Como a Roche uniu C-level e base para consolidar a licença parental de 6 meses

Por Raphaela Seixas 5 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a Roche uniu C-level e base para consolidar a licença parental de 6 meses

No debate corporativo sobre a disparidade de crescimento profissional entre homens e mulheres, a maternidade é muitas vezes apontada como um dos principais gargalos para a ascensão feminina ao topo das pirâmides organizacionais.

Enquanto parte do mercado tradicional insiste em enxergar o cuidado com os filhos como uma responsabilidade essencialmente materna, a Roche Farma Brasil decidiu quebrar essa estrutura.

A companhia acaba de consolidar sua política de licença parental estendida de até seis meses (180 dias) universal para todos os colaboradores. A medida não é encarada apenas como um pacote de benefícios atraente, mas sim como uma estratégia de negócios indispensável para reter talentos, desenvolver lideranças diversas e garantir competitividade de mercado.

"Sem uma licença parental universal, estaríamos operando sob modelos de contrato desiguais", afirma Lorice Scalise, presidente da Roche Farma Brasil.

"Quando transformamos o cuidado dos filhos em um tema compartilhado, unimos cultura e negócio para reduzir estruturalmente a desigualdade de gênero no mercado de trabalho."

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Da Argentina ao voluntariado do Men@Work: A engenharia da política

A implementação da licença de seis meses no Brasil não nasceu no vácuo. Lorice Scalise já havia liderado essa mesma transição com sucesso anos atrás, enquanto presidia a filial da Roche na Argentina — uma bagagem que forneceu aprendizados valiosos sobre como navegar por resistências culturais.

Ao assumir a operação brasileira, a CEO encontrou o terreno fértil preparado pelo Men@Work, uma rede de afinidade formada voluntariamente por colaboradores homens para debater masculinidades saudáveis e o papel do pai no ecossistema familiar.

A partir dessa escuta ativa, a área de Pessoas e Cultura desenhou a engenharia da política, respaldada pela segurança jurídica da empresa e pelo patrocínio direto da diretoria executiva.

O lado do colaborador: o fim do medo de "sumir" do mercado

Se no topo da companhia a medida faz sentido financeiro e cultural, na base operacional ela desarmou um dos maiores receios do trabalhador moderno: o impacto do afastamento prolongado na trajetória profissional.

Ao receber a notícia de que teria direito aos seis meses de licença a tempo para o nascimento de sua filha, o colaborador Caue Ramos experimentou um misto de alívio e privilégio, mas admite que o receio inicial sobre perder oportunidades de promoção cruzou seus pensamentos.

"Tive medo do impacto na carreira, mas a reação da liderança e dos colegas mudou tudo. Não houve coação, apenas entusiasmo e empatia. Essa experiência me gerou uma empatia profunda pelas mulheres, que enfrentam esse medo e esses desafios históricos há muito tempo."

Para Ramos, o período integral de afastamento profissional permitiu estabelecer uma conexão real e sem divisões de foco com a recém-nascida nos seus primeiros momentos de vida. Embora a amamentação seja um papel biológico da mãe, a presença do pai garantiu um suporte em todas as outras dinâmicas domésticas, equilibrando a balança do lar.

"A empresa consegue se planejar para a ausência. Ao retornar, sinto que o profissional volta ainda mais maduro devido às vivências pessoais", relata o colaborador.

Liderança pelo exemplo e combate aos vieses

Para mitigar qualquer distorção ou preconceito inconsciente — principalmente em filiais regionalmente mais conservadoras —, a Roche aposta na liderança pelo exemplo. A orientação da farmacêutica é normalizar o uso do direito em todos os escalões hierárquicos, incluindo o C-level e a média gerência.

Os gestores passam por treinamentos para planejar coberturas de escopo e readequação de metas sem penalizar quem se afasta.

"Usufruir desse direito é um sinal de maturidade cultural", reforça a presidente Lorice Scalise. O acolhimento estende-se também ao momento do retorno, por meio de um plano estruturado de reintegração e devolução gradual de rotina para que o regresso seja sustentável.

A iniciativa faz parte de uma engrenagem maior de ESG e diversidade que inclui o programa JOIN (focado em igualdade de gênero) e benefícios complementares, como a concessão de trabalho remoto flexível durante as férias escolares de janeiro e julho. Com o compartilhamento do cuidado na primeira infância, a Roche espera mitigar a sobrecarga mental feminina e ditar um novo padrão de governança para o mercado corporativo brasileiro.

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