Com R$ 140 mi do BNDES, corredor verde vai ligar litoral e interior de SP com biometano
A TransJordano, transportadora especializada em cargas sensíveis, acaba de receber um financiamento de R$ 140 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para construir um corredor verde de biometano no estado de São Paulo.
A iniciativa cria pontos de abastecimento com o combustível limpo em três cidades onde a companhia já opera: Ribeirão Preto, Sumaré e Cubatão, conectando o interior do estado com a região litorânea. Além disso, com os recursos, a companhia vai adicionar 100 caminhões movidos a biometano a sua frota. Esse é o primeiro financiamento do Fundo Clima destinado a transporte rodoviário de cargas.
A operação reúne três companhias: a TransJordano, responsável pela frota e pela operação logística; a Scania, fornecedora dos caminhões; e a Ultragaz, que assume o fornecimento e a distribuição do biometano. Do total captado, R$ 105 milhões serão destinados à compra dos caminhões, e o restante à implantação da infraestrutura de abastecimento.
Segundo Jordano Bessa, diretor comercial da TransJordano que conversou com exclusividade com a EXAME, a ideia nasceu de uma visita técnica à Scania para entender quais equipamentos estavam disponíveis no mercado, quando a empresa foi direcionada para veículos movidos a biometano — combustível alternativo ao gás natural.
O obstáculo foi a rede de abastecimento. O país ainda engatinha na infraestrutura necessária para aproveitar o biometano em setores estratégicos, como indústrias e transporte. O líder nacional é São Paulo, com a capacidade próxima a um milhão de metros cúbicos por dia.
A solução veio de outra empresa do grupo, a GaragemLog, que opera um modelo de garagem compartilhada com infraestrutura de abastecimento e bem-estar para motoristas. "Decidimos usar essa estrutura para instalar pontos de biometano em três cidades onde já temos operações relevantes, criando um corredor verde ao redor da Anhanguera", explica, em referência à rodovia que conecta a capital com o norte do estado.
Descarbonização do transporte pesado
A expectativa da TransJordano é que o corredor não fique restrito a sua própria frota. Como a GaragemLog já opera como garagem compartilhada, a empresa planeja oferecer o abastecimento de biometano também a outras transportadoras, fomentando a demanda pelo combustível no país.
"Os primeiros caminhões devem chegar em agosto, com o primeiro ponto de abastecimento em Sumaré. A entrega segue até dezembro, quando a operação deve estar com 100% da frota em rota, sendo abastecida pelos postos de biometano. Depois de Sumaré, vem Ribeirão Preto e, por último, Cubatão", explica Joyce Bessa, diretora de ESG e Relações Institucionais.
André Gentil, gerente de Vendas de Soluções de Transporte a Frotistas da Scania, explica que a fabricante lançou sua linha de caminhões a gás em 2019 e que, até o ano passado, havia vendido cerca de 2 mil veículos do tipo no Brasil — número que já passa de 500 unidades vendidas apenas em 2026, sinal da aceleração do tema.
"O projeto abre um novo leque para a nossa comercialização de caminhões movidos a biometano. Hoje, já comercializamos os veículos 6x4, que conseguem transportar mais carga", explica. A venda dos veículos para a TransJordano também representa a maior venda de caminhões a biometano nessa tração para um único cliente da companhia e reflete a evolução técnica da linha, que foi de configurações 6x2 e 4x2 para os atuais 6x4, com mais capacidade.
Scania: fabricante de caminhões já vendeu mais de 2 mil unidades de veículos movidos a biometano no Brasil
Para Gentil, o projeto da TransJordano é estratégico para a Scania porque amplia a rede de postos de abastecimento abertos ao público, o que historicamente travou a adoção de caminhões a gás no país. Segundo ele, quando a fabricante começou a vender os veículos movidos a gás e biometano, eram pouquíssimos os postos disponíveis, concentrados entre São Paulo e Rio de Janeiro, e o mercado cresceu de forma gradual até a rede atual conseguir ligar Porto Alegre ao Nordeste.
A expansão do corredor verde com abastecimento de biometano já está nos planos — a empresa mira novos pontos em Uberaba (MG) para conectar toda a Anhanguera, além de um corredor para o sudoeste de Goiás e Paranaguá (PR), região de forte escoamento de açúcar e álcool e retorno de fertilizantes.
