Como a mudança no clima impacta nossos reservatórios e por que eles são essenciais
O Sistema Cantareira, um dos maiores complexos de abastecimento de água do Brasil, ilustra como obras de infraestrutura podem ter múltiplas funções na gestão de recursos hídricos. Composto por seis reservatórios interligados, implantados entre as décadas de 1970 e 1980, o sistema abastece 9 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, além de atuar também no controle de cheias, protegendo cidades a jusante ao reduzir os picos de inundação.
Ambas as funções (abastecimento público e controle de cheias) podem se ver afetadas diante do cenário atual de mudanças climáticas. Nos últimos anos, com o objetivo de favorecer a infiltração de água, investiu-se em soluções baseadas na natureza, também conhecidas como “soluções verdes”, recorrendo ao reflorestamento e manejo de bacias. No entanto, diante da velocidade da mudança do clima, essas medidas não estruturais sozinhas já não são suficientes.
O aumento dos eventos extremos, máximos e mínimos, em frequência e intensidade, comprovado pela recorrência de crises hídricas, como a seca histórica de 2013–2014 e o cenário atual do mencionado sistema, reforça a necessidade de se avaliar a adequação das infraestruturas diante de um regime hidrológico imprevisível. O debate sobre vazões máximas também acende um alerta: estudos que consideram o cenário climático atual indicam que vazões extremas estimadas no passado podem sofrer variações expressivas em comparação aos períodos mais recentes, podendo chegar a valores até 260% superiores às médias históricas.
Revisitar os estudos hidrológicos se faz necessário para garantir a segurança estrutural e operacional desses ativos. O fortalecimento do marco regulatório brasileiro, consolidado pela Resolução ANA nº 236/2017, estabelece diretrizes para a avaliação sistemática das estruturas hidráulicas, e experiências recentes, como as cheias observadas no Sul do Brasil, reforçam essa necessidade.
Recomendações técnicas sugerem elevar de 15 à 20% os fatores de projeto, a depender da magnitude da cheia considerada originalmente no dimensionamento. É o caso da Barragem Paiva Castro, parte do Sistema Cantareira, onde 22 mil pessoas vivem em Zona de Auto Salvamento (ZAS), que é a área abaixo da barragem onde o tempo para intervenção da defesa civil seria insuficiente em caso de rompimento, exigindo que a população evacue por conta própria. Isto torna a precisão operacional uma questão de segurança pública.
A adaptação às mudanças climáticas exige soluções híbridas e complementares, além de atualização técnica constante e governança hídrica. Só assim será possível assegurar a continuidade no abastecimento d’água em períodos de escassez e a segurança da população em caso de enchente.
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