Com IA, a assessoria de corrida deles foi de 200 a 84 mil alunos em um ano — e agora lidera o país
Segmento que praticamente não existia antes da pandemia, as assessorias de corridas enfrentam hoje um mesmo problema quando crescem: o treinador deixa de ter tempo.
Com 10 alunos, é possível analisar cada treino, corrigir erros e acompanhar a evolução de perto. Com 100, a tarefa já fica mais difícil. Talvez não consiga dar um feedback detalhado e personalizado. Com milhares, torna-se praticamente impossível.
A Zyla decidiu atacar justamente esse limite. Criada por jovens empreendedores em São Paulo, a assessoria usa inteligência artificial para analisar os treinos dos corredores, comparar o que foi planejado com o que realmente foi executado e entregar feedbacks individualizados em escala.
Em pouco menos de um ano, a empresa saiu de 200 alunos para 84 mil atletas ativos e projeta faturar R$ 10 milhões em 2026. No início do ano, a meta era chegar a 10 mil corredores até dezembro, um número que os próprios fundadores já consideravam ambicioso. Agora, a expectativa é alcançar 100 mil alunos ainda neste ano.
“Quando a gente começou o ano, 10 mil alunos parecia uma meta ousada. Se alguém falasse que estaríamos discutindo 100 mil atletas poucos meses depois, eu não teria acreditado”, disse Samy Waintraub, um dos sócios da empresa, em entrevista à EXAME.
O crescimento transformou a Zyla na maior assessoria de corrida do país — ultrapassando, com folga, gigantes do setor como MPR Assessoria Esportiva, Run&Fun e Runna, que operam no modelo tradicional e contam com menos de 30 mil alunos.
Esse salto acompanha a explosão de um mercado global de corrida de rua que movimentou US$ 53,6 bilhões em 2025 e projeta atingir US$ 56,9 bilhões em 2026, segundo a Research and Markets. No Brasil, o fenômeno já arrasta 15 milhões de praticantes regulares, impulsionado nos últimos anos especialmente pela adesão massiva de jovens entre 18 e 34 anos e do público feminino.
O ecossistema de eventos também reflete essa euforia: o volume de corridas oficiais no país cresceu 29% em um ano, de acordo com dados da ABRACEO e Ticket Sports. É um cenário aquecido que atrai marcas tradicionais como Nike e Adidas, mas que também abre espaço para o avanço rápido de novos nichos de alta performance, criando o terreno perfeito para soluções escaláveis de tecnologia.
Da corrida de ressaca ao algoritmo
A história por trás da Zyla começa muito antes dos algoritmos: passa por um engenheiro especializado em tecnologia nuclear que treinava com o ChatGPT, uma ex-advogada ambiental que virou influenciadora digital, um empreendedor da área comercial e um treinador gaúcho que precisou ensinar uma inteligência artificial a pensar como um técnico humano.
Guilherme Monteiro, CEO e cofundador da empresa, é formado em engenharia de materiais, com ênfase em tecnologia nuclear, e começou a correr entre 2022 e 2023, no fim da faculdade.
Ansioso, saiu para correr no Parque Ibirapuera, em São Paulo, seguindo um treino que tirou da cabeça: correr até não aguentar mais. A primeira tentativa durou 2 quilômetros. A volta para casa, a 400 metros dali, foi de Uber.
Pouco depois, decidiu se inscrever em uma prova de meia maratona. Para montar os treinos, recorreu ao ChatGPT, ainda em uma versão inicial da ferramento. “Eu pensei: tem um monte de gente pagando assessoria de R$ 400 e eu estou treinando de graça aqui”, lembra Monteiro.
O resultado foi menos glamouroso. Depois de uma maratona, Monteiro teve uma fratura por estresse no pé esquerdo e ficou 90 dias sem correr. A experiência ruim virou uma das sementes do negócio. Ele entendeu, na prática, o limite de usar uma IA genérica para prescrever treino.
“Eu fui tonto de achar que conseguiria me autotreinar”, afirma.
Ao mesmo tempo, Monteiro criava conteúdo sobre corrida nas redes sociais. Não com o perfil clássico do atleta disciplinado e regrado. “Eu via que todo mundo que corria era muito saudável. E eu corria muito de ressaca. Grande parte do meu conteúdo era isso”, diz.
O encontro dos sócios
Samy Waintraub entrou na história pelo lado dos negócios. Formado em comunicação nos Estados Unidos, trabalhou em tecnologia na área comercial, empreendeu no setor têxtil e vendeu sua empresa para o grupo Focus Têxtil.
