Como estão as tarifas de Trump contra o Brasil hoje?

Por Rafael Balago 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como estão as tarifas de Trump contra o Brasil hoje?

Desde o ano passado, o governo do presidente Donald Trump aplicou uma série de tarifas contra produtos brasileiros, que geraram prejuízo de ao menos US$ 1,5 bilhão para o Brasil. O tema deverá estar presente nas conversas entre Trump e o presidente Lula em Washington, nesta quinta-feira, 7, tanto para tentar reduzir as cobranças atuais como barrar a criação de novas taxas.

Neste momento, apesar dos recuos e isenções nas taxas, a maioria dos itens exportados pelo Brasil aos EUA ainda recebe cobranças extras.

Segundo cálculos da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), cerca de 45% das exportações brasileiras não têm sobretaxa. Cerca de 15% estão sujeitos às tarifas da Seção 232 (segurança nacional), como aço, alumínio, autopeças, cobre e alguns setores específicos. O restante tem sobretaxa de 10% com base na Seção 122, medida adotada por Trump após a Suprema Corte derrubar as taxas adotadas por meio da regra Ieepa. A medida, no entanto, tem duração apenas de alguns meses.

"As empresas tiveram um alívio importante com a redução das tarifas após a decisão da Suprema Corte e têm expectativa de retomar a intensidade das exportações para os Estados Unidos. Mas o cenário ainda não é definitivo, pois não se sabe o desfecho das novas medidas", disse Abrão Neto, CEO da Amcham, em conversa com a EXAME, em abril.

Risco de novas tarifas pela Seção 301

Neste momento, o Brasil está sob risco de ser alvo de novas tarifas. Em julho de 2025, o USTR, órgão americano que investiga práticas comerciais desleais, abriu uma investigação contra o Brasil, na qual questiona uma série de ações do país que seriam prejudiciais às empresas americanas.

As críticas envolvem uma série de itens, incluindo o Pix, a pirataria, exemplificada pela rua 25 de Março, o etanol e uma série de outros produtos.

No ano passado, foi realizada uma audiência pública para debater as práticas brasileiras. Na ocasião, representantes brasileiros defenderam a atuação do país, enquanto algumas entidades e empresas americanas questionaram as práticas adotadas.

A decisão final não tem data para ser publicada, mas a expectativa é que possa sair nas próximas semanas. O resultado poderá ser usado como argumento para impor novas tarifas e sanções ao Brasil, que poderão ter caráter mais permanente. A medida não entra no escopo da decisão da Suprema Corte, que derrubou as tarifas recíprocas de Trump em fevereiro.

"Poderão vir mais tarifas por este canal, dentro dos setores que estão sob investigação, além de ações responsivas, que podem levar até a sanções financeiras", diz Bruna Santos, diretora do programa de Brasil no think tank Inter-American Dialogue, sediado em Washington.

Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil, diz que há risco de novas tarifas. "Sim, esse risco está posto em função do processo em curso nos Estados Unidos. É um cenário em que a gente trabalha e atua para evitar", afirmou à EXAME.

"É um processo conduzido pela própria autoridade americana. Há imprevisibilidade quanto à política tarifária. Isso faz com que o potencial do comércio [entre os dois países] tenha dificuldade de se materializar", diz a secretária.

Déficit parecido, arrecadação maior

Trump disse esperar que as tarifas tivessem dois efeitos principais: aumentar a arrecadação federal e reduzir o déficit comercial dos EUA, que ele vê como uma ameaça ao país.

Em um ano, o déficit comercial dos EUA teve uma queda mínima, de 0,2%, ou US$ 2 bilhões, em 2025, e ficou em US$ 901,5 bilhões no ano. Em 2024, o valor havia sido de US$ 903,5 bilhões negativos, segundo o governo americano.

Com o Brasil, os EUA tiveram um superávit na venda de mercadorias ao Brasil de US$ 14,4 bilhões em 2025, uma alta de 112,8% em relação a 2024, segundo dados do governo americano. As exportações em 2025 somaram US$ 54,4 bilhões (alta de 10,7%), e as importações de itens brasileiros somaram US$ 39,9 bilhões (queda de 5,7% em um ano). O Brasil é o 11º maior parceiro comercial os EUA.

Com a adoção das tarifas, a arrecadação mensal com as taxas internacionais subiu de US$ 7,3 bilhões mensais, em janeiro de 2025, para US$ 27,6 em janeiro deste ano, um valor quase três vezes maior, segundo dados da Tax Foundation.

A entidade, no entanto, avalia que a maior parte das taxas acaba sendo repassada aos consumidores americanos, o que geraria um aumento médio de US$ 600 no pagamento de impostos por residência em 2026.

Relembre as fases do tarifaço

O tarifaço global teve início em abril de 2025. Naquele mês, Trump anunciou uma nova tarifa geral, válida para todos os países, de no mínimo 10%. Países e blocos com quem os EUA tinham déficits comerciais tiveram taxas mais elevadas. No entanto, várias delas foram reduzidas nas semanas e meses seguintes, por meio de acordos ou isenções dadas pela Casa Branca.

Em julho, no entanto, Trump impôs uma tarifa de 50% aos produtos brasileiros, o que gerou prejuízos e incertezas.

A tarifa foi adotada com o objetivo de pressionar o Brasil a cancelar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.

A taxa, de 50%, foi aplicada inicialmente a todos os itens, mas logo foram surgindo exceções, que deixaram de fora itens importantes, como aeronaves e suas peças.

Entre julho e setembro, houve semanas difíceis, em que o governo brasileiro encontrou portas fechadas ao procurar autoridades americanas, e a situação parecia sem solução.

O impasse foi desfeito a partir de setembro. Após uma série de conversas de bastidores, envolvendo tanto autoridades quanto empresários e entidades setoriais, o presidente Trump se reuniu com o presidente Lula nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU.

Depois disso, vieram outras conversas entre os dois presidentes e uma série de alívios ao tarifaço, como a retirada de mais produtos da lista e uma sinalização de normalização das relações.

Em meio às idas e vindas das taxas, houve redução de exportações do Brasil para os EUA de US$ 1,5 bilhão em produtos, entre agosto e novembro de 2025, segundo estudo da Amcham. Ao mesmo tempo, em 15 de 21 setores analisados, as empresas não conseguiram redirecionar os produtos que iam para os EUA rumo a outros mercados. Esses setores somaram perdas de US$ 1,2 bilhão, com destaque para mel, pescados, plástico, borracha, madeira, metais e material de transporte.

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