Com foco em IA, IPO do Canva fica para 2027, diz cofundador

Por Tamires Vitorio 17 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Com foco em IA, IPO do Canva fica para 2027, diz cofundador

*LOS ANGELES  — Wall Street está ansiosa para receber uma das empresas privadas mais valiosas do mundo — e Cliff Obrecht, cofundador e diretor de operações do Canva, prefere esperar.

Segundo o executivo, a plataforma de criação quer primeiro mostrar alguns trimestres de resultados. A nova versão da inteligência artificial (IA), anunciada nesta quinta-feira, 16, representa uma mudança fundamental no que o Canva é.

"Estamos basicamente migrando de uma empresa de SaaS para uma empresa puramente de IA", diz Obrecht em entrevista exclusiva à EXAME. "Ano que vem é provavelmente o momento. Chega um momento em que é simplesmente mais fácil se tornar uma empresa pública para que as ações possam ser negociadas livremente", afirma.

A estratégia para a abertura de capital foge do roteiro clássico do Vale do Silício. "Prefiro abrir capital em um mercado com valuation mais baixo e ter crescimento a partir daí do que ir no topo e todo mundo ficar se sentindo mal depois", diz.

Por trás dessa cautela há uma empresa em transformação acelerada. Com 265 milhões de usuários ativos mensais — mais de 200 milhões deles sem pagar nada —, o Canva enfrenta um desafio que poucos negócios de tecnologia conseguiram resolver: como levar inteligência artificial de ponta a uma base majoritariamente gratuita sem destruir a margem.

EXAME: Como você equilibra o atendimento a criadores de vídeo, empresas e educadores como clientes?

Cliff Obrecht: O grande desafio para nós é como levar IA realmente poderosa para nossos usuários gratuitos, porque a IA tem um custo para atendê-los, especialmente quando se usam modelos fundamentais criados por terceiros como OpenAI, Anthropic ou outros.

Por isso precisamos criar os nossos próprios — adquirimos a Leonardo AI há dois anos para desenvolver nossas próprias capacidades de modelos fundamentais. Hoje temos uma equipe de mais de 120 pesquisadores, e eles criam modelos que são entre 18 e 30 vezes mais baratos do que usar os modelos fundamentais de terceiros, além de muito mais rápidos.

Também precisamos desenvolver competências em infraestrutura de computação para treinar nossos próprios modelos — não apenas de empresas de nuvem, mas também construindo nossa própria para servir esses modelos de forma muito acessível.

Atualmente também temos 100 milhões de usuários na educação que não nos pagam nada, então nossos custos precisam ser incrivelmente baixos para atender esses usuários gratuitos.

Para os usuários pagantes, tudo bem — podemos usar IA premium, eles podem usar modelos de terceiros e têm a escolha de qual modelo usar, com sugestões inteligentes.

A forma como entregamos IA para esses diferentes grupos — especialmente empresas que pagam muito, usuários pro que pagam um pouco, e os gratuitos — são estratégias distintas.

Tentamos oferecer IA incrível para todos, mas os clientes pagantes obviamente recebem o que há de mais avançado.

EXAME: Falando mais sobre o lado dos negócios, vocês fizeram várias aquisições nos últimos anos. Qual é o principal objetivo — expandir ferramentas, entrar em novos mercados, ou faz parte de algo maior?

Cliff Obrecht: Éramos muito uma empresa de SaaS bem-sucedida na criação de software de design que democratizou o design e o levou às massas.

Percebemos que não tínhamos o DNA de pesquisa necessário para criar os modelos fundamentais que precisaríamos para ter sucesso nessa nova era da IA. Por isso precisamos trazer empresas que trouxessem esse lado.

Expandimos a equipe de 25 para mais de 120, e continuamos a crescer. Também precisamos trazer algumas capacidades de agentes de IA.

Acreditamos fortemente que o marketing está quebrado de forma ampla.  Se você é uma pequena ou média empresa e quer vender tênis customizados, a quantidade de dinheiro perdida em plataformas é enorme — de cada dólar investido em publicidade, menos de 50 centavos chegam de fato à peça de marketing sendo exibida para as pessoas.

Por isso, queremos mudar o processo todo. Você começa com um objetivo, como, por exemplo, quero vender meus tênis. Entendemos seu público-alvo, onde estão, o que gostam.