Quando reencontrou Monteiro, no fim de 2024, topou testar uma tese de startup. A regra era simples: se, depois de três meses, os dois ainda quisessem se chamar para um churrasco, continuariam juntos.
“Eu sempre gostei muito do mundo de criar coisas. O Gui falava de tecnologia, eu não entendia tudo, mas pensava: esse cara é inteligente, é gente boa, vamos ver o que sai disso”, diz Waintraub.
A primeira ideia não era uma assessoria de corrida. A Zyla nasceu como um CNPJ genérico, criado por Monteiro para emitir notas como criador de conteúdo. O nome veio de um pedido ao ChatGPT: palavras de quatro letras que não significassem nada em nenhuma língua. Entre as opções, escolheu Zyla.
Antes da corrida, os fundadores testaram chatbots para outros mercados, como nutrição. A virada veio quando perceberam um gargalo no setor de assessorias: havia milhões de corredores no Brasil, mas pouca capacidade de atendimento personalizado em escala.
“Conversando com assessorias, a gente entendeu que o treinamento não acompanhou o crescimento do número de atletas brasileiros”, afirma Waintraub.
A entrada de Malu — e a virada de chave para mudar o jogo
Maria Luiza Sanches, a Malu, chegou depois. Advogada ambiental de formação, começou a correr na pandemia para parar de fumar cigarro eletrônico e adquirir um hábito saudável. A inspiração veio de vídeos de Drauzio Varella sobre corrida e maratona. Primeiro, treinou por aplicativos, mas se lesionou.
Em 2023, passou a publicar seus treinos nas redes sociais. O conteúdo ganhou tração quando ela decidiu documentar a preparação para a Maratona de Berlim. Hoje, como @maludailylife, soma 74,8 mil seguidores no Instagram, 109,8 mil no TikTok e construiu uma comunidade fiel em torno de corrida, bem-estar e vida real.
Monteiro já acompanhava Malu nas redes e a convidou para um podcast ainda no início da trajetória dela como influenciadora. O episódio virou o mais ouvido do programa. A amizade continuou na pista, em treinos e conversas sobre negócios.
“Ele sempre falava: você precisa empreender, precisa ter o seu produto. E eu pensava: não tenho público para isso, as pessoas não vão se interessar”, diz Malu.
Em junho de 2025, após uma rodada de R$ 500 mil com investidores-anjo, os fundadores decidiram que precisavam profissionalizar a marca. Um dos investidores foi direto: a tese era boa, mas a marca precisava melhorar. Monteiro chamou Malu.
Ela passou meses trabalhando nos bastidores, sem anunciar a participação nas redes. Ajudou a redesenhar o branding, o tom de voz, o lançamento e a forma como a Zyla deveria se apresentar — não apenas como assessoria, mas como uma marca desejada por corredores.
“Eu ajudava a pensar como o Instagram tinha que funcionar, como o conteúdo poderia ser orgânico, interessante e trazer engajamento. Como fazer a marca não ser só uma assessoria, mas algo de que as pessoas quisessem fazer parte”, diz Malu.
O anúncio oficial dela como cofundadora ocorreu em janeiro de 2026. No mesmo período, a Zyla entrou no Wellhub, antigo Gympass, e fez um evento de lançamento. No dia 6 de janeiro, quando Malu comunicou a novidade, 494 pessoas entraram na plataforma em um único dia.
“Era o dobro do que a gente tinha de usuários ativos na base”, lembra Monteiro.
O treinador analógico por trás da IA
Se a frente tecnológica da Zyla é a inteligência artificial, a base metodológica veio de Pedro Keller, treinador gaúcho, profissional de educação física e responsável técnico da empresa.
Hoje morando em São Paulo, ele é treinador de Monteiro e de Malu em uma assessoria tradicional. Quando foi convidado para a Zyla, trouxe a experiência de mais de 16 anos e mais de 1,2 mil atletas treinados.
O desafio era traduzir uma lógica humana, muitas vezes intuitiva, para um sistema capaz de prescrever treinos em escala. Keller, descrito pelos sócios como "analógico", escrevia sua metodologia em documentos, cadernos e conversas longas. Monteiro ia à casa dele às sextas-feiras para extrair não só treinos, mas o raciocínio por trás das escolhas.
A biblioteca da Zyla tem mais de 2 mil sessões de treino reais. Mas, segundo os fundadores, o diferencial está menos na quantidade de treinos e mais na lógica de decisão: por que escolher determinado estímulo para determinado atleta, em determinado momento do ciclo.
“Foi muito difícil extrair dele como ele escolhia determinado treino para determinada pessoa em determinado momento. Isso é metodologia”, diz Monteiro.
