Como a 'terceira via' da IA tenta quebrar o duopólio de EUA e China

Por Luiz Gustavo Pacete 22 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a 'terceira via' da IA tenta quebrar o duopólio de EUA e China

A presença do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, no complexo de exposições Paris Expo Porte de Versailles, na última semana, na capital francesa, deixou clara a importância para a Europa de um gigante oriental. Modi foi recebido pelo presidente francês Emmanuel Macron no VivaTech, um dos maiores festivais de tecnologia e inovação da Europa que, nesta edição, marcou a discussão da "terceira via da IA” e contou a presença de nomes como Jeff Bezos, da Amazon e Blue Origin.

O conceito posiciona o uso ético da inteligência artificial, a regulação e a sustentabilidade não como barreiras ao crescimento, mas como vantagens competitivas para o ambiente corporativo e a proteção da sociedade. A discussão ocorre em um momento crucial, onde Estados Unidos e China optam por uma corrida puramente focada no domínio comercial e em investimentos trilionários na tecnologia. Além de ser a parceira de IA do evento neste ano, a Índia participou ativamente dos debates sobre o AI Act, a legislação europeia pioneira que estabelece obrigações severas baseadas em níveis de risco.

Essa busca por visões divergentes e alternativas em relação ao mainstream é a própria marca registrada do VivaTech, evento criado há dez anos pelo Grupo Publicis e pelo jornal financeiro Les Echos (agora do Grupo LVMH). “É um espaço que mistura empresas, governos e sociedade civil, e isso transforma tanto os painéis quanto a feira em um grande ponto de troca, onde surgem ideias e soluções para temas que impactam todo mundo", explica Gabriela Onofre, presidente do Publicis Groupe Brasil.

O Brasil e a discussão regulatória

A executiva reforça a importância desse movimento para o mercado nacional. “Como brasileira líder de um grupo francês, vejo essa movimentação como muito positiva, até porque o Brasil costuma se inspirar na regulação europeia e no seu olhar mais responsável. Não por acaso, a Europa saiu na frente com o AI Act. Nosso país pode sim se aproximar desse modelo, mas precisa construir seu próprio caminho, considerando suas particularidades", explica Gabriela, que liderou a comitiva de 20 lideranças de marketing, negócios e tecnologia no festival.

Andrea Janér, fundadora e CEO da Oxygen, empresa responsável pela curadoria dos temas acompanhados pelo grupo, explica que o VivaTech reflete uma visão muito particular da Europa sobre o avanço tecnológico, historicamente mais focado no equilíbrio de forças do que o modelo norte-americano.

“O avanço da IA não pode acontecer a qualquer preço. É preciso ponderar os impactos que sua utilização em escala terão sobre o uso de energia, sobre a eliminação dos empregos, sobre a amplificação da desinformação e sobre a essência do que é ser humano. Não é à toa que o primeiro corpo de regras para proteger dados nasceu aqui, e até hoje a Comissão Europeia mantém uma mão forte sobre esse mercado", explica Andrea.

Segundo ela, o evento tornou-se obrigatório para o Brasil diante da necessidade de líderes e empresas em descobrir novos ecossistemas de inovação. “Pela proximidade maior com o mercado americano, acabamos subestimando o potencial da Europa, que já provou sua capacidade de escala global ao originar gigantes de tecnologia como Spotify, Klarna e Lovable”, pondera a executiva.

As reflexões para o marketing

Sob a perspectiva de quem atua em uma corporação de matriz europeia, Ionah Kochen, CMO da Nestlé e integrante da delegação, reforça o papel social das marcas nessa nova era.

"Temos a responsabilidade de liderar a conversa sobre IA sob a ótica da responsabilidade, combinando inovação com regulação, ética e confiança. Ao mesmo tempo, ganhou força no evento a agenda de democratização da tecnologia, reforçada pelo discurso do primeiro-ministro da Índia ao mostrar o impacto de soluções que já alcançam centenas de milhões de pessoas no país asiático. No fim, a mensagem que fica para as lideranças de marketing e negócios é simples: a inteligência artificial só ganha relevância real quando consegue escalar com impacto social positivo e mensurável.'

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