Como a Chardonnay, a 'rainha das uvas brancas', dominou a América do Sul

Por Luiza Vilela 22 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a Chardonnay, a 'rainha das uvas brancas', dominou a América do Sul

Nesta quinta-feira, 21 de maio, o mercado de vinhos celebra o Dia Internacional da Chardonnay. Considerada a “rainha das uvas brancas”, a variedade originária da Borgonha, na França, é uma das castas brancas internacionais mais difundidas (e apreciadas) do planeta.

São mais de 210 mil hectares de vinhedos espalhados por mais de 40 países, segundo dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), e a soberania se deve, sobretudo, à versatilidade técnica da uva. Ou seja, pela capacidade de assumir diferentes perfis conforme o terroir em que é cultivada.

Diferente de castas aromáticas mais rígidas, ela funciona como uma "tela em branco" para o enólogo. Na taça, reflete as decisões de vinificação — como a escolha entre tanques de aço inox (que preservam o frescor e a fruta) ou a fermentação e estágio em barricas de carvalho francês, técnica utilizada nos rótulos de alta gama para agregar peso de boca, estrutura e notas de especiarias e baunilha.

Mais fresca e frutada, a Chardonnay também é mais fácil de gostar. Ainda que o sabor mude muito de acordo com a vinificação, as garrafas são, em geral, mais cítricas, frutadas ou minerais. Quando envelhecida em barrica, por exemplo, pode ganhar notas de baunilha, manteiga, caramelo, tostado, coco e especiarias.

E, ainda que tenha vindo de Borgonha, na América do Sul, essa versatilidade da uva desencadeou uma revolução de qualidade na última década, que desafia a histórica hegemonia dos tintos na região.

Valle do Uco, na Argentina (Divulgação)

A virada de chave argentina e chilena

Na Argentina, que ostenta 5.854 hectares da variedade de Chardonnay, o salto de complexidade ocorreu à medida que os produtores subiram as cordilheiras. Entender os microclimas e solos calcários na altitude do Vale do Uco — em sub-regiões frias como Gualtallary, San Pablo e Los Chacayes — permitiu colheitas mais temporãs.

Um dos exemplos de vinhos produzidos por lá é o Grand Chardonnay Alpasión. Único branco da linha “Grand” da vinícola, o rótulo combina frescor, textura e profundidade em um vinho de altitude, mas cheio de personalidade. Ele passa por um processo de fermentação malolática parcial e amadurece por 12 meses: 75% do tempo em barricas de carvalho francês e 25% em tanques de inox sobre as borras.

“Encontramos a combinação perfeita entre altitude, frescor e mineralidade. Esse vinho mostra exatamente isso: a elegância natural da casta, com camadas de complexidade e um equilíbrio impecável”, afirma Jorge Santos Carneiro, sócio-fundador da vinícola.

O resultado são vinhos com acidez vibrante, notas minerais e menor teor alcoólico, distanciando-se dos perfis pesados e excessivamente maduros do passado.

Exemplo dessa engenharia vitícola é o uso de podas tradicionais como o Guyot Duplo e manejos de solo que isolam parcelas específicas de vinhedos. É o caso de projetos renomados como o Adrianna Vineyard, da Catena Zapata, e o Grand Chardonnay, da vinícola Alpasión, que combina o amadurecimento sobre as borras (bâtonnage) em barricas com tanques de inox para equilibrar untuosidade e frescor.

Casablanca Valley, no Chile (Divulgação)

Já o Chile, na América do Sul, é o principal produtor. Com 10.920 hectares plantados, o país encontrou nos terraços de calcário do Vale do Limarí, sob forte influência costeira do Oceano Pacífico, o seu grand cru para brancos lineares e tensos. Produtores de ponta também têm empurrado as fronteiras da casta em direção ao sul extremo, para explorar os solos vulcânicos de Malleco e Osorno e obter perfis salinos e verticais.

A vinícola Casablanca Valley, próxima de Santiago e a 20 quilômetros do Oceano Pacífico, é um dos exemplos entre as boas produtoras de Chardonnay chilenas. O Adobe Reserva Chardonnay Casablanca Valley, por exemplo, recebeu medalha de ouro no Concours Mondial de Bruxelles 2024. A casa destaca o sabor com notas florais, de ervas e de especiarias doces, apoiadas por refrescante acidez e textura firme e cremosa.

Outro destaque, mais simples que o primeiro, é o Aves Del Sur Chardonnay. "O Chile oferece uma diversidade única para a produção de vinhos graças à sua extensão, geografia e condições climáticas. Inspirada na variedade de aves que sobrevoam o território chileno, a linha Aves del Sur foi criada. O Chardonnay Aves del Sur é intenso, refrescante e persistente no paladar, exalando notas expressivas de frutas tropicais, manga, banana e abacaxi", diz o sommelier Vinícius Santigado, do Viníssimo Group.

E no Brasil?

A Adega da Família Geisse, no Sul do Brasil (Família Geisse/Divulgação)

No Brasil, a Chardonnay ocupa pouco mais de 1 mil hectares no Rio Grande do Sul, segundo levantamento do Vinho Brasileiro, e desempenha um papel estratégico para a consolidação da identidade vinícola nacional para dentro e fora do país.

Entre os maiores destaques de garrafas está a Oak Barrel Chardonnay da Amitié, vinícola da região da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, com sede em Garibaldi e forte presença no Vale dos Vinhedos. O rótulo está entre os mais premiados do Brasil, tendo levado medalha de ouro no Chardonnay du Monde — concurso internacional dedicado exclusivamente a vinhos feitos com a uva Chardonnay, realizado na Borgonha, na França — de 2022 e 2023 e medalha de prata em 2024.

Mesmo com o reconhecimento internacional, ele ainda está longe de ser a maior expressão do uso da uva no Brasil. A casta é a segunda variedade da espécie Vitis vinifera mais plantada no país e atua como a espinha dorsal dos espumantes brasileiros de alta qualidade, elaborados pelo método tradicional (champenoise).

A Casa Geisse, por exemplo, é uma das casas de borbulhas brasileiras mais premiadas do Brasil e utiliza a uva na maior parte de seus espumantes. Um bom exemplo é o Cave Geisse Blanc de Blanc Brut, 100% Chardonnay, que acumula prêmios como a medalha de ouro no Brazil Wine Challenge 2018, 94 pontos na Decanter Magazine Inglaterra 2020 e 93 pontos no Descorchados 2021.

Embora a Serra Gaúcha permaneça como o bastião histórico para a produção de espumantes elegantes e estruturados à base de Chardonnay, o mercado de vinhos finos tranquilos (não espumantes) começa a desenhar novas fronteiras de consumo. Regiões como a Serra do Sudeste e a Campanha Gaúcha despontam como polos para vinhos brancos de colheita regular, enquanto projetos de viticultura de altitude e dupla poda em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e na Chapada Diamantina (Bahia) começam a dar novas texturas à rainha das brancas no país.

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