O que a IA faz, e o que ela não deixa fazer
A Zyla não se apresenta como um "ChatGPT de corrida". O sistema cruza a metodologia de Keller com dados captados por relógios esportivos e plataformas como Garmin, Amazfit e Strava. A tecnologia compara o treino prescrito com o treino executado segundo a segundo, calcula carga, identifica desvios e ajusta os próximos estímulos.
O aplicativo também dá feedbacks automáticos. Se o corredor deveria cumprir uma carga de 10 pontos e faz 16, por exemplo, a plataforma entende que ele exagerou. E avisa.
“A maior parte do nosso suporte é de pessoas querendo quebrar os limites. Querem treinar mais dias ou correr mais rápido. A gente não libera”, diz Malu.
A lógica é uma resposta direta ao problema que Monteiro viveu ao treinar sozinho com uma IA genérica. Para os fundadores, a tecnologia só funciona porque opera dentro de limites definidos por profissionais.
“Uma IA generativa vai levar para a conclusão de deixar o usuário feliz. Não é necessariamente o que o usuário precisa”, diz Waintraub.
Por isso, a Zyla demorou para lançar treinos de maratona. Primeiro, decidiu ficar boa nos planos de zero a 21 quilômetros. Só depois expandiu a metodologia para 42 quilômetros.
Malu foi uma das cobaias: treinou para a Maratona de Londres com os treinos da plataforma antes de a funcionalidade ser liberada para todos.
Preço, escala e Wellhub
A maior parte da base da Zyla vem do Wellhub, que responde por mais de 90% dos alunos. Para quem assina diretamente, o plano mensal custa R$ 39,90, com opções semestrais e anuais.
O preço é uma das apostas para democratizar o acesso a acompanhamento de corrida. Assessoria tradicional costuma custar algumas centenas de reais por mês. A Zyla tenta ocupar outro espaço: um produto mais barato, escalável e personalizado com apoio de tecnologia.
A diferença aparece também na estrutura. Enquanto assessorias tradicionais dependem diretamente do tempo de treinadores para analisar treinos, a Zyla usa IA para acompanhar uma base muito maior com uma equipe enxuta.
Hoje, além dos sócios, o time tem desenvolvedores, designer, profissionais de marketing, conteúdo e suporte. A empresa também usa IA no atendimento, mas possui uma especialista humana para casos mais complexos.
Mesmo com o crescimento acelerado, os fundadores dizem seguir uma política conservadora de contratações. Em 2025, a startup levantou R$ 500 mil com investidores-anjo e chegou ao break-even em cinco meses de operação.
“A gente acredita em crescimento correto. Não é sair crescendo doido e depois não aguentar”, diz Waintraub.
Corrida como jogo multiplayer
A próxima etapa da Zyla vai além da planilha de treinos. A empresa quer transformar a corrida em um ecossistema social e gamificado.
A startup já lançou desafios dentro do aplicativo, com prêmios como iPhones e camisetas oficiais da seleção brasileira. A lógica é que o atleta pontue quando executa o treino próximo ao que foi prescrito. Caminhadas aleatórias ou atividades fora do plano não contam da mesma forma.
A estratégia atraiu marcas parceiras de bem-estar, vestuário e eventos, como Wellhub, Ticket Sports e Z2, interessadas em falar com uma comunidade crescente de corredores. A Zyla também mantém grupos de WhatsApp com milhares de pessoas e pretende levar a comunidade para dentro do aplicativo.
“O nosso futuro é transformar o treinamento em um jogo multiplayer”, diz Monteiro.
Waintraub resume a ambição em outra palavra: ecossistema. “A gente não tem planejamento de ir para natação ou para qualquer outra modalidade. É corrida. Mas queremos que, quando a pessoa pense em corrida, pense na Zyla.”
A empresa certa no momento certo
A Zyla nasceu no cruzamento de duas ondas: a popularização da corrida de rua no pós-pandemia e a adoção em massa da inteligência artificial. Os fundadores reconhecem que houve sorte. Mas também defendem que o crescimento veio da capacidade de enxergar um problema de mercado no momento certo.
Malu trouxe comunidade e marca. Waintraub, vendas e visão comercial. Monteiro, produto e tecnologia. Keller, a metodologia técnica que impede a IA de virar apenas uma máquina de agradar usuários.
A combinação produziu uma empresa jovem, de operação enxuta, que tenta provar que personalização esportiva não precisa depender apenas de horas humanas. O teste agora é sustentar a escala sem perder a confiança dos corredores.
“Empreendedor que fala que não tem sorte é mentiroso”, diz Monteiro. “Mas também tem que enxergar as oportunidades.”
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