacto muito maior do que os suplementos de colágeno."
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