Como funciona a estratégia que usa Aedes aegypti contra a própria dengue
O Brasil tenta ampliar o uso de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia para combater a dengue, mas a expansão da estratégia ainda enfrenta desafios técnicos, logísticos e financeiros. Apesar de estudos apontarem redução significativa de casos em cidades brasileiras, especialistas afirmam que a implementação em larga escala avança lentamente.
O método consiste em liberar mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, capaz de bloquear o desenvolvimento de vírus como dengue, zika e chikungunya dentro do inseto. A iniciativa foi desenvolvida pela Fiocruz em parceria com o World Mosquito Program.
Em entrevista à AFP, o entomologista Luciano Moreira, um dos responsáveis pelo projeto, explicou que os chamados “wolbitos” substituem gradualmente os mosquitos transmissores tradicionais ao longo das gerações.
Técnica mostrou redução significativa
Os testes com a Wolbachia começaram no Brasil em 2011 e atualmente a estratégia alcança cerca de 6 milhões de pessoas, segundo estimativas dos pesquisadores divulgadas pela Folha de S. Paulo.
Em cidades onde estudos científicos acompanharam os resultados, a redução nos casos chamou atenção. Em Niterói, houve queda de 89% nos registros de dengue. Já em Campo Grande, a redução chegou a 63%.
A produção dos mosquitos acontece em biofábricas especializadas. Os ovos infectados com Wolbachia são enviados para municípios parceiros, onde os insetos são criados e posteriormente liberados em áreas urbanas.
A maior biofábrica da iniciativa funciona em Curitiba e foi inaugurada em 2025.
Expansão nacional ainda enfrenta entraves
Apesar dos resultados positivos, especialistas afirmam que ampliar a cobertura da estratégia em todo o país continua sendo um desafio. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pontuou à AFP que o avanço do método enfrenta dificuldades técnicas, operacionais, financeiras e logísticas.
Moreira explicou que a produção da biofábrica precisou ser reduzida em determinados períodos porque a demanda do Ministério da Saúde ficou abaixo da capacidade disponível.
A epidemiologista Ludimila Raupp, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, por sua vez, avaliou que a expansão da estratégia é urgente, mas depende de maior coordenação entre autoridades sanitárias.
Violência urbana e mudanças climáticas dificultam estratégia
Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, fatores externos também dificultam a implementação da técnica em algumas regiões. No Rio de Janeiro, o uso intensivo de larvicidas em determinadas áreas prejudicou parte dos mosquitos infectados com Wolbachia liberados pelas equipes de saúde.
A violência em comunidades dominadas pelo crime organizado também foi apontada como obstáculo para a circulação de agentes e aplicação da estratégia em algumas favelas.
Além disso, Luciano Moreira alertou que as mudanças climáticas vêm ampliando a presença da dengue em regiões antes consideradas frias demais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti.
Método funciona como complemento à vacinação
Segundo Luciano Moreira, os efeitos da estratégia costumam aparecer cerca de dois anos após o início das liberações dos mosquitos. O pesquisador afirma que o método não deve ser tratado como solução única contra a dengue, mas como ferramenta complementar a ações como vacinação, eliminação de focos do mosquito e monitoramento sanitário.
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