Como a guerra do Irã amplia o afastamento entre EUA e a Europa
Uma série de tensões diplomáticas e geopolíticas atribuídas ao presidente americano, Donald Trump, nos últimos meses amargou a relação dos Estados Unidos com o resto da Otan, uma importante aliança militar com 30 membros na Europa e dois na América do Norte criada em 1949.
Dentre os incidentes, encontram-se as ambições e ameaças de Trump para anexar o Canadá, tomar posse à força se necessário da Groenlândia, território da Dinamarca, que também faz parte da Otan, uma série de tarifas intensas inclusive sobre seus aliados, operações militares que violam o direito internacional, tal como o bloqueio em Cuba e a remoção de Maduro da Venezuela, e, mais recentemente, os problemas no Irã.
No atual imbróglio no Oriente Médio, o bloqueio seletivo do estreito de Ormuz – importante via marítima para o transporte de uma miríade de mercadorias, especialmente o petróleo – gerou ecos por toda a economia global e cadeias de suprimento, no que é amplamente visto como um erro estratégico americano de consideração antes do início do conflito.
Agora, enfrentando tanto pressões políticas quanto econômicas, que muitas vezes se entrelaçam, Trump buscou a ajuda de membros da Otan e além para ajudar os EUA a reabrir o estreito, que estava operando normalmente antes dos ataques americanos em conjunto com Israel no fim de fevereiro. Encontrando apenas negação e relutância de países em entrar diretamente em uma guerra não relacionada com seus interesses, o republicano e seu gabinete adotam uma postura cada vez mais hostil aos seus até então aliados.
A administração Trump e a Otan
O presidente Donald Trump, ao lado do secretário Marco Rubio, durante reunião da Otan, em Haia, na Holanda (Nicolas Tucat/AFP)
Nas redes sociais, Trump chama países da Otan de “covardes”, dizendo que os EUA se lembrarão do ‘abandono’. Em entrevistas recentes, alegou estar “absolutamente” considerando sair da aliança.
Seus sentimentos foram reforçados pelo secretário de Estado Marco Rubio, outrora um defensor da aliança transatlântica, que declarou que “Não tenho dúvida, infelizmente, de que após a conclusão desse conflito teremos que reexaminar nossas relações [com a Otan].”
A mudança de Rubio, em particular, assusta a Europa, já que, como senador em 2023, foi um dos patrocinadores de uma importante lei bilateral que visava prevenir uma saída unilateral dos EUA como a que Donald Trump contempla no momento. “O Presidente não poderá suspender, rescindir, denunciar ou retirar os Estados Unidos do Tratado do Atlântico Norte [...] exceto com o conselho e consentimento do Senado”, por maioria de dois terços, declara o ato.
Historicamente um agente limitador dentro da administração de Trump, atuando especialmente nas relações transatlânticas dos EUA, e buscando prevenir o abandono total da Ucrânia, sua drástica mudança de posição preocupa muitos na Otan – afinal, o republicano flerta com uma saída unilateral americana da Otan desde o seu primeiro mandato. Atualmente, observadores temem que o ato possa ser simplesmente sobrepujado pela autoridade do presidente, já que Trump foi capaz inclusive de entrar em guerra sem a aprovação do Senado.
“Este é o pior momento que a Otan já enfrentou”, afirma para a revista britânica The Economist Ivo Daalder, ex-embaixador americano na Otan. “Em vez de tentar convencer Donald Trump a não sair, os aliados precisam se concentrar… em fortalecer sua capacidade militar.”
Fortalecimento militar e resistência europeia
Emmanuel Macron: presidente da França exibiu submarino nuclear logo após ataques ao Irã e promete ampliar capacidade militar (Yoan Valat/Pool/AFP/Getty Images)
O republicano exige que membros da Otan e outros aliados dos EUA (como o Japão, apesar de uma demanda menor) dediquem até 5% do PIB aos setores militar e de defesa, argumentando que os EUA carregam desproporcionalmente as responsabilidades militares dentro do bloco. Suas críticas e demandas resultaram em um compromisso formalmente adotado por vários países da Otan no ano passado.
Todavia, as ambições de Trump tanto para a Otan quanto para seu papel no Irã enfrentam forte resistência. A Espanha do premiê socialista Pedro Sánchez foi o mais resistente membro da Otan contra as demandas de Trump, fechando as bases aéreas locais para uso americano e rejeitando o novo gasto anual esperado para as forças armadas e defesa nacional.
O Reino Unido de Keir Starmer inicialmente negou entrar no conflito, mas agora permite o uso de suas bases para proteger países alinhados ao Ocidente de ataques retaliatórios do Irã. Em resposta, Trump diz que Starmer “não é nenhum Winston Churchill”, o líder britânico que liderou o país contra o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, sugerindo que o americano vê fraqueza no premiê.
Por sua vez, a resposta francesa foi relativamente mais intensa, enviando caças para proteger os Emirados Árabes Unidos de ataques retaliatórios por drones iranianos e um porta-aviões para auxiliar na defesa do Chipre. Mesmo assim, Trump se enraiveceu com a reação “muito inútil” da França após o país bloquear o voo de certas aeronaves militares dos EUA sobre seu território. A Itália, um dos 12 membros fundadores da Otan, também interditou o uso de bases militares na Sicília pelos americanos.
Enquanto isso, os EUA cogitam limitar o fluxo de armamentos para a Ucrânia, em parte por frustração na falta de progresso em negociações de paz e em parte porque seus próprios estoques estão se esgotando no Irã, apura a The Economist. A defesa da Ucrânia contra a Rússia é vista como questão de segurança fundamental para a Europa pelos líderes do bloco, que continuam investindo milhões de euros para auxiliar a resistência do país.
O problema de Ormuz
Estreito de Ormuz: rota de escoamento do petróleo é principal preocupação. (GettyImages)
Independentemente dos EUA, o fechamento de Ormuz afeta drasticamente a Europa, mesmo que não importe tanto petróleo da passagem. Competição direta com países asiáticos pela commodity e um renovado interesse pelo petróleo russo, até então sob intensas sanções, mas agora uma alternativa promissora – e para alguns, moralmente questionável – afeta diretamente prospectos econômicos para o bloco. Em luz disso, A União Europeia se mobiliza: países como França e Itália buscam passagem para seus navios por meios diplomáticos com o Irã, com um navio francês atravessando Ormuz no aniversário de um mês da guerra, no último dia 28.
Além disso, com o Reino Unido como anfitrião, uma conferência por vídeo juntou representantes de 40 países pelo mundo todo, com exceção dos EUA, que não foram chamados, para discutir possíveis maneiras de coerção política e econômica no Irã a fim de reabrir o estreito.
“O Irã está tentando manter a economia global como refém”, disse Yvette Cooper, ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, em um comunicado. Os participantes da teleconferência britânica, acrescentou ela, pediram “a reabertura imediata e incondicional do estreito”. Líderes militares já cogitam operações de escolta militar pelo estreito, mesmo sem um cessar-fogo em vigor. Líderes europeus, por sua vez, já alegam que nenhuma missão desse tipo não é factível até que a luta tenha acabado, apura a The Economist, com diplomatas alegando que existem intensos desacordos sobre os pormenores de qualquer operação de escolta.
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