Como a guerra contra o Irã afeta a política e a economia dos EUA

Por Matheus Gonçalves 10 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a guerra contra o Irã afeta a política e a economia dos EUA

Os ataques de mísseis e drones conduzidos em conjunto pelos Estados Unidos (EUA) e Israel no Irã desestabilizaram o país e fragilizaram ainda mais a economia iraniana, já enfraquecida por anos de regime autoritário. As repercussões da ofensiva, porém, ecoam por todo o mundo, inclusive – e especialmente – nos EUA, à medida que uma crise energética surge no horizonte, e turbulências políticas para a administração do presidente, Donald Trump, podem vir em decorrência disso, principalmente em relação às eleições de meio de mandato, que ocorrerão no fim desse ano.

Já enfrentando taxas de aprovação baixas, o novo conflito de Trump viu seus números caírem ainda mais. Atualmente, um dos maiores pontos de preocupação dos americanos são os altos custos de vida, principalmente em energia e serviços públicos, e bases eleitorais reagem rapidamente a flutuações nos preços.

De acordo com pesquisas do The Washington Post, 52% dos americanos desaprovam a maneira como o governo Trump está administrando o conflito, número impulsionado pelas recentes mortes de soldados americanos no Oriente Médio, enquanto 48% dos correspondentes sentem que a situação econômica piorou sob o republicano.

Uma pesquisa mais ampla da revista The Economist revela um cenário ainda mais perturbador para sua administração: após 413 dias de governo em seu segundo mandato, Trump tem uma taxa geral de aprovação beirando os 38%, com 58% de desaprovação, e 4% dos correspondentes indecisos. O número caiu 0,6 ponto percentual apenas na semana passada.

O principal fator que pode limitar mais danos econômicos e políticos é o tempo: até quando o combate durará, bloqueando importantes vias comerciais do mundo.

Com cada vez mais países da região participando direta e indiretamente do conflito, a escala da guerra parece estar fadada a crescer, o que aumenta o potencial de abalar as cadeias produtivas globais. Os choques econômicos também atraem a atenção de atores asiáticos, como a China, que transportam muitas mercadorias pelas vias marítimas da área, importando altas quantidades de petróleo e outros produtos iranianos.

“A aventura desastrosa de uma semana do Sr. Trump já custou aos militares dos EUA US$ 100 bilhões, além da vida de jovens soldados”, disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em um comunicado. “Quando os mercados reabrirem, esse custo aumentará exponencialmente e será repassado diretamente aos cidadãos comuns americanos nos postos de gasolina.”

Por sua vez, Trump responde com um certo nível de desdém aos preços da gasolina. Em entrevista à Reuters na última quinta-feira, 5, ele não estava preocupado com esse assunto. “Se subirem, subirão”, disse ao veículo.

“Não tenho nenhuma preocupação com isso”, complementou na entrevista. “Os preços cairão muito rapidamente quando tudo isso acabar, e se subirem, subirão, mas isso é muito mais importante do que um pequeno aumento no preço da gasolina.”

As falas do presidente vêm apenas uma semana após ter apontado a queda no preço da gasolina como um ponto alto de seu governo durante seu discurso do estado da União para o Congresso.

Nesta segunda-feira, 9, ele deu novas declarações que arrefeceram as altas dos preços de petróleo — a Brent fechou em US$ 88,53. Em entrevista à CBS, afirmou que a guerra contra o Irã pode acabar "em breve" e que o país "não tem Marinha, nem comunicações, não tem Força Aérea".

Os EUA, o Irã e as cadeias de produção

Mapa da guerra no Irã, envolvendo as principais zonas de conflito e alvos atacados (Arte/EXAME) (Arte/Exame)

O Irã, além de ser um país rico em recursos naturais, com algumas das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo, também está localizado em uma posição de alta importância estratégica, no coração do Oriente Médio. Isso faz com que o novo conflito no país não só tenha mais facilidade de se propagar pela região, mas também deixa incerto o futuro das operações pelo estreito de Ormuz, uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, que vê o transporte de cerca de 20% do petróleo mundial por suas águas.

Em apenas duas semanas de guerra, as consequências do conflito já reverberam pelo mundo – somente a incerteza sobre Ormuz já foi o suficiente para aumentar em cerca de 15% o preço do barril de petróleo, acima dos US$ 100, e afetando diretamente os mercados americanos.

Cerca de 200 navios estão presos na região do Golfo Pérsico desde o começo da guerra e muitos outros deixaram de operar, atrasando consideravelmente o fluxo da commodity pelos mares. Além disso, a principal refinaria da Arábia Saudita e o maior centro de exportação de gás natural do Catar foram fechados indeterminadamente devido ao risco de ataques de drones.

Os Estados Unidos, em função da longa rivalidade ideológica e política com o Irã, não compram petróleo iraniano. Além disso, os americanos produzem mais petróleo do que importam, devido às altas inovações em tecnologia de extração em solo estadunidense nos últimos 15 anos.

Mesmo assim, uma total “independência energética” não é algo que existe hoje, já que choques e flutuações no preço do petróleo em um lugar afetam preços no mundo todo. O disparo nos preços globais do petróleo já resultou, em apenas duas semanas de guerra, na maior alta doméstica no preço da gasolina nos EUA desde 2022, seguindo a invasão russa da Ucrânia.

Riscos paralelos cascatam: durante um evento na Universidade Harvard, Scott Kirby, CEO da linha aérea United Airlines, avisou que preços de passagens podem subir, acompanhando o petróleo. O mesmo se aplica ao preço de alimentos e outros bens básicos, já que seu transporte depende do combustível.

Na mesma nota, o fechamento de importantes aeroportos perto da zona de conflito já interditou um quinto da capacidade global de carga aérea, interrompendo não só a evacuação de cidadãos internacionais pegos no conflito, mas também carregamentos de produtos como remédios e mercadorias como terras raras e metais preciosos, em um golpe significativo para as cadeias de produção globais.

Mohammad-Bagher Ghalibaf — presidente do parlamento iraniano, o Majlis — escreveu no X que “se a guerra continuar assim, não haverá como vender petróleo nem capacidade de produzi-lo. Eles estão queimando não só os interesses dos Estados Unidos, mas também os interesses dos países da região e do mundo, por conta das ilusões de Netanyahu”.

Para Trump, que terá um teste definitivo nas eleições de meio de mandato, as midterms, o risco do aumento do custo de vida e a percepção popular de que os EUA entraram em uma guerra sem saber como deixá-la podem ser negativos. Certamente, esse cálculo fará parte de cada movimento da Casa Branca nas próximas semanas.

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