"Antes do Canva, o design era muito difícil. Democratizamos algo que era muito fragmentado. Agora queremos fazer o mesmo com a IA"

Daí criamos o conteúdo por você, distribuímos em todos os canais — redes sociais orgânicas, pagas, e-mail, display etc. —, medimos o desempenho e o retorno sobre o investimento, e fazemos recomendações: mude seu criativo desta forma, aumente o investimento no TikTok porque é o canal com melhor desempenho.

No final, você nos dá um objetivo e nós cuidamos do resto. Todas as aquisições que fizemos foram peças críticas de infraestrutura se somando a essa visão.

EXAME: Muito tem se falado sobre vocês abrirem capital. Isso ainda é verdade? Quando deve acontecer?

Cliff Obrecht: O que aconteceu é que o mundo mudou e estamos evoluindo nosso modelo de negócios para uma combinação de SaaS mais IA. Estamos basicamente migrando de uma empresa de SaaS para uma empresa puramente de IA, que ainda mantém todos os planos de assinatura.

Este ano estamos muito animados com as nossas novas funções. Queremos ver como esse modelo de negócios se desenvolve — e temos confiança de que vai mostrar um grande crescimento. Queremos ter alguns trimestres de resultados com essa nova versão de agente de IA do Canva e, então, o ano que vem deve ser o momento.

Então sim, o IPO está nos planos. Precisamos fazer isso — temos 13 anos, temos muitos investidores grandes. Sempre acreditamos na liquidez.

Chega um momento em que é simplesmente mais fácil se tornar uma empresa pública para que as ações possam ser negociadas livremente. Acreditamos muito nos mercados públicos.

EXAME: Muitas empresas de tecnologia tiveram dificuldades após abrir capital. Que lições você está tirando para não repetir esses erros?

Cliff Obrecht: Não estamos querendo acertar o pico do mercado. Queremos ser avaliados como uma empresa com bom desempenho em métricas fundamentais, como crescimento de receita, como estamos resolvendo os problemas dos clientes, e ser julgados de forma justa com base nisso.

Muitas empresas tentam acertar o pico do mercado, e quando fazem isso, só têm desvantagem, porque os mercados não sobem para sempre. Prefiro abrir capital em um mercado com valuation mais baixo e ter crescimento a partir daí do que ir no topo e todo mundo ficar se sentindo mal depois.

2021 — pico

2022 — queda

A grande lição que aprendi também é garantir que você esteja equilibrando oferta e demanda. Se você tem uma quantidade muito limitada de ações sendo vendidas num IPO, a demanda do lado comprador — especialmente com consumidores — pode inflar artificialmente seu valuation.

E um valuation muito, muito alto, além do que a empresa deveria valer com base nos múltiplos de receita, também é um fracasso. O objetivo não é subir muito e depois despencar. O objetivo é: se sua receita está crescendo, que o valuation cresça igualmente.

EXAME: O Brasil é um dos seus mercados de crescimento mais rápido — o segundo maior, certo? O que vocês precisaram construir de diferente no Brasil em comparação com outros países, e quais foram os principais desafios?

Cliff Obrecht: O Brasil é um país incrivelmente visual e é um país muito voltado para as redes sociais, Instagram, TikTok. As pessoas estavam procurando ferramentas para se expressar, e acho que simplesmente tivemos um encaixe perfeito de produto com o mercado.

"Chega um momento em que é simplesmente mais fácil se tornar uma empresa pública para que as ações possam ser negociadas livremente"

Além de localizar em português e ter conteúdo específico para clientes brasileiros criado pela nossa comunidade, não fizemos muita coisa específica. Não temos nenhuma fórmula mágica — o povo brasileiro gosta de criar conteúdo visual e queremos ser o melhor lugar para fazer isso.

EXAME: Para terminar: que papel você vê o Brasil tendo na estratégia de crescimento do Canva nos próximos anos?

Cliff Obrecht: Por ser um mercado de crescimento tão rápido, é um mercado fundamental para nós. Estamos estabelecendo muito mais presença local. Sempre tivemos uma equipe distribuída lá, mas queremos montar um hub de verdade.

Continuaremos investindo no Brasil em todos os aspectos. Provavelmente estamos mais focados no lado do consumidor por ora, mas estamos muito animados em, por meio de parcerias, aprofundar nossa atuação no segmento de empresas também.

*A jornalista viajou a convite do Canva

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