Como os aditivos em ultraprocessados podem afetar o microbioma intestinal

Por Marina Semensato 24 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como os aditivos em ultraprocessados podem afetar o microbioma intestinal

Os aditivos usados em alimentos ultraprocessados podem causar alterações no microbioma intestinal, uma comunidade de trilhões de microrganismos que afeta todo o funcionamento do corpo humano.

O microbioma é formado por bactérias, vírus e fungos que habitam o intestino. Pessoas com menor diversidade bacteriana nessa região são mais propensas a problemas de saúde, que vão desde o sono até questões intestinais de fato. A alta diversidade, por outro lado, está associada a uma vida mais longa.

Entre os aditivos mais presentes nos alimentos estão os emulsificantes, que são substâncias que permitem a mistura de óleos e água, melhoram a textura e prolongam a vida útil dos produtos. Eles estão no sorvete, no pão de supermercado e em bolos industrializados, por exemplo.

Os efeitos desses produtos na saúde têm preocupado os pesquisadores. Um estudo com ratos conduzido por Benoit Chassaing, do Instituto Pasteur em Paris, mostrou que baixas doses de dois emulsificantes muito usados na indústria fizeram bactérias intestinais atravessar a camada de muco que protege a parede intestinal, causando inflamação e, em casos mais graves, doenças inflamatórias crônicas.

Estudos observacionais têm reforçado a associação em humanos. Um estudo francês com mais de 100 mil pessoas adultas, publicado em 2024, encontrou maior risco de diabetes tipo 2 entre os mais expostos a esses aditivos. Já um levantamento com mais de 90 mil participantes apontou possível ligação entre esses aditivos e cânceres de mama e de próstata.

Em um pequeno ensaio clínico com pessoas saudáveis, Chassaing e colegas demonstraram que o consumo de um emulsificante comum perturbou a microbiota intestinal e reduziu a quantidade de microrganismos benéficos.

Outro ensaio clínico de Chassaing, feito em colaboração com Kevin Whelan, professor de dietética no King's College London, avaliou os efeitos desses aditivos em indivíduos com doença de Crohn. O ensaio constatou que aqueles que seguiam uma dieta com restrição dessas substâncias tinham três vezes mais probabilidade de apresentar redução dos sintomas, em comparação com aqueles que consumiam produtos ultraprocessados com frequência.

Aprovados, mas não totalmente testados

Apesar das evidências, não há orientações públicas para evitar emulsificantes. Segundo Whelan, um dos motivos é a dificuldade de isolar o efeito de cada aditivo, já que eles são consumidos em diferentes combinações — o chamado "efeito coquetel". Estudos em células humanas em laboratório indicam que a combinação de aditivos comuns pode aumentar danos celulares.

Os emulsificantes que consumimos foram todos aprovados pela indústria alimentícia, explica Chassaing. "Eles são testados apenas quanto ao efeito tóxico ou à capacidade de induzir danos ao DNA. E, para esses dois aspectos, são perfeitamente seguros. Mas nunca foram testados no passado quanto ao efeito direto sobre o microbioma", diz.

Tanto a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) quanto o FDA americano exigem aprovação prévia dos aditivos — mas os critérios não incluem o impacto sobre o microbioma.

Processamento também importa

Além dos aditivos, a forma como os alimentos são processados também pode ser importante para a saúde intestinal. Em um ensaio clínico aleatorizado, Lane e colegas compararam dois grupos por três semanas: ambos seguiram dietas com baixa ingestão calórica e nutrientes equivalentes, mas um consumiu ultraprocessados e o outro, alimentos minimamente processados.

Embora os dois grupos tenham perdido peso de forma semelhante, os que consumiram mais ultraprocessados apresentaram menor diversidade intestinal, mais constipação e piora no inchaço e na dor abdominal.

"A dieta com maior teor de ultraprocessados continha misturas de aditivos e quantidades muito baixas de ingredientes minimamente processados, enquanto a outra continha muitos tipos diferentes de fibra provenientes de alimentos integrais", explicou Lane à BBC.

As recomendações dos especialistas

É difícil escapar totalmente dos ultraprocessados hoje em dia. Por isso, os especialistas pedem mais cuidado com a alimentação, mas sem alarmismo. Berry orienta, por exemplo, priorizar refeições com ingredientes frescos sempre que possível.

"Eu não gostaria de dizer: 'nunca comam nada que contenha aditivos alimentares'", afirmou Whelan à BBC. "O que todos podemos fazer é pensar em comer de forma mais saudável. A comida é algo realmente precioso em nossas vidas", diz.

Outra recomendação é diversificar a dieta: em vez de pensar apenas no que cortar, é bom direcionar o pensamento para o que podemos adicionar para garantir mais variedade de nutrientes para as bactérias do microbioma. Os especialistas recomendam caprichar em alimentos com fibras e polifenóis, que nutrem as bactérias intestinais e têm propriedades anti-inflamatórias, como frutas vermelhas, uvas, vegetais, aveia e feijão, por exemplo.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: