Como a guerra no Irã ameaça bilhões em exportações brasileiras de carne
A escalada da guerra no Irã já começa a gerar efeitos no comércio internacional de alimentos e pode atingir diretamente as exportações brasileiras de carne bovina para o Oriente Médio. Segundo relatório da DATAGRO, consultoria agrícola, cerca de 7% dos embarques da proteína podem ser afetados pela instabilidade na região.
Na manhã de sábado, 28, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em uma operação militar conjunta. Os bombardeios coordenados mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, e desencadeou um conflito com potencial de envolver grande parte do Oriente Médio.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na segunda-feira, 2, que a ofensiva pode durar até cinco semanas.
Em 2025, o Brasil embarcou cerca de 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura, sendo 210,6 mil toneladas destinadas ao Oriente Médio, o equivalente a 6,8% do total exportado.
Com a intensificação do conflito, os primeiros impactos aparecem na logística marítima global. Navios passaram a evitar o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio internacional e essencial para o escoamento de commodities.
Ormuz — por onde grandes volumes de petróleo, gás e fertilizantes— está “efetivamente fechado” e sob ameaça do Irã. Ao mesmo tempo, diversas companhias também interromperam o tráfego pelo corredor formado pelo Mar Vermelho, Bab el-Mandeb e Canal de Suez.
Segundo cálculos da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), considerando cargas que passam por hubs logísticos regionais antes de chegar ao destino final, entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões em exportações brasileiras podem ser impactados.
No ano passado, as exportações diretas de carne bovina para o Oriente Médio somaram cerca de US$ 2 bilhões, de acordo com a entidade.
“Os desafios impostos pelo conflito afetam praticamente todos os países da região, com destaque para os Emirados Árabes Unidos, cujo acesso ocorre através do Estreito de Ormuz”, diz a DATAGRO.
O Brasil é hoje o maior produtor e exportador mundial de carne bovina halal, produto que segue regras específicas para consumo em países de maioria muçulmana. Empresas brasileiras como a JBS e a MBRF anunciaram investimentos maçicos na região nos últimos anos, considerada estratégica para as companhias.
Hoje, os alimentos halal formam um dos segmentos de maior crescimento no setor alimentício mundial.
O mercado já movimenta mais de US$ 2 trilhões por ano, tendo a proteína animal como principal produto. Segundo estimativas da Nielsen, o consumo de carnes halal deve ultrapassar US$ 1,5 trilhão até 2027. Atualmente, mais de 1,9 bilhão de pessoas seguem a dieta tradicional islâmica em todo o mundo.
No Oriente Médio, os principais destinos da carne brasileira são a Arábia Saudita, responsável por 29,8% das importações regionais, seguida pelos Emirados Árabes Unidos, com 22,3%, Israel, com 17,2%, e Líbano, com 10,2%.
Além da dependência logística da região, empresas também enfrentam aumento expressivo nos custos de transporte.
Armadores que operam na rota já começaram a aplicar uma taxa adicional de guerra de até US$ 4.000 por contêiner, elevando o custo das cargas destinadas ou que passam pela região.
Setor logístico
Segundo a Abiec, a escalada da tensão militar já provocou interrupções no fluxo logístico. Companhias marítimas suspenderam novas reservas de contêineres para cargas destinadas ou com trânsito pelo Golfo Pérsico, interrompendo temporariamente parte das operações comerciais.
Além disso, há cargas de carne bovina brasileira já em trânsito aguardando autorização ou definição para atracar em portos da região, diante da instabilidade nas rotas marítimas.
Frigoríficos brasileiros também relatam efeitos diretos no planejamento de produção. De acordo com a entidade, entre 30% e 40% das exportações de algumas empresas podem ser afetadas, dependendo do grau de exposição ao Oriente Médio e da dependência logística da rota do Golfo.
Com dificuldades para embarcar os produtos, algumas empresas avaliam reduzir ou suspender temporariamente a produção de cortes específicos destinados ao mercado halal, enquanto aguardam maior previsibilidade no transporte marítimo.
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