Como a África pode se beneficiar com o fechamento do Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz na costa do Irã – que transporta até 25% do petróleo mundial – está fechado em decorrência da guerra, causando um disparo nos preços, na disponibilidade e nas incertezas ao redor do petróleo e do gás natural. Com muitos países pela Ásia e Europa lidando com escassez desses recursos, que são vitais para o funcionamento industrial e a vida cotidiana, seus governos buscam alternativas mais confiáveis – e a África pode ser uma delas.
Produzindo entre 6 e 10 milhões de barris de petróleo bruto por dia, a África é uma importante exportadora da commodity, responsável por mais de 8% da produção global de petróleo. Essa produção é movimentada principalmente pela Nigéria, Líbia, Argélia e Angola, e pode se tornar uma valiosa linha vital para muitas economias pelo globo, se o continente conseguir aproveitar a súbita vantagem competitiva no setor.
Apesar de reservas comprovadas de mais de 125 bilhões de barris na África, produtores africanos não conseguiram capitalizar seu potencial de produção e tiveram exportações em queda ao longo dos últimos anos. Isso se deve a uma combinação de conflitos internos violentos no continente, baixos níveis de investimento nessa indústria e políticas ocidentais, como a ratificação do Acordo de Paris, que, em busca de favorecer energia sustentável, gerou uma queda de interesse de investidores na região.
Por que os principais produtores de petróleo da África falharam?
África:indústria petrolífera do continente tem potencial de ser uma das maiores do mundo, mas o continente não conseguiu capitalizar o setor (KSchermbrucker/UNICEF/Divulgação)
O caso da Nigéria, maior produtor de petróleo da África, exemplifica as dificuldades internas da produção de petróleo no continente. No começo dos anos 2000, o país estava produzindo até 2 milhões e meio de barris de petróleo por dia, com estimativas de que a produção ultrapassaria os 3 milhões até 2010.
Todavia, devido a instabilidades internas como uma insurgência na região do delta do Níger, vital para a produção de petróleo do país, que viu rebeldes tomando controle do estoque da commodity e dos lucros da indústria em uma onda de violência que atingiu seu pico em meados de 2004. O país ainda luta para se recuperar desse choque, com uma produção atual que flutua entre os 1,4 e 1,5 milhão de barris diários.
A Líbia, com as maiores reservas comprovadas da commodity na África – 48 bilhões de barris – enfrentou problemas semelhantes após a queda de Muammar Gaddafi, e as incertezas decorrentes também resultaram em uma paralisação de uma indústria poderosa que já chegou a produzir 1,7 milhão de barris por dia, caindo para 200.000 diários em momentos de tumulto particularmente intensos. Mas a indústria mostra sinais de recuperação: desde que a situação melhorou em 2021, a produção chegou a bater os 1,3 milhão de barris.
A Angola e a Argélia compartilham entre si o mesmo problema: eram dependentes de plataformas oceânicas que não foram repostas tão rapidamente quanto foram esgotadas. Esses campos eram substancialmente mais caros para explorar e só atraíam investimentos durante períodos específicos de alta no preço do petróleo.
O resultado foi que a produção diária de Angola caiu pela metade, de um pico de cerca de 2 milhões de barris por dia em 2008 para cerca de 1 milhão de barris por dia atualmente. A Argélia, que exportou até 2 milhões de barris por dia entre 2005 e 2008, agora tem uma produção diária frequentemente inferior a 1 milhão de barris.
Gás natural na África
Gás natural liquefeito se torna produto em alta demanda devido ao fechamento do estreito de Ormuz (Germano Lüders/Exame)
Por sua vez, perspectivas para o gás natural liquefeito (GNL), outra commodity que se torna cada vez mais valiosa conforme o bloqueio de Ormuz se alastra por mais tempo, são mais animadoras.
A Agência Internacional de Energia (AEI) estima que a demanda por GNL crescerá consistentemente em cerca de 1,5% ao ano até 2030. Em torno de 50% dessa demanda vem apenas da Ásia, o que criaria uma competição lucrativa para a África entre a Ásia e a União Europeia por esse recurso – uma dinâmica que já vem se concretizando com a crise do petróleo.
Ao mesmo tempo, a produção africana de GNL, estimam analistas do jornal de Hong Kong South China Morning Post, deve crescer acentuadamente ao longo da próxima década, com previsões batendo os 172,2% totais.
A expansão se deve ao retorno gradual da estabilidade em países ricos tanto em GNL quanto em petróleo, como a Nigéria e a Angola, juntamente com novos atores que incluem Moçambique, o Congo, Senegal e a Mauritânia. A coroa da produção dessa commodity na África vai, novamente, para a Nigéria, que está expandindo ainda mais sua infraestrutura focada em GNL. Um novo sistema de produção e transporte em uma de suas plantas já adiciona 8 milhões de toneladas anuais, e outros atores com potencial nesse campo já se movem em direções semelhantes.
E a demanda já cresce – a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, visitou a Argélia em meio ao conflito no Irã para conversas centradas em energia, por exemplo, a fim de já garantir acordos benéficos antecipadamente.
Percebendo o potencial, esquemas de cooperação entre a Argélia, o Níger e a Nigéria também aumentam com planos bilionários para uma tubulação de 4,000 km voltada unicamente para o transporte de GNL da costa da Nigéria, que se conectará com outros sistemas nigerianos e argelianos que já suprem a Europa.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: