Com PL, Brasil tem pela 1ª vez um partido de direita orgânico, diz Nicolau
Com o PL de Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil tem, pela primeira vez, desde a democratização, um partido de direita orgânico, estruturado, com dinheiro e lideranças locais. Essa é a avaliação de Jairo Nicolau, cientista político e professor da FGV, sobre o cenário pós-janela partidária.
"Há seis meses, eu diria que o PL perderia deputados após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas não foi o que aconteceu. O PL recompôs a bancada de 2022, atraiu políticos", afirma em entrevista à EXAME.
O cientista diz que o PL se tornou o principal polo de atração da direita e reforçou a polarização com o PT, enquanto o centro segue relevante, mas com menos protagonismo no Congresso.
Jairo Nicolau, da FGV: “A tendência é mais polarização. O PT pode crescer para 80, 90 deputados. O PL pode passar de 100” (Jeso Carneiro/Flickr)
"PL virou um partido orgânico de direita, com enraizamento. Antes as pessoas citavam só o PT nas pesquisas; agora citam PT e PL. Então você tem duas forças", diz.
Ao debater os temas da eleição, com esse novo cenário, Nicolau afirmou que vê que a eleição será menos sobre e economia e um plebiscito do governo e mais relacionada à figura dos candidatos.
"Não acho que será uma eleição sobre economia, nem um plebiscito do governo. Vai ser mais sobre pertencimento, identidade, valores, biografia. A dúvida é: políticas públicas vão mudar isso? Se não mudarem, fica difícil", afirma.
Leia a entrevista completa de Jairo Nicolau, cientista político e professor da FGV
Quem se reorganizou melhor após a janela partidária?
Se você comparar a bancada eleita em 2022 com a composição atual, verá o que aconteceu depois das urnas. Intuitivamente, a nota mais óbvia é que o PL venceu. Há seis meses, eu diria que ele perderia deputados após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas não foi o que aconteceu. O PL recompôs a bancada de 2022, atraiu políticos. Muito por duas coisas: é o partido mais rico, pode prometer financiamento; e a candidatura do Flávio, que cresceu de forma surpreendente. Quem perdeu foi o União Brasil. Em muitos estados, políticos de direita perceberam essa força do PL e se bandearam. Então é uma novidade: pela primeira vez devemos ter um partido de direita mais orgânico, estruturado, com dinheiro e lideranças locais. O PSD me surpreendeu: não virou polo de atração. E o PT mantém sua característica: pouca gente entra e sai. O padrão foi fortalecimento do PL, esvaziamento do União Brasil e manutenção do PT.
O que isso significa para a eleição?
O PL virou um polo de atração na direita. Bolsonaro começou como liderança personalista, mas agora o PL virou um partido orgânico de direita, com enraizamento. Antes as pessoas citavam só o PT nas pesquisas; agora citam PT e PL. Então você tem duas forças. O PT ficou sozinho na esquerda. PSOL, PSB, PDT não fazem frente nacional. E o PSD, que poderia ser esse centro, errou na estratégia na escolha do seu candidato à Presidência. Caiado, entre os quadros do PSD, é o mais à direita e entrou no partido poucos dias antes da definição. O Kassab é visto como gênio, mas eu digo: o gênio da cooptação não é o gênio da estratégia eleitoral. Então vejo reforço da polarização, agora partidária.
E na Câmara?
A tendência é mais polarização. O PT pode crescer para 80, 90 deputados. O PL pode passar de 100. E os partidos médios continuam ali — PP, Republicanos, União, MDB — com 50, 60 deputados, não desaparecem. Mas perdem protagonismo. Não têm mais aquele papel de pêndulo como já tiveram. Isso piora para Lula, porque quanto maior o PL mais difícil negociar em um eventual novo governo. Antes dava para fazer pontes com o centro. Agora isso diminui.
O crescimento do Flávio surpreendeu?
Totalmente. As pessoas dizem depois que já sabiam, mas não é um fenômeno natural. Acompanho política há 40 anos. Ele não era uma liderança nacional. E está passando a votação do pai. Se dissesse 20 pontos, ok. Mas 40? Isso é surpresa. E eu não sei se críticas ainda funcionam; se as pessoas querem ouvi-las ou se já fizeram suas escolhas. Isso muda o cenário. Antes havia espaço para alguém de centro-direita. Agora acabou.
E o cenário do Lula? Dá para pensar que a avaliação da gestão será o tema da eleição?
Eu tenho dúvidas. Há um gap entre economia e percepção. A economia não está dando salto [na percepção de qualidade] de vida. Hoje pesa mais a figura do candidato. E há certo cansaço com Lula. Quem é de esquerda vai com ele, mas sem entusiasmo. Então não acho que será uma eleição sobre economia, nem um plebiscito do governo. Vai ser mais sobre pertencimento, identidade, valores, biografia. A dúvida é: políticas públicas vão mudar isso? Se não mudarem, fica difícil.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: