Como a nova liderança no Irã pode prejudicar negociações com os EUA

Por Matheus Gonçalves 21 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a nova liderança no Irã pode prejudicar negociações com os EUA

Após um cessar-fogo e negociações de paz terem trazido uma trégua de duas semanas ao conflito no Irã, no dia 8 de abril, a reabertura do Estreito de Ormuz vinha entre os desdobramentos de principal interesse do mundo.

O bloqueio da importante passagem marítima, pela qual cerca de 20% do petróleo mundial é transportado, sufoca a economia mundial e põe em risco cadeias de suprimento por todo o globo.

Todavia, incertezas sobre o status exato de Ormuz persistem.

Na última sexta, 17, o presidente americano, Donald Trump, informou a reabertura da passagem, em narrativa corroborada por Abbas Araghchi, ministro do Exterior iraniano.

Mesmo assim, não demorou muito para que surgissem narrativas opostas, com a Guarda Islâmica Revolucionária (IRGC), um braço armado separado do Exército tradicional e diretamente sob o regime dos aiatolás, condenando Araghchi por não ter esclarecido explicitamente uma série de condições para a passagem de embarcações por Ormuz.

No dia seguinte, um porta-voz das forças armadas iranianas deixou claro que o estreito permaneceria fechado.

Na confusão, diversas embarcações foram alvejadas ao tentarem atravessar o Estreito.

As narrativas conflitantes refletem diferenças e fragmentações na liderança iraniana, que, segundo apuração da revista britânica The Economist, vive intensas lutas pelo poder.

Na ausência de um líder supremo presente — com Mojtaba Khamenei escondido por sua segurança e ausente das conversas em Islamabad, capital do Paquistão, parecendo exercer pouca autoridade — o vácuo de poder fragiliza qualquer posição tomada pelo país e deixa incertas suas decisões.

Para o outro lado das conversas, delegações americanas não sabem ao certo com quem conversarão, nem quais cursos de ação os enviados iranianos patrocinam, nem seu nível exato de autoridade.

As conversas iniciais, nos dias 11 e 12 de abril, envolveram 80 representantes iranianos, dos quais cerca de 30 eram considerados tomadores de decisão.

Entre eles, estavam Majid Takht-Ravanchi, um diplomata experiente que ajudou a refinar um acordo nuclear com o governo Obama em 2015, e Mahmoud Nabavian, que ridiculariza os Estados Unidos como "um cão amarelo agressivo" e debocha ao dizer que qualquer acordo seria uma capitulação— em comparação, os EUA enviaram apenas três negociadores de alto nível.

Fragmentação

A autoridade de Mojtaba Khamenei, filho do antigo aiatolá Ali Khamenei, parece não ser suficiente para unificar a administração em um único curso de ação.

Além disso, ondas de bombardeios e ataques americanos e israelenses mataram muitos iranianos que poderiam ser mais leais à causa dos aiatolás de resistência e de guerra estendida.

Desde o cessar-fogo, o comando descentralizado do Irã — uma de suas vantagens durante a guerra — parece ter perdido a coesão, com diferentes políticos relutantes em entregar sua nova autoridade e defendendo o que julgam ser melhor para o país, o que não só gera uma miríade de opiniões e narrativas diferentes, mas também torna difícil a reunificação da autoridade sob um único líder, apura a The Economist.

Por sua parte, a influência de Khamenei sobre as IRGC, cujo apoio o ajudou a subir ao poder, parece consolidar, entre as forças armadas, um desejo de continuidade do conflito, publicamente se opondo a acordos em relação a Ormuz, o trunfo iraniano que lhes permite travar uma guerra contra dois adversários mais fortes.

A disposição para negociar, demonstrada por certos oficiais do governo, como Araghchi, provocou uma reação negativa da IRGC, uma força armada de 190 mil homens com considerável influência política.

Para observadores externos, essa divisão tem sido evidente nas declarações contraditórias sobre o estatuto do Estreito de Ormuz nos últimos dias.

Analistas acreditam que essa postura linha-dura, que contradiz esforços diplomáticos, seja uma maneira de buscar concessões adicionais dos americanos em tópicos importantes, como o programa nuclear iraniano e as sanções americanas sobre seu petróleo.

Um Irã internamente fragmentado nesse nível terá dificuldades para encontrar objetivos em comum, apura a revista.

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