Como oposição usou Agrishow e ausência de Lula para atrair o agro

Por César H. S. Rezende 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como oposição usou Agrishow e ausência de Lula para atrair o agro

RIBEIRÃO PRETO (SP) — Entre máquinas agrícolas a preços milionários e um calor de 35ºC no interior de São Paulo, visitantes gritaram “Presidente Flávio” para o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, na 31ª edição da Agrishow, a maior feira de máquinas da América Latina.

Em um ano marcado pelo calendário eleitoral, não poderia ser diferente. Além dos juros altos e da guerra no Irã, as eleições de 2026 no Brasil, marcadas para outubro deste ano, se fizeram presentes na Agrishow, o que levou a oposição a galgar ainda mais espaço dentro do agronegócio, um dos setores mais delicados para a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O movimento da oposição faz sentido. Parte significativa do agro critica a gestão de Lula no setor. As reclamações variam do Plano Safra ao seguro rural, pauta que não avançou no Ministério da Agricultura e Pecuária, que tinha, até o começo deste mês, Carlos Fávaro (PSD) à frente da pasta. Foi nessas lacunas que a oposição se apoiou.

Pedro Lupion (Republicanos), deputado e presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), bancada do agro no Congresso composta por mais de 300 parlamentares entre deputados e senadores, afirmou que o agronegócio era respeitado durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“O produtor tinha previsibilidade. Ele sabia o que ia acontecer e sabia que tinha um governo que estendia a mão ao produtor rural”, disse na segunda-feira, 27, sendo ovacionado pelos presentes.

Chamando Flávio de “presidente”, Lupion relembrou as visitas do ex-presidente à feira e saudou o senador. “Vejo com alegria enorme Flávio Bolsonaro aqui, presságio de futuro auspicioso no nosso país. Conte com nosso apoio, nosso trabalho e dedicação”, afirmou o presidente da FPA.

Durante os quatro anos do governo Lula, a FPA e a gestão petista sempre tiveram dificuldades de se entender. Segundo uma fonte ouvida pela EXAME, “o governo nunca entendeu o que é o agro de verdade”.

Desde que voltou ao comando do Executivo, Lula não participou de nenhuma edição da Agrishow e a relação do atual presidente com a organização do evento não é das melhores.

Em 2023, por exemplo, o então ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que representaria Lula na feira, afirmou ter sido desconvidado a participar da abertura da Agrishow, supostamente porque Jair Bolsonaro estaria presente no mesmo local. O impasse irritou parte do governo à época e chegou-se a falar em corte de patrocínios estatais, o que não chegou a se concretizar.

No ano seguinte, o governo federal enviou ao evento Fávaro e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Em 2024, o governo anunciou na feira a ampliação de crédito ao setor via BNDES.

No ano passado, Fávaro não foi à abertura do evento e Alckmin representou novamente o governo Lula. Na ocasião, o presidente Lula havia viajado para o funeral do papa Francisco, em Roma. Posteriormente, os então ministros do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, e da Pesca, André de Paula (PSD), foram à Agrishow.

Na edição deste ano, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o atual ministro da Agricultura, André de Paula, foram ao evento na abertura oficial no domingo. No dia, inclusive, anunciaram um pacote de R$ 10 bilhões para o setor de máquinas, o que também foi alvo de críticas pelo senador Flávio Bolsonaro.

Zema e Caiado na Agrishow

Em seu primeiro evento público como pré-candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro usou a Agrishow para reforçar sua candidatura e criticar a gestão do atual governo para o agro. Em pouco mais de 10 minutos, vestindo uma camiseta com os dizeres 'orgulho do nosso agro', o senador disse que o governo Lula da Silva “não resolve o problema real das pessoas”.

“O agro é solução para o nosso Brasil e infelizmente é tratado como lixo pelo atual governo”, afirmou. O senador aproveitou para criticar o pacote de R$ 10 bilhões anunciado no domingo por Alckmin. “É um setor que está altamente endividado. Só R$ 10 bilhões não dá para os produtores que precisam de crédito para lidar com o fluxo de caixa”, disse.

Assim como Flávio, Zema também criticou o governo do presidente Lula. Segundo o mineiro, o que o Brasil tem hoje é um presidente “perdulário”.

“Quando atacar a gastança, os juros (Selic) caem, como foi em 2016 e 2017. É isso, dá um alívio para quem tem dívida e quer investir. O que temos hoje é um presidente perdulário”, afirmou.

Sem mencionar nomes, o pré-candidato à presidente Ronaldo Caiado (PSD) criticou nesta quarta-feira, 29, os políticos que, por conveniência, se dizem alinhados com o agronegócio em época de eleição.

O ex-governador também criticou os políticos que se utilizam do prestígio nas redes sociais para se eleger, mas que, segundo ele, não têm competência para governar.

Nesse contexto, ele mencionou que Lula voltou ao poder por problemas na gestão depois de 2018, quando o Brasil estava sob o comando de Jair Bolsonaro.

"Você não aprende a governar na cadeira da Presidência da República. Você tem que ter mais responsabilidade com isso. Então, este é o momento. Por que nós perdemos as eleições em 2022? Porque não tiveram as entregas. Então, você já aprovou esses dois modelos. Você quer repetí-los?".

Agro e Lula

Dentro do governo, no entanto, a leitura é de que a gestão de Lula fez movimentos importantes para o agro. Em entrevista à EXAME, no início de abril, o então ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, destacou a realização de planos safra recordes, que somaram R$ 1,5 trilhão, além da retomada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) voltado à agricultura.

Outro ponto ressaltado foi a abertura de 555 novos mercados internacionais para produtos agropecuários brasileiros. Segundo ele, as críticas fazem parte do processo democrático.

“A crítica é natural. Quem está na vida pública tem de estar preparado para sofrer críticas. Não olhei partido na hora de levar políticas públicas. Entregamos equipamentos, máquinas, recuperamos estradas, fizemos convênios, tudo sem olhar partido político. A polarização faz parte da democracia”, afirmou.

Apesar das eventuais rusgas com o setor, a gestão de Fávaro à frente do Ministério da Agricultura é elogiada pelas principais entidades setoriais.

Além disso, em meio às dificuldades de financiamento do segmento, o Plano Safra de 2025/2026 foi o maior já lançado pelo governo, com R$ 516,2 bilhões disponibilizados para custeio e investimentos no setor. Parte desse valor, R$ 113 bilhões, é de recursos subvencionados pelo Tesouro.

Para este ano, Fávaro acredita que o valor deve ser ainda maior, o que foi reforçado por André de Paula na Agrishow.

O ministro André de Paula salientou o compromisso de ampliar ainda mais a pujança do setor por meio da redução de taxas, da aprovação dos projetos de lei do seguro rural e da renegociação de dívidas rurais no país, que tramitam no Congresso Nacional.

“Primeiro, buscamos um novo recorde no nosso Plano Safra, mas com a consciência de que, mais importante do que assegurar um valor expressivo de recursos, é conseguir trabalhar com uma taxa compatível, que viabilize o acesso dos nossos produtores a esses recursos. Quero, com o apoio de todos, aprovar o projeto de lei do seguro rural”, afirmou.

O seguro rural é uma das principais críticas do setor à gestão de Lula. O tema é alvo de questionamentos por parte do agronegócio brasileiro principalmente devido à falta de previsibilidade e de recursos, o que gera insegurança no planejamento da safra e no acesso ao crédito.

O setor aponta cortes orçamentários, altos custos e ineficiência na gestão de riscos climáticos como os principais entraves, especialmente com o aumento de eventos extremos.

Segundo Fávaro e André de Paula, o tema está maduro e deve ser aprovado ainda este ano.

“A proposta está bastante madura, após amplo diálogo com o setor, seguradoras e resseguradoras, além de avanços no entendimento orçamentário e da boa vontade do Congresso, que já vem se consolidando”, disse Fávaro.

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