Queda da Selic não resolve alta da inadimplência, diz economista do Serasa
Mesmo com a Selic em trajetória de queda — recentemente reduzida para 14,75% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), no menor nível em quase dois anos — o cenário de inadimplência no Brasil segue pressionado e sem sinais de melhora no curto prazo.
Dados do 'Mapa da Inadimplência' da Serasa mostram que o número de devedores bate recordes sucessivos desde 2021 e, ao longo de uma década, saltou 38%, passando de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em fevereiro de 2026.
O comportamento indica que a relação entre juros e inadimplência existe, mas está longe de ser determinante. Mesmo em períodos de Selic em um dígito, o endividamento continuou avançando. Em 2020, por exemplo, com a taxa em 4,5%, o país já registrava 63,9 milhões de inadimplentes.
“Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento”, afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.
O único alívio relevante e que acompanhou, de fato, a taxa de juros, ocorreu entre 2020 e 2021, durante a pandemia. Entretanto, ele foi muito mais impulsionado por programas de renegociação de dívidas. Fora isso, a tendência foi de alta contínua.
Para a Serasa, mesmo com o mercado de trabalho aquecido, os juros ainda permanecem em níveis restritivos, o que limita uma reversão do quadro. A instituição, inclusive, mantém uma visão mais cautelosa que a média do mercado e projeta a Selic em torno de 13% ao fim de 2026.
“Vamos navegar num cenário com bastante incerteza por conta do contexto político”, afirma Abdelmalack.
Renda comprometida
O reflexo do alto endividamento é o comprometimento da renda. O estudo aponta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida com contas básicas, como água, luz e telecomunicação, e dívidas a pagar, como fatura de cartão de crédito.
Para quem ganha até um salário mínimo, o comprometimento com contas básicas e dívidas chega a 90%. O restante, de forma subjetiva, deve ser utilizado para alimentação. Nesse sentido, as dívidas inadimplentes ficam para escanteio.
“É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso”, afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, que ainda destaca outro estudo da Serasa.
De acordo com a pesquisa, 70% dos brasileiros percebem aumento no custo de vida nos últimos 12 meses, com destaque para gastos com supermercado (31%), contas recorrentes (23%) e moradia (13%).
Os gastos básicos — como supermercado, água, luz e gás — passaram a pesar mais no orçamento. Contas essenciais, que antes tinham menor relevância, hoje ocupam a segunda posição entre os principais tipos de dívida, com avanço de 7 pontos percentuais. O cartão de crédito também ganhou participação, enquanto dívidas com telefonia perderam espaço, reflexo de iniciativas de renegociação com forte adesão do setor.
Perfil da inadimplência
E quem são os que estão mais inadimplentes? Os que ganham menos. A inadimplência se concentra na base: 48% ganham até um salário mínimo, enquanto 30% ganham até dois salários mínimos. Por outro lado, os que recebem mais de 10 salários mínimos respondem por apenas 2% dos indemplentes.
A presença massiva dessa faixa de renda entre os inadimplentes era esperada, visto que cerca de 77% da população brasileira ganha até dois salários mínimos.
O perfil dos inadimplentes também mudou. Se antes os homens predominavam, hoje as mulheres representam mais de 50% desse público.
“Quatro em cada 10 dizem que são responsáveis financeiramente pelas contas do lar, isso acaba explicando esse lugar de maior inadimplência. Sendo que 38% são as únicas responsáveis”, destaca Vieira. Em média, cada CPF negativado carrega quatro dívidas.
A faixa etária também se transformou. Agora, há maior participação dos mais velhos: pessoas com mais de 60 anos já representam 19% do total. Isso porque esse grupo está mais inserido no ambiente digital, mas também mais exposto a riscos como fraudes.
Em pesquisas recentes, quatro em cada 10 idosos relataram ter sofrido golpes com prejuízo financeiro, muitas vezes associados ao avanço de tecnologias como inteligência artificial.
O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro (bancos, cartões e financeiras). A participação do setor financeiro na inadimplência do consumidor subiu de cerca de 38% no pré-pandemia para aproximadamente 45% no período recente.
O resultado é que as instituições estão desacelerando o ritmo de concessão de juros mais baratos. Ou seja, a população está se endividando em dívidas mais caras.
“Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo”, destaca Vieira.
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