Roberto Mota, representante do Quinta Roda, concessionária Scania responsável pelo suporte técnico da frota, adiantou que está em estudo a instalação de um posto de manutenção avançado dentro da própria GaragemLog em Sumaré, para evitar que os caminhões precisem se deslocar até a concessionária para revisões — os veículos já saem de fábrica com plano de manutenção Scania Pro Premium.
Transporte limpo na TransJordano
João Bessa, fundador e presidente da TransJordano, defendeu que o país tem uma contradição a resolver: é "campeão" em geração de energia renovável, mas ainda concentra a maior parte do transporte de cargas em caminhões a diesel.
"Queremos que outros playeres entrem e os acompanhem. Hoje 60% do PIB do Brasil roda sobre um caminhão a diesel, mesmo com matéria-prima em abundância para fazermos o biometano rodar. A ideia é oferecer as condições para termos mais pontos de abastecimento com toda a sustentabilidade possível", explica o fundador.
Para ele, o biometano resolve essa lacuna porque tem matéria-prima descentralizada — vem de aterros sanitários, da agroindústria sucroalcooleira e de resíduos da pecuária, com fornecedores já em contato com a empresa para ampliar a oferta. João explicou ainda que a operação com a TransJordano com biometano deve evitar a redução de 6.486 toneladas de CO2 por ano apenas nessa primeira fase, e descreveu o projeto como tendo "efeito multiplicador" para o setor.
TransJordano: família fundou empresa em 1998, e hoje ocupa as diretorias estratégicas enquanto escalam negócio
A operação acontece em meio à transição de gestão da TransJordano da primeira para a segunda geração da família Bessa. João Bessa contou que ele e a esposa começaram a empresa há quase três décadas, e que os filhos, Joyce e Jordano, chegaram à companhia ainda jovens — Jordano relembrou ter entrado quando a empresa tinha cerca de cinco caminhões na frota, hoje com cerca de 600 veículos.
Os dois ocupam hoje cargos de diretoria: Jordano como diretor comercial, recentemente também responsável pela expansão do corredor verde e da GaragemLog, e Joyce como diretora de ESG e Relações Institucionais — cargo que, segundo ela, antes era focado em estratégia e gestão e passou a incorporar a agenda de sustentabilidade da empresa.
Joyce descreveu a governança da TransJordano como um modelo híbrido entre gestão familiar e profissionalização: a empresa já conta com diretores não familiares, mas mantém os fundadores e os filhos em posições estratégicas justamente pelo conhecimento acumulado da operação. "Não é alguém que chegou hoje para ocupar uma cadeira de diretor", disse ela, citando que está na empresa há 26 anos e Jordano, há 27.
Na Ultragaz, biometano como potencial
Já Erik Trencht, diretor de Gases Renováveis da Ultragaz, afirmou que a companhia entrou no mercado de biometano em 2023. "É um combustível do Brasil para o brasileiro, produzido a partir de resíduos nacionais, com potencial de descarbonização da cadeia", explica. Segundo ele, a Ultragaz já conta com contratos de fornecimento de 750 mil metros cúbicos de biometano por dia e atua principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Trencht detalhou que o modelo logístico da empresa funciona por modal rodoviário: o gás é retirado de aterros sanitários ou de resíduos agropecuários, transportado em carretas comprimidas até pontos de abastecimento instalados junto aos clientes, com tempo de abastecimento de 8 a 12 minutos por veículo — um modelo que ele descreveu como tecnicamente "íntegro", capaz de garantir que o combustível chegue ao cliente sem mistura com diesel ou outros combustíveis fósseis, o que é exigido para acesso a fundos ESG.
Para Trencht, o atrativo estratégico do projeto é resolver o "problema do ovo e da galinha" da transição energética em frotas pesadas: sem pontos de abastecimento não há adoção de caminhões a biometano, e sem caminhões não se justifica expandir pontos de abastecimento.
A entrada de clientes como a TransJordano, disse ele, ajuda a romper esse impasse. De acordo com Trencht, a Ultragaz descarbonizou cerca de 56 mil toneladas de CO2 com seus clientes no ano passado, e já vê o biometano avançar também no transporte público urbano, além do peso comercial: o preço do combustível é atrelado ao IPCA, o que dá às transportadoras maior previsibilidade de custo frente a combustíveis ligados a índices internacionais.
Abastecimeto de biometano da Ultragaz: companhia já tem contratos de 750 mil metros cúbicos por dia
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