Como fica o preço das passagem aérea com a forte queda do petróleo?

Por Rebecca Crepaldi 8 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como fica o preço das passagem aérea com a forte queda do petróleo?

O cessar-fogo de duas semanas entre Irã e Estados Unidos animou os mercados. Como reflexo imediato, o petróleo Brent chegou a cair quase 16%, a maior queda diária em seis anos, na manhã desta quarta-feira, 8. Essa queda puxou o dólar para baixo e as bolsas para cima ao redor do mundo. Aqui no Brasil, o governo adotou uma série de medidas para que a variação do preço da matéria-prima não afetasse tanto o bolso do consumidor. Mas alguns efeitos já vinham sendo sentidos e um dos mais evidentes foi o encarecimento das passagens aéreas.

De acordo com o JP Morgan, os bilhetes registraram alta de 22% em março na comparação anual e de 31% em relação a fevereiro, impulsionadas pela escalada do conflito no Oriente Médio. Os analistas do banco apontam que as companhias aéreas adotaram essa elevação como uma medida preventiva, antecipando o impacto do aumento do preço do querosene de aviação.

A Petrobras anunciou, na semana passada, o aumento de 54,6% no preço do QAV. Considerando o aumento de 9,4% em vigor desde 1º de março, a alta acumulada desde o início da guerra, em fevereiro, é de 64% no preço do combustível. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), com as altas recentes, o combustível passou a responder por 45% dos custos operacionais das companhias aéreas.

“A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo”, disse a entidade em nota.

Estimativas do Grupo Abra, holding que controla a Gol e a Avianca, apontavam que a cada elevação de US$ 1 por galão no preço do QAV, as passagens poderiam subir cerca de 10%.

Mas e agora com o petróleo em queda?

A disparada do petróleo foi repassada diretamente ao combustível de aviação. Mas quando os preços caem, como no pregão de hoje, o ajuste ocorre na mesma velocidade?

“A resolução do conflito e a possível abertura do Estreito de Ormuz poderiam estabilizar a navegação, mas não garantem uma queda imediata nos preços dos combustíveis e das passagens. A atual incerteza torna difícil prever como a situação evoluirá, tanto em termos de conflitos na região quanto em políticas econômicas no Brasil, o que requer vigilância e adaptação constante”, diz Bruno Corano, economista da Corano Capital

Apesar da queda recente de cerca de 16% poder reduzir custos, qualquer instabilidade no cenário internacional pode reverter rapidamente esses efeitos.

“Como o querosene de aviação é derivado direto do petróleo, essa queda tende a pressionar os custos para baixo ao longo da cadeia, mas fique atento: um discurso, um gesto, uma frase mal interpretada pode jogar essa trégua por agua abaixo e os preços aumentarem novamente”, complementa explica Paula Sauer, economista e planejadora financeira.

A economista ainda diz que, após um aumento expressivo de custos de produção, as empresas tendem segurar parte da queda dos preços que deveria ser repassada ao consumidor com o objetivo de recuperar as perdas relacionadas aos custos e a volatililidade.

Na prática, o repasse não costuma ser simétrico, explica Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar.

Quando sobem, as companhias tendem a repassar mais rapidamente para as passagens. Quando caem, o movimento é mais lento. “Por isso, é mais provável que a queda de custos leve a uma desaceleração no aumento das passagens do que a uma redução imediata nos preços. Em outras palavras, as passagens tendem a subir menos, e não necessariamente cair no curto prazo.”

No Brasil, o preço do querosene de aviação segue a política de Paridade de Preço de Importação (PPI). Isso significa que, mesmo com cerca de 90% do combustível produzido internamente, a Petrobras define os preços com base na cotação internacional do petróleo e na variação do dólar, somando custos hipotéticos de transporte como se o produto fosse importado.

Como o preço do querosene é atrelado ao mercado internacional, qualquer choque externo — como conflitos no Oriente Médio ou variação do Brent — se reflete quase imediatamente nos custos das companhias aéreas.

Vale a pena comprar passagens agora?

Sauer comenta que, se a viagem é no curto prazo e não há flexibilidade das datas, a compra é recomendada. Em sua análise, o cenário está muito incerto e o preço do barril de petróleo bastante sensível aos movimentos internacionais associados ao conflito e internamente, dependentes da implementação das medidas recentes impostas pelo governo.

“Compre agora, pois os preços provavelmente já incorporaram as altas recentes, e não há garantia quanto ao risco de novas pressões nos custos”, enfatiza.

Castro concorda: o momento ainda é de volatilidade, tanto por questões geopolíticas quanto por variações no petróleo e no câmbio. Parte dos aumentos recentes já foi repassada para os preços das passagens, mas as eventuais quedas ainda não aparecem com a mesma velocidade.

“Por isso, esperar uma queda generalizada pode não ser a melhor estratégia. O mais racional é aproveitar boas oportunidades quando elas aparecem, porque as promoções já refletem as expectativas do mercado. Tentar acertar o ‘melhor momento’ pode significar correr o risco de pagar mais caro depois.”

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