Como esta rede carioca transformou o mate em um negócio de R$ 130 milhões
O mate é uma bebida que divide o Brasil. No Sul, vira chimarrão e tererê. Em São Paulo, é servido gelado nas lanchonetes. No Rio de Janeiro, virou símbolo da orla, vendido em ambulantes nas areias de Copacabana e Ipanema.
A erva-mate, no entanto, raramente é tratada como um ativo estratégico de negócio.
A Megamatte fez o caminho contrário. Fundada em 1994 no Rio de Janeiro pelo comerciante Antonio Carlos Monteiro, a rede transformou a bebida cultural em produto industrializado, padronizado e auditado. Hoje, a operação opera em oito estados, fatura 130 milhões de reais e tem o mate como um dos principais motores de crescimento.
Em 2025, a empresa produziu mais de 500 mil litros de mate orgânico, volume 10% superior ao do ano anterior. A bebida responde por 15,2% do faturamento total da rede, percentual que sobe para 16,1% durante o verão. Ao longo do ano, foram mais de 1 milhão de copos de 500 ml vendidos.
"O mate sempre fez parte da nossa história, mas passou a ser tratado de forma cada vez mais estratégica", afirma Julio Monteiro, sócio da Megamatte e filho do fundador. "Investimos em processo, padronização e leitura de consumo para transformar um símbolo cultural em um ativo sólido do negócio".
Para 2026, a rede planeja abrir 20 lojas e crescer 7% em faturamento, com foco de expansão no Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.
A meta é traçada em meio a um cenário que o próprio Monteiro classifica como desafiador, marcado por reforma tributária, Copa do Mundo e eleições presidenciais.
Qual é a história da Megamatte
A história da Megamatte começa em 1994, quando Antonio Carlos Monteiro, comerciante de uma geração que aprendeu o varejo no balcão, abriu uma casa de sucos no Rio de Janeiro.
A operação seguia a lógica do pequeno empresário da década de 1990, com gestão familiar, pouca tecnologia e baixo grau de profissionalização.
O primeiro teste no modelo de franquias veio em 2005. Dois anos depois, a empresa começou a operar oficialmente como franqueadora. Em 2013, Julio Monteiro assumiu a gestão da rede e iniciou um processo de profissionalização que incluiu auditorias, planos de meritocracia e padronização operacional.
"Meu pai foi um comerciante das antigas. Você tinha ali na década de 90 ainda um certo tipo de gestão muito caseira, com pouca tecnologia e poucas capacitações. A gente pega essa gestão em 2013 já com viés de transformar", diz Monteiro.
A virada rendeu reconhecimento.
Em 2017, a Megamatte foi eleita a melhor franqueadora do Brasil. No mesmo ano, a rede tornou-se a primeira varejista brasileira a assinar o Pacto Global da ONU, iniciativa que reúne empresas comprometidas com práticas sustentáveis.
O pioneirismo no mate orgânico
Em 2008, a Megamatte certificou seu mate como orgânico, um movimento que a tornou pioneira no segmento no Brasil. Na época, a Ecocert, certificadora internacional de produtos orgânicos, ainda estudava parâmetros para o nicho, e a rede contribuiu com os estudos.
"O mate é um cultivo diferenciado. Você precisa realmente da natureza, dos pássaros para germinar a semente. Existe todo um enredo bonito", afirma Monteiro.
A erva é cultivada sem agrotóxicos e segue dois modelos de preparo nas lojas. Um é mais artesanal, com infusão direta da erva, processo inspirado nas receitas tradicionais cariocas e que pode levar até quatro horas. O outro utiliza um concentrado orgânico padronizado, que reduz o tempo de preparo para cerca de cinco minutos.
A padronização sustenta o crescimento. Fichas técnicas, treinamentos contínuos e consultorias de campo fazem parte da rotina das lojas. As equipes realizam análises sensoriais e medições de temperatura e teor de açúcar para assegurar consistência em todas as unidades.
No comportamento de consumo, o mate puro lidera as vendas, seguido da versão com limão. As combinações com frutas, no entanto, vêm ganhando espaço, impulsionadas pela busca do consumidor por bebidas mais leves e funcionais.
A aposta da Megamatte para ampliar o consumo está no mate batido com fruta. O resultado é uma bebida com textura mais próxima de um smoothie, bebida cremosa à base de frutas batidas com gelo.
"Quando a gente bate o mate com a fruta, não estamos só adicionando sabor. Estamos criando uma nova experiência de consumo, mais consistente, funcional e alinhada ao que o consumidor busca hoje", diz Monteiro. A linha conta com sabores como morango, abacaxi, pêssego e maracujá, e a empresa afirma trabalhar em pesquisas para desenvolver novos sabores.
Quais são desafios para 2026
O plano de abrir 20 lojas e crescer 7% em 2026 é traçado em um cenário que Monteiro avalia como adverso para o varejo.
O calendário com cerca de 10 feriados emendados, dependendo da região, reduz dias úteis de operação. A reforma tributária, segundo o empresário, gera insegurança para o pequeno empreendedor enquadrado no Simples Nacional, regime tributário simplificado para micro e pequenas empresas.
"Você tem uma reforma tributária muito confusa para o micro e pequeno empreendedor. Aí você vai para junho, tem uma Copa do Mundo que vai ter uma diferença de fuso de uma a duas horas do Brasil. Isso vai afetar muito o varejo", afirma Monteiro.
Em seguida, vêm as eleições presidenciais, período em que, segundo Monteiro, investidores tendem a adotar postura mais conservadora.
Mesmo nesse cenário, a rede mantém a meta de expansão. "A gente sempre viveu em cenários desafiadores. É importante que os líderes saibam organizar suas tarefas, compor um time que possa buscar resultados e prepará-los para esse momento de oscilação do mercado", diz Monteiro.
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