Como Sabastian Sawe se tornou a 1ª pessoa a correr uma maratona em menos de duas horas

Por Tamires Vitorio 28 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como Sabastian Sawe se tornou a 1ª pessoa a correr uma maratona em menos de duas horas

Num vilarejo sem eletricidade no Vale do Rift, no oeste do Quênia, um menino cresceu sendo criado pela avó. Não havia luz, não havia infraestrutura, e nada muito além do que a terra e as montanhas ofereciam.

Um professor disse a ele cedo: "Correr não é só talento. É sua fortuna e seu futuro", segundo o site ArtVoice. No domingo, 26, Sabastian Kimaru Sawe provou que seu professor estava certo.

Aos 31 anos, Sawe cruzou a linha de chegada da Maratona de Londres em 1 hora, 59 minutos e 30 segundos — tornando-se a primeira pessoa na história a completar uma maratona oficial em menos de duas horas.

Ele apagou 65 segundos do recorde anterior, de 2:00:35, estabelecido pelo finado Kelvin Kiptum em Chicago em 2023.

O pelotão de elite foi organizado para sustentar um ritmo de recorde desde o início. O grupo líder passou pela meia maratona em 1:00:29, o que obrigava Sabastian Kimaru Sawe a acelerar na segunda metade da prova para terminar abaixo de duas horas.

Foi o que ele fez. O queniano completou os 21 quilômetros finais em 59:01, ritmo suficiente para transformar a tentativa em recorde mundial.

A arrancada decisiva veio entre os 30 e os 35 quilômetros. Nesse trecho, Sawe registrou um split de 13:54 e abriu distância ao lado do etíope Yomif Kejelcha, deixando o restante do pelotão para trás.

Nos metros finais, Sawe se descolou de Kejelcha e avançou sozinho pelo Mall, passando pelo Palácio de Buckingham antes de cruzar a linha de chegada.

“Quando cheguei à linha de chegada, vi o tempo e fiquei tão animado"

Kejelcha também terminou abaixo das duas horas. Em sua estreia na maratona, o etíope fez 1:59:41. O ugandês Jacob Kiplimo foi terceiro, com 2:00:28.

Os três primeiros colocados correram abaixo do recorde mundial anterior, de 2:00:35 — isso nunca havia acontecido em uma maratona.

Sawe treina num acampamento de alta altitude em Kapsabet, no oeste do Quênia, vivendo em quartos compartilhados com outros atletas e vê a esposa e o filho aproximadamente duas vezes por mês, segundo o Art Voice. Colegas e treinadores o descrevem como calmo, analítico e profundamente focado, um perfil quase inteiramente discreto fora das competições.

Chegou ao atletismo de estrada de forma inusitada: em 2022, foi contratado como liebre na Meia Maratona de Sevilha. É treinado pelo italiano Claudio Berardelli e patrocinado pela Adidas.

Desde então, acumulou quatro vitórias em quatro maratonas disputadas, todas em tempo abaixo de 2:03.

"Não acreditei", disse após o recorde. "Mas estava bem preparado, e o treinamento que fiz — os resultados vieram agora."

O recorde limpo — e caro

A conquista não chegou sem contexto. O atletismo queniano carrega o peso de escândalos recentes. A compatriota Ruth Chepngetich, recordista mundial feminina, foi suspensa por três anos por doping em 2025.

Sawe decidiu agir antes de qualquer suspeita.

Ele e seu agente procuraram a Athletics Integrity Unit e pediram para ser testados o máximo possível antes da Maratona de Berlim em 2025, quando as conversas sobre recorde mundial já ganhavam força.

A Adidas bancou US$ 50 mil para cobrir o custo dos testes adicionais — cada exame pode custar mais de US$ 2.000. O total: 25 testes fora de competição em dois meses.

Antes de Londres, o programa se repetiu.

Kejelcha, segundo colocado no domingo, elogiou a postura do rival após a corrida: "É muito importante para o esporte limpo. Talvez eu, no futuro, faça o mesmo."

Nike lançou o projeto. Adidas quebrou a barreira

A conquista ainda deve uma dívida à Nike, cujo projeto Breaking2, lançado em 2016, foi o impulso para o desenvolvimento dos tênis com placa de carbono — inovação que revolucionou o atletismo de elite.

Kipchoge correu 1:59:40 em Viena em 2019, em condições especialmente controladas com pacemakers rotativos — tempo que não entrou para os livros por não ser uma corrida oficial.

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No domingo, Sawe e Kejelcha fizeram história usando o Adidas Adizero Adios Pro Evo 3.

Numa rara concessão ao rival, a Nike publicou nas próprias redes: "O relógio foi zerado. Não há linha de chegada."

Também no domingo, a etíope Tigst Assefa venceu novamente a prova feminina em 2:15:41, quebrando seu próprio recorde mundial da prova com largada separada.

Sawe tem 31 anos. Kipchoge e Kenenisa Bekele — possivelmente os dois melhores fundistas da história — correram suas maratonas mais rápidas aos 37.

"Acredito que Sabastian ainda não atingiu seu pico", disse o treinador Berardelli.

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