Como a Tailândia se tornou o país com a 'pior moeda' da Ásia em meio à Guerra

Por Caroline Oliveira 30 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a Tailândia se tornou o país com a 'pior moeda' da Ásia em meio à Guerra

A escalada do conflito no Oriente Médio e a disparada do petróleo internacional transformaram rapidamente a moeda da Tailândia em uma das mais pressionadas da Ásia em março. O baht, que já vinha em desvalorização antes da guerra, acumulou queda superior a 5% no mês — o pior desempenho entre os países asiáticos. Isso reflete a forte dependência do país de importações de energia e o impacto crescente do choque externo sobre sua economia. Especialistas alertam para um aumento do risco de fuga de capitais.

A desvalorização da moeda é um exemplo claro de como países emergentes importadores de petróleo estão entre os mais vulneráveis às tensões no cenário geopolítico, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O choque no preço do petróleo pode afetar as finanças e o crescimento do país, disse à Bloomberg Jeffrey Zhang, estrategista do Credit Agricole CIB, que prevê a moeda em 33 por dólar até o final do ano. "Continuamos vendo espaço para o USD/THB subir, embora provavelmente em um ritmo mais lento em comparação à março", disse Zhang.

Dependência de petróleo expõe fragilidade estrutural

A principal razão para a fraqueza do baht é estrutural: a Tailândia depende fortemente da importação de petróleo. Com a commodity acumulando alta superior a 40% apenas em março, o choque energético elevou custos externos, pressionou as contas públicas e deteriorou a percepção de risco do país.

Essa dependência deixa a moeda exposta a novas oscilações nos preços das commodities e a saídas de capital nos próximos meses.

Segundo estrategistas ouvidos pela Bloomberg, o impacto tende a continuar nos próximos meses, com projeções indicando possibilidade de nova depreciação da moeda até meados do ano caso os preços do petróleo permaneçam elevados. O Kasikornbank prevê uma desvalorização adicional de 2% em relação ao nível atual de 32,8 por dólar.

O cenário também amplia o risco de saída de capital estrangeiro, movimento já observado no mercado local. Apenas neste mês, investidores globais retiraram cerca de US$ 788 milhões do mercado de títulos tailandês — a maior venda em mais de um ano —, de acordo com dados da Associação do Mercado de Títulos da Tailândia. Enquanto isso, as ações do país registraram saídas de US$ 1,2 bilhão no mesmo período — o maior volume desde fevereiro de 2023 —, segundo informações da Bolsa de Valores da Tailândia.

“A percepção de que o governo não está lidando com a atual situação econômica de forma eficaz está aumentando as preocupações dos investidores”, disse Jitipol Puksamatanan, chefe de estratégia de investimentos da Finansia Syrus Securities, à Bloomberg.

Fim de subsídios amplia choque inflacionário

A pressão cambial ganhou força adicional após o governo reduzir subsídios ao combustível, medida adotada diante do avanço dos custos provocados pela alta do petróleo.

Com a decisão, os preços da gasolina subiram 22%, enquanto o diesel — essencial para transporte, agricultura e indústria do país — registrou alta de 18%.

O ajuste marcou um ponto de inflexão na política energética da Tailândia, que historicamente utilizava o Fundo de Petróleo e Combustíveis para suavizar oscilações externas através de subsídios nos preços internos. A escalada recente do petróleo, no entanto, ampliou o déficit do Fundo e forçou o governo a reduzir o apoio.

O impacto deve se espalhar pela economia ao elevar custos logísticos, pressionar preços de alimentos e reduzir o poder de compra das famílias.

Turismo também entra na linha de risco

Outro canal relevante de transmissão do choque externo é o turismo, um dos pilares da economia tailandesa.

A alta do combustível de aviação já começa a afetar a demanda internacional, de acordo com Kobsidthi Silpachai, chefe de pesquisa de mercado de capitais do Kasikornbank. Regiões turísticas do sul do país registraram cancelamento de cerca de 20% das reservas hoteleiras, enquanto um prolongamento do conflito pode levar a entrada de visitantes estrangeiros ao menor nível em três anos.

A deterioração desse setor amplia os temores para crescimento econômico e reforça a pressão sobre a moeda. Ainda assim, há sinais de que o baht pode se estabilizar se o sentimento de risco global melhorar, incluindo qualquer redução nas tensões geopolíticas.

Banco central tailandês monitora impacto sobre inflação

O Banco da Tailândia já sinalizou que a alta do petróleo e as possíveis interrupções na produção global podem acelerar o retorno da inflação à meta de 1% a 3% mais cedo do que o previsto, após quase um ano com o índice em território negativo.

Segundo o Kasikornbank, o período sazonal de pagamento de dividendos das empresas a investidores estrangeiros em abril e maio deve gerar uma saída estimada de 151 bilhões de bahts (US$ 4,6 bilhões), aumentando a demanda por dólares durante esses meses, o que mantém a pressão sobre a moeda local.

“Dadas as avaliações relativamente elevadas do baht, duvidamos que o Banco da Tailândia se oponha ativamente a novos ajustes além do gerenciamento da volatilidade cambial excessiva”, afirmou Audrey Ong, estrategista do Barclays Bank, à Bloomberg.

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