Como a CIA e Israel planejaram por meses para matar Khamenei em minutos
O resultado da operação no Irã neste sábado não foi fruto de improviso. A morte do aiatolá Ali Khamenei selou um trabalho de meses, a partir do acúmulo gradual de informações sobre seus hábitos e movimentos, segundo pessoas familiarizadas com a operação ouvidas pelo jornal The New York Times.
O ataque ao Irã já estava estruturado: tinha data marcada e execução planejada para a madrugada. Uma informação de última hora, contudo, alterou o plano. Khamenei participaria de uma reunião na manhã de sábado num complexo no centro de Teerã, onde também funcionam os escritórios da presidência e do Conselho de Segurança Nacional.
A inteligência americana então repassou os dados a Israel e, juntos, Estados Unidos e Israel decidiram antecipar o horário.
Uma reunião, uma lista de nomes
Entre os presentes na tal reunião estavam o comandante-chefe da Guarda Revolucionária, o ministro da Defesa e o chefe do Conselho Militar, além de outros oficiais de alto posto. Uma convergência desse nível raramente ocorre fora de condições muito específicas de controle, segundo o jornal americano.
Com o "mapa" nas mãos, caças saíram das bases israelenses por volta das 6h da manhã no horário local em uma organização cirúgica sustentada por poucos aviões e armamentos de alta precisão.
No momento em que os mísseis atingiram o complexo em Teerã, Khamenei não estava reunido com os demais oficiais, mas em outro edifício do mesmo local.
Em mensagem obtida pelo The New York Times, um oficial israelense descreveu ataques simultâneos em múltiplos pontos da capital, com ao menos um dos alvos concentrando figuras centrais do regime.
O mesmo oficial considerou que a 'surpresa tática' foi a diferença para o sucesso da ofensiva, considerando que o Irã - ainda que já em estado de alerta - não tenha detectado ou interceptado a operação a tempo.
Meses de trabalho, uma janela de minutos
De acordo com fontes ouvidas pelo jornal a preparação para a ofensiva se estendeu por pelo menos um ano.
O período mais relevante, apontaram, foi a Guerra dos 12 dias travada em 2025, quando os americanos mapearam como Khamenei e a Guarda Revolucionária operavam sob pressão, incluindo seus canais de comunicação e protocolos de deslocamento.
Não por acaso, em junho do ano passado, Trump havia declarado publicamente que sabia onde o aiatolá estava escondido, numa afirmação tratada como fanfarronice. Mas não era.
A estrutura de inteligência que sustentou a operação do sábado já existia naquele momento, segundo um ex-oficial americano declarou ao The New York Times, e só se aprofundou desde então.
A negociação que naufragou na véspera
Dois dias antes dos ataques, ainda havia diplomacia em curso. Na quinta-feira, 26, os enviados de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, estiveram com representantes iranianos em Genebra, na residência do embaixador de Omã, em um encontro revelado pelo jornal britânico The Guardian.
Conforme o veículo, as conversas duraram o dia inteiro sem avanço, visto que as exigências americanas eram extensas. Os EUA queria o desmantelamento dos três principais complexos de enriquecimento nuclear iranianos, em Fordow, Isfahan e Natanz.
Além disso, pediam a entrega do estoque de urânio enriquecido e um acordo sem prazo de validade, diferente o pacto de 2015 que limitava o programa nuclear iraniano em troca do levantamento de sanções, do qual Trump havia se retirado no primeiro mandato.
O Irã não cedeu em nenhum ponto. Com o retorno dos enviados sem acordo, na mesma noite Trump foi informado sobre suas opções militares.
De acordo com o The Guardian, o desfecho a partir daí não surpreendeu a delegação americana. O Irã nunca aceitou discutir seu arsenal de mísseis balísticos em nenhuma negociação e quando os enviados ofereceram combustível nuclear gratuito e sem prazo, a resposta também foi não.
O gesto, explica o Guardian, foi lido pelos negociadores como sinal de que Teerã não tinha intenção real de fechar qualquer acordo - uma conclusão reforçada pela inteligência americana, cujas avaliações internas indicavam que o país havia retomado a reconstrução das instalações atingidas na Operação Midnight Hammer, no ano anterior.
Quem vem depois?
Eliminar Khamenei não foi apenas uma decisão militar, mas uma aposta política, segundo fontes ouvidas pelo Guardian.
O raciocínio era que a Guarda Revolucionária construiu sua lealdade em torno de uma figura específica, não de uma instituição. Com a morte do líder supremo, essa coesão se tornaria mais frágil, já que nenhum sucessor herdaria automaticamente o mesmo grau de devoção.
O que acontece a partir de agora, porém, está longe de ser previsível. Luiza Cerioli, pesquisadora de relações internacionais do Oriente Médio na Universidade de Kassel, na Alemanha, ouvida pela EXAME, afirma: a sucessão no Irã é território desconhecido.
O único paralelo possível, segundo Cerioli, é a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1989, fundador da República Islâmica. "E ele mal serve de parâmetro, já que morreu num contexto de guerra prolongada contra o Iraque, num regime ainda em construção", explica.
"Outro aspecto é que Khomeini havia escolhido pessoalmente Khamenei como seu representante antes de morrer", completa a pesquisadora. "E ainda assim, os primeiros anos de Khamenei no poder foram marcados por disputas internas e dificuldades para consolidar autoridade."
Atualmente o contexto é outro, e o caminho deve ser também. A morte de Ebrahim Raisi, presidente iraniano vitimado por um acidente de helicóptero em maio de 2024 e apontado como um dos principais candidatos à liderança suprema, já havia embaralhado os planos de sucessão antes mesmo dos ataques de sábado.
Após a confirmação da morte de Khamenei, um conselho temporário foi formado para gerir a transição.
O grupo é composto pelo atual presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, e por um jurista do Conselho dos Guardiães. Todos com conexões sólidas dentro do sistema político e militar iraniano, segundo a agência estatal IRNA.
Para Cerioli, esse conselho tende a se prolongar além do esperado, e de forma deliberada. "Nomear um novo líder supremo enquanto os ataques continuam seria, na prática, criar um novo alvo. Para o regime, esticar esse interregno é também uma forma de resistência", analisa.
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