Como a China sobrevive mesmo sem o estreito de Ormuz

Por Matheus Gonçalves 2 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a China sobrevive mesmo sem o estreito de Ormuz

A China é o maior importador de petróleo do estreito de Ormuz, com mais de 37% de todo o petróleo transportado pelo estreito em tempos de paz – quantia equivalente a 5,35 milhões de barris por dia – tendo a potência asiática como destino, segundo dados da empresa Visual Capitalist, que processa dados da economia global.

Mesmo assim, o país ainda é, paradoxalmente, talvez o mais resiliente para aguentar o fechamento da passagem vital e continuar funcionando sem o fluxo constante da commodity, apesar de seu intenso consumo energético como uma forte economia industrial.

Usando cerca de 48 mil terawatts/hora de energia por ano (TWh), a China consume anualmente significativamente mais energia que os EUA (26 mil TWh), a Índia (10.800 TWh) e o Brasil (3,919 TWh) combinados, de acordo com dados do U.S. Energy Information Administration compilados pela empresa Our World in Data, que analisa dados gerais em diversas categorias por país.

Mesmo assim, o país parece bem isolado dos choques energéticos decorrentes do bloqueio seletivo do estreito de Ormuz.

Essa resiliência se deve a anos de políticas que visavam reduzir a vulnerabilidade chinesa a possíveis choques energéticos, resultando em diversas fontes de energia que o país pode usar e em vastos estoques e fontes alternativas ao petróleo que continuam a alimentar as demandas energéticas da China mesmo em tempos de incerteza.

Eletricidade: uma frota de veículos elétricos e uma forte rede elétrica

Veículo elétrico Changan Nevo A06 em exibição na China (Divulgação)

No fim de 2020, Pequim estabeleceu um objetivo de que os veículos elétricos no país ultrapassassem os 20% de todas as compras automotivas até 2025. No ano passado, as vendas já representavam metade de todos os novos veículos.

Uma frota de veículos elétricos reduz drasticamente a dependência do país em combustíveis fósseis por si só, representando uma queda significativa na queima e na importação de petróleo na China em poucos anos.

De acordo com estimativas do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA, na sigla em inglês), o petróleo que não foi usado somente pelo número de veículos elétricos na China basicamente equivale ao que o país importava da Arábia Saudita – e outras estimativas da CREA sugerem que a frota elétrica tenha substituído mais petróleo do que todas as importações do Iraque para a China, que, em 2025, foi o terceiro principal importador da commodity para o país.

Além disso, a China também conta com uma poderosa rede elétrica, ainda alimentada principalmente por carvão, mas que rapidamente passa a ser cada vez mais alimentada por fontes renováveis.

O aumento na ênfase sobre fontes renováveis foi tanto que superou até mesmo os objetivos estabelecidos por Pequim, com quase toda a energia adicional que a indústria do país consome vindo de fontes solares ou eólicas. Isso não só significa menor uso de carvão, que é poluente, mas também resulta em menos importações de gás natural liquefeito – outra importante commodity barrada pelo bloqueio em Ormuz, que agora é utilizado sobretudo em algumas províncias litorâneas onde ainda faz parte da produção energética.

Petróleo: uma vasta gama de fornecedores e um amplo estoque

Transporte de barris de petróleo na China: uma grande parcela do petróleo importado apra o país acaba em vastos estoques (Getty Images)

Apesar dos avanços em energia renovável, a China continua exportando grandes quantidades de petróleo. Todavia, em contraste com seus vizinhos asiáticos – e como parte de suas políticas – o país toma cuidado para não depender quase exclusivamente de uma única fonte, como o estreito de Ormuz.

Em comparação ao Japão, que exporta quase 80% de todo o seu petróleo da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, a China compra uma porcentagem semelhante de uma gama de países diferentes – com desconto – principalmente de aliados ideológicos como Rússia, Venezuela e até mesmo o Irã, por mais que recursos venezuelanos possam ser de mais difícil aquisição chinesa após a queda de Maduro.

Em uma lista do Visual Capitalist, que compilou dados da U.S. Energy Information Administration, dos 10 principais exportadores de petróleo para a China, 5 se encontram na região do Oriente Médio, com o principal exportador sendo a Rússia, e outros importantes nomes incluindo os EUA – cujas exportações de petróleo para a China tendem a cair – o Canadá, o México e outros produtores na América Central e Latina.

O Brasil representa 6% do petróleo importado pelos chineses — e o comércio da commodity vem ganhando espaço na pauta brasileira.

Uma grande parte dessas importações, em vez de ser usada diretamente, é direcionada para o amplo estoque que a China mantém. Apesar de dados exatos sobre as reservas serem desconhecidos pelo público, uma média de estimativas por diversas empresas que processam dados desse tipo, como Kpler, Energy Aspects, Vortexa e a Agência Internacional de Energia, gira em torno de quantias capazes de alimentar o país por até 7 meses independentemente do estado do estreito de Ormuz.

A produção doméstica cresce

Vastos sistemas de tubulação cortam a China por milhares de quilômetros, conectando o país diretamente com produtores de gás natural e petróleo, reduzindo a dependência chinesa em vias marítimas como Ormuz (thinkstock)

No ano passado, a China chegou a produzir 4,3 milhões de barris de petróleo por dia, um novo recorde que representava 40% das importações do país. Todavia, as reservas naturais da commodity estão se esgotando e a China provavelmente não conseguirá replicar as figuras americanas antes de atingir os seus limites.

Todavia, a produção doméstica de gás natural na China está crescendo tão rápido que, quando combinada com o gás liquefeito importado por via de tubulações da Rússia e da Ásia central, o país está importando menos dessa commodity por vias marítimas como Ormuz do que os dados de 2020.

Grandes porções dessas tubulações já cortam grandes partes do país, conectando a China através de milhares de quilômetros diretamente a lugares como o Turcomenistão, a Sibéria, e o Mianmar, e ainda mais ambiciosos projetos continuam sendo planejados, para tubulações cada vez maiores, principalmente em conjunto com a Rússia.

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