'Zona Franca digital': o plano de um francês no Brasil para as cidades do futuro

Por Laura Pancini 23 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Zona Franca digital': o plano de um francês no Brasil para as cidades do futuro

Uma empresa brasileira quer transformar a ideia de “abrir empresa no exterior” em algo tão simples quanto assinar um streaming — e, ao longo prazo, permitir que você escolha em qual cidade digital vai viver, trabalhar e pagar impostos, ainda que isso hoje esteja muito mais no campo da tese do que do uso massificado.

A Tools for the Commons está criando uma rede de zonas digitais inspirada no conceito de network state, e acaba de anunciar uma rodada pré-seed de R$ 10 milhões com participação do fundo 468 Capital, da Sthorm (ecossistema de deep tech), da Tanssi (infraestrutura para contratos inteligentes), da Coins (carteira digital) e do Grupo OSPA.

O que são network states?

O termo network state descreve comunidades digitais alinhadas por um conjunto de valores ou objetivos que se organizam primeiro na internet, muitas vezes usando blockchain e cripto.

Em vez de nascerem de um território contínuo, essas comunidades funcionam como “cidades em nuvem”, coordenadas por ferramentas digitais, com regras próprias e, em alguns casos, planos de adquirir pequenos terrenos em diferentes países.

Os defensores da tese apontam vantagens como mais liberdade de escolha (a possibilidade de “optar” por um sistema de regras sem precisar emigrar fisicamente) e um ambiente propício para testar modelos de governança, sem depender de reformas lentas em estados nacionais.

Já os críticos questionam a capacidade desses projetos de entregar bens públicos como segurança e infraestrutura, e apontam o risco de concentração de poder em fundadores e investidores.

O que a Tools faz?

É nesse debate que a Tools for the Commons tenta se encaixar, mas com um recorte mais pragmático.

Em vez de propor a criação imediata de um “novo país”, a empresa quer facilitar o acesso a zonas especiais e regimes diferenciados já existentes, empacotando regras, impostos e serviços públicos digitais em um produto que lembra um marketplace de jurisdições.

Na tese do fundador, o empreendedor deixaria de depender apenas do país onde nasceu ou do CEP onde abriu CNPJ para escolher o pacote de regras mais alinhado ao seu negócio. Em troca, pagaria uma assinatura mensal e uma taxa sobre as operações que rodam ali.

Hugo Mathecowitsch, fundador da Tools, define o modelo como “o Uber ou Airbnb das zonas especiais”. Francês, Mathecowitsch vive no Brasil há quase 15 anos e foi um dos fundadores da fintech A55. Nela, ajudou a financiar mais de mil empresas de tecnologia com crédito estruturado — incluindo uma modalidade que utiliza finanças descentralizadas para investir em empresas de tecnologia.

Qual o modelo de negócio?

Agora, com a Tools, o executivo fala em “tokenizar a vida” ao permitir migrar documentos, empresa e contas de um território a outro com poucos cliques. Na prática, a empresa desenvolve infraestrutura digital baseada em blockchain para gerenciar essas zonas: registro de pessoas e empresas, movimentação financeira em moedas locais e cripto, contratos e regras de governança.

A ideia é criar uma nova categoria de cidades digitais, voltadas para a economia do conhecimento — profissionais que trabalham com software, internet, AI e propriedade intelectual, cuja rotina já é, por natureza, globalizada.

Hoje, a Tools já opera em duas zonas: uma em Zanzibar, na África, onde atua como operadora escrevendo leis e programando instituições locais, e outra em Próspera, em Honduras, conhecida como a “Hong Kong do Caribe”. Lá, a empresa funciona como distribuidora da zona especial criada em 2016.

Qual o modelo de negócio?

A Tools se organiza em etapas. Primeiro, vem o setup: desenhar a zona (ou o “canal”, quando a infraestrutura jurídica já existe), redigir leis e decretos, configurar sistemas e garantir que tudo possa rodar em um sandbox controlado.

Depois, a empresa oferece uma residência digital por assinatura — como “um Spotify de impostos”, nas palavras de Mathecowitsch. Por fim, entra a camada transacional, onde a Tools captura uma porcentagem das receitas geradas dentro daquela economia.

O objetivo é criar um “PIB digital” em cada zona e cobrar um percentual de comissão sobre movimentações de pessoas e empresas — o alinhamento de interesses, diz ele, vem do fato de que a empresa só cresce se as zonas prosperarem.

Na visão de Mathecowitsch, o que sua empresa tenta fazer é uma espécie de “Zona Franca de Manaus digital, só que exportável”: em vez de galpões e linhas de montagem, o foco são programadores, designers, criadores de conteúdo e negócios de software, que podem operar de qualquer lugar do mundo.

Quais os desafios?

No pano de fundo está a discussão de soberania digital. Segundo Mathecowitsch, hoje boa parte das infraestruturas públicas digitais de países como o Brasil roda em nuvens de grandes empresas de tecnologia, sujeitas a legislações como o Cloud Act americano, que permite ao governo dos EUA requisitar dados guardados em nuvens do país.

Em tese, isso dá poder desproporcional a poucas big techs e a dois blocos — Estados Unidos e China — sobre sistemas críticos do resto do mundo. A aposta da Tools é que novas zonas digitais, com arquiteturas distribuídas e regras próprias, podem servir como “laboratórios de soberania” para testar alternativas a esse duopólio.

Ao mesmo tempo, criar uma rede de cidades digitais abre dilemas conhecidos das zonas especiais: risco de competição fiscal entre territórios, pressão por regras trabalhistas e ambientais mais flexíveis e a possibilidade de que benefícios se concentrem em uma minoria altamente qualificada.

O que vem por aí?

A própria empresa admite que se trata de um jogo de longo prazo, altamente regulado e dependente de ciclos políticos — criar uma nova jurisdição não é como lançar um aplicativo, e projetos de zona especial levam anos, exigem negociação com governos e convivem com riscos de mudanças de regra, rejeição social ou simples falta de tração.

Por isso, a Tools combina zonas em que só distribui serviços já existentes (caso de Próspera) com zonas em que assume um papel mais pesado de operadora e escritora das leis (como em Zanzibar).

No horizonte de 10 anos, Mathecowitsch fala em algo entre 50 e 100 zonas conectadas, um “país distribuído” que existiria mais na nuvem do que em um mapa físico. O que hoje parece distante do cotidiano da maioria pode virar apenas mais uma camada da economia da internet.

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