Petróleo se firma acima dos US$ 100 com Ormuz fechado há dois meses
O petróleo voltou ao centro das atenções globais. Desta vez, não por excesso de oferta ou desaceleração econômica, mas por um choque geopolítico que ameaça redesenhar o equilíbrio energético mundial.
Na manhã desta quinta-feira, 30, o petróleo Brent, referência global, subiu mais de 12%, chegando a US$ 126 em determinado momento. O petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, subiu mais de 3%, ultrapassando os US$ 110 por barril. Por volta das 10h19, o Brent voltou a cair para US$ 113, mas ainda num patamar acima dos US$ 100.
Por trás desse movimento, há uma combinação rara de fatores: tensão militar prolongada, gargalos logísticos críticos e um mercado já pressionado por estoques em queda.
Oriente Médio fora do jogo
O epicentro da crise está no impasse entre Estados Unidos e Irã. O presidente Donald Trump afirmou que manterá o bloqueio naval dos EUA contra Teerã até que haja um acordo nuclear entre os dois países. “O bloqueio é um pouco mais eficaz do que os bombardeios”, disse Trump à Axios nesta quarta-feira, segundo divulgado pela CNBC. “Eles estão sufocando como um porco recheado, e vai piorar para eles. Eles não podem ter uma arma nuclear.”
Esse contexto, somado ao fechamento do Estreito de Ormuz — responsável por cerca de um quinto do fluxo global de petróleo —, tem levado a uma das maiores interrupções de oferta da história recente.
Sem perspectiva de acordo, o mercado começa a precificar um cenário mais duradouro de escassez. A leitura dominante entre investidores é simples: enquanto o estreito permanecer fechado, o petróleo tende a subir.
“Enquanto não houver um plano de jogo para acabar com essa bagunça ou ao menos reabrir o Estreito de Ormuz, o mercado vai continuar subindo”, disse Robert Yawger, diretor da divisão de futuros de energia da Mizuho Securities USA, à Bloomberg.
Estoques em queda amplificam a pressão
Ao mesmo tempo, os dados dos EUA reforçam o aperto. Segundo a Reuters, a Administração de Informação de Energia (EIA, na sigla em inglês) informou que os estoques de petróleo bruto caíram mais de 6 milhões de barris em uma semana, contra a estimativa de analistas ouvidos pela própria agência de pouco mais de 200 mil barris.
"Se Trump estiver disposto a estender o bloqueio, as interrupções no fornecimento irão piorar ainda mais e continuar a pressionar os preços do petróleo para cima", disse Yang An, analista da Haitong Futures, à Reuters.
O bloqueio naval dos EUA é um ponto central de discórdia entre Washington e Teerã, com a República Islâmica insistindo que não retomará as negociações nem reabrirá o Estreito de Ormuz enquanto as restrições permanecerem. Os fluxos de petróleo bruto, gás natural e derivados do Golfo Pérsico permanecem efetivamente interrompidos desde o início do conflito, no fim de fevereiro. A crise fez disparar os preços da gasolina, diesel e querosene de aviação, elevando temores inflacionários ao redor do mundo.
“Ou o mercado global vai dizer ao Trump que não dá mais para aguentar essa escassez de petróleo, ou vai ser o Irã que vai dizer que quer poder escoar seu petróleo”, disse Michelle Brouhard, chefe de política e risco geopolítico da Kpler Ltd., à Bloomberg Television.
Teerã está rapidamente ficando sem espaço para armazenamento de petróleo bruto, o que ameaça acelerar os cortes de produção, segundo a Kpler.
O papel dos EUA
Com o Oriente Médio parcialmente paralisado, os Estados Unidos assumem um papel central como fornecedor global. Pela primeira vez desde a década de 1940, o país se tornou exportador líquido de petróleo em base semanal. As exportações superaram 6,4 milhões de barris por dia — um salto de 1,64 milhão em relação à semana anterior —, ajudando a abastecer Europa e Ásia, cada vez mais dependentes do petróleo das Américas após a guerra com o Irã e a paralisação do Estreito de Ormuz.
Segundo divulgado pela Reuters, a EIA afirma que esse movimento levou a uma forte queda nos estoques domésticos, à medida que volumes recordes são enviados ao exterior para suprir refinarias pressionadas pela escassez global. As exportações totais de petróleo bruto e derivados também atingiram um recorde de 14,18 milhões de barris por dia, um aumento de 1,298 milhão de barris por dia em relação à semana anterior.
"As refinarias não mudaram. A produção doméstica permaneceu inalterada. Tudo girou em torno dos números de exportação. Esses barris estão indo para o exterior em vez de serem armazenados", disse Bob Yawger, diretor de futuros de energia da Mizuho, à agência.
Os efeitos já aparecem nos indicadores internos: os estoques de gasolina dos EUA caíram 6,1 milhões de barris na semana — a 11ª queda consecutiva —, bem acima das expectativas do mercado. Já os estoques de destilados, que incluem diesel e óleo para aquecimento, recuaram 4,5 milhões de barris, também superando as projeções. Ao mesmo tempo, os contratos futuros de gasolina subiram mais de 5%, para cerca de US$ 3,74, atingindo o maior nível desde 2022.
No meio da turbulência, surge outro elemento relevante: a possível saída dos Emirados Árabes Unidos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Embora analistas ouvidos pela Reuters não vejam impacto imediato na produção, o movimento sinaliza tensões internas no grupo — justamente em um momento em que coordenação seria crucial.
A médio prazo, isso pode enfraquecer a capacidade da OPEP de estabilizar preços. Estrategistas do banco holandês ING afirmaram, em nota publicada nesta quarta-feira e divulgada pela CNBC, que a saída dos Emirados Árabes Unidos representa “um grande golpe” para o grupo e tende a ser bem recebida por Donald Trump, ao reduzir a influência da organização no mercado — o que, em tese, beneficia importadores e consumidores.
Ainda assim, no curto prazo, o foco permanece na geopolítica. Segundo o banco, o principal vetor para os preços continua sendo a evolução da crise no Golfo Pérsico e uma eventual reabertura do Estreito de Ormuz.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: