Como a MBRF se antecipou à guerra e blindou suas operações no Oriente Médio

Por César H. S. Rezende 20 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a MBRF se antecipou à guerra e blindou suas operações no Oriente Médio

A MBRF, dona da Sadia e Perdigão, se antecipou à guerra no Oriente Médio — ao menos do ponto de vista logístico, segundo o CEO Miguel Gularte. E foi essa uma das estratégias que garantiu que a empresa não fosse atingidida pelo conflito.

Meses antes da escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos, a companhia já havia deslocado estoques para a região, em um movimento pensado inicialmente para mitigar riscos sanitários, em razão da gripe aviária em 2025, mas que acabou funcionando como um escudo em meio ao conflito. Quando a guerra avançou, os produtos já estavam lá.

A antecipação fez diferença. Em um cenário em que cadeias globais sofrem com interrupções, a operação da MBRF manteve-se rodando sem sobressaltos em uma região que responde por cerca de 7% da receita global.

“O caso da guerra entre Estados Unidos e Irã encontrou a MBRF com seus estoques posicionados. Nós não temos nenhum problema de logística no momento”, disse Gularte.

O Oriente Médio é uma região estratégica para a companhia. A MBRF tem hoje três unidades de carne de frango na região: uma em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e duas na Arábia Saudita, nas cidades de Dammam e Al Jubail.

Tem ainda 11 centros de distribuição, que recebem e armazenam carne bovina importada para abastecer a região, além de dois escritórios comerciais. Ao todo, são cerca de 2 mil colaboradores.

Em abril de 2025, antes da fusão com a Marfrig, a BRF Arabia Holding Company — em parceria com a Halal Products Development Company (HPDC) — anunciou a construção de uma fábrica de processados de frango em Jeddah, na Arábia Saudita, com investimento de US$ 160 milhões.

Em outubro, já como MBRF, a companhia e a HPDC anunciaram a criação da Sadia Halal, unidade que reunirá fábricas da MBRF, suas empresas de distribuição no Catar, Kuwait e Omã e o negócio de exportações de aves, bovinos e processados a clientes na região.

A investida na região tem motivação econômica. Hoje, os alimentos halal — permitidos para consumo segundo as leis islâmicas, segundo os preceitos do Alcorão e da sharia — formam um dos segmentos de maior crescimento no setor alimentício mundial.

O mercado já movimenta mais de US$ 2 trilhões por ano, tendo a proteína animal como principal produto. Segundo estimativas da Nielsen, o consumo de carnes halal deve ultrapassar US$ 1,5 trilhão até 2027. Atualmente, mais de 1,9 bilhão de pessoas seguem a dieta islâmica em todo o mundo.

A leitura da companhia é que o estoque estratégico, nesse caso, deixou de ser custo para virar proteção.

Com produtos já distribuídos na região, a dependência de embarques — justamente o elo mais vulnerável em momentos de crise — foi reduzida. Na prática, a empresa comprou tempo em um cenário de incerteza.

O contexto ajuda a dimensionar o acerto. Em 2025, a MBRF registrou receita líquida de R$ 163,9 bilhões, alta de 12%, com crescimento em todos os segmentos. Mesmo com pressões de custo e queda no lucro, a execução operacional seguiu consistente.

O Oriente Médio

Se o estoque garantiu o curto prazo, a familiaridade com a região sustentou a operação no dia a dia. “Desde a década de 70, a gente sempre transitou por todo esse território praticamente em casa”, disse Gularte.

Essa presença histórica se traduz em domínio logístico — dos portos às rotas terrestres — e ajuda a explicar por que a companhia conseguiu se adaptar rapidamente. Hoje, a região também é estratégica para o crescimento da operação.

Nos países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), a MBRF atingiu recorde em processados e ampliou sua fatia de mercado para 38,6% no ano passado. A região se consolidou como peça-chave da estratégia, tanto pelo crescimento quanto pela resiliência em momentos de estresse geopolítico.

Quando a guerra impôs restrições, a resposta foi pragmática: mudar o caminho. “A gente também tem encontrado rotas alternativas de abastecimento. Com alguns portos inviabilizados em operação, encontramos outros portos para operar”, afirmou Leonardo Dalorto, vice-presidente de supply e mercado internacional.

A engrenagem só funciona, porém, porque já estava montada. A companhia mantém relações próximas com operadores logísticos e conta com estrutura própria na região. “Temos contato com as principais companhias marítimas e nossa própria frota de distribuição”, disse Dalorto.

Até aqui, o resultado é claro: operação mantida, demanda firme e preços resilientes. “Nós não tivemos impacto relevante. Estamos conseguindo ter uma performance muito boa no que diz respeito a demanda e preço”, afirmou Gularte.

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