Como a CazéTV virou ‘a nova Globo da Copa’ – mas sem ter canal de TV
Nos negócios de mídia, mudanças se constroem ao longo do tempo — até que ficam visíveis de uma vez. No futebol brasileiro, esse ponto de virada chegou com a CazéTV.
Por décadas, a Globo concentrou as transmissões da Copa do Mundo. Desde 1970, a emissora definiu padrão, audiência e modelo de receita. Mas, em 2026, o protagonismo muda de plataforma: todos os jogos estarão no YouTube, justamente sob o comando de Casimiro Miguel.
O movimento começou de forma improvisada. Em 2022, semanas antes da Copa do Catar, a LiveMode decidiu testar um novo formato com direitos digitais disponíveis. O canal entrou no ar no dia da estreia do Brasil.
O resultado redefiniu o projeto. A transmissão entre Brasil e Croácia atingiu 6,9 milhões de espectadores simultâneos. “Não tínhamos noção do potencial. Vimos que havia uma demanda gigante de pessoas querendo assistir a jogos de uma forma diferente”, disse Casimiro Miguel, em entrevista recente à EXAME.
Quatro anos depois, o experimento virou operação. A CazéTV será a única a transmitir os 104 jogos da Copa de 2026 e já negociou 11 cotas de patrocínio, com receita estimada em R$ 2 bilhões.
Uma linguagem que aproximou público e esporte
O modelo partiu da forma de Casimiro contar o jogo. A CazéTV incorporou elementos que não faziam parte da transmissão tradicional, como reações ao vivo, comentaristas fora do eixo esportivo e interação constante.
A proposta foi reduzir a distância entre quem assiste e quem transmite. “A CazéTV tem uma conexão muito forte com um público que estava desconectado do esporte”, afirmou Casimiro.
A linguagem também abriu espaço para experimentação. Em transmissões recentes, o canal levou influenciadores, quebrou formatos e ampliou a presença de conteúdo além do jogo.
“Não queremos fazer nada proibido, mas acreditamos que algumas coisas podem ser repensadas”, disse. “Isso aproxima o público dos times, dos jogadores, e aproxima os jogadores do público.”
De oportunidade a estratégia
A estrutura por trás do canal começou antes da Copa. A LiveMode, criada por Edgar Diniz e Sergio Lopes, já trabalhava com clubes e federações na distribuição de direitos.
A fragmentação do mercado abriu espaço para novos formatos. “Sabíamos que o esporte tinha que entrar no mundo digital com uma linguagem própria”, disse Lopes.
A entrada de Casimiro completou o modelo. Com audiência formada durante a pandemia, ele trouxe escala e engajamento. “Conseguimos um nível de audiência e de construção de comunidade que nunca tinha sido visto no mundo digital”, afirmou.
Disputa de modelos
A ascensão da CazéTV acontece em um cenário de divisão dos direitos esportivos. Diferentes plataformas passaram a compartilhar transmissões, reduzindo a concentração na televisão aberta.
A Globo mantém vantagem em alcance absoluto em eventos específicos. Ao mesmo tempo, a CazéTV lidera em engajamento digital e interação.
O mercado passa a operar com múltiplas telas, formatos e estratégias comerciais.
Inquietude como motor
A consolidação do projeto não encerra o processo. A própria lógica que criou a CazéTV mantém o ambiente aberto a novas mudanças.
“O que vai nos levar adiante não é o jeito que a gente faz, é a inquietude de fazer coisas novas”, disse Casimiro.
Os donos da Copa: como a CazéTV transformou lives em negócio bilionário
O canal que nasceu às pressas em 2022 chega a 2026 como protagonista. Mas dentro do próprio modelo existe a expectativa de ruptura.
“Eu vim dessa garagem. Não posso dizer que não tem como. Pode ter como”, afirmou.
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