Como uma construtora de Blumenau virou um grupo de R$ 4,5 bilhões

Por Leo Branco 26 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como uma construtora de Blumenau virou um grupo de R$ 4,5 bilhões

Na construção civil, tempo e dinheiro caminham juntos. Uma obra demora anos, exige compra de terreno, material, mão de obra e uma fila de clientes dispostos a pagar antes de receber a chave.

Foi nesse mercado que o engenheiro catarinense Valter Luiz Torresani começou a construir o grupo que leva seu sobrenome. A Torresani nasceu em Blumenau, no Vale do Itajaí, no fim dos anos 1980. Hoje, soma mais de 110 empreendimentos entregues, 730.000 metros quadrados construídos e R$ 4,5 bilhões em Valor Geral de Vendas, o VGV, soma estimada do preço de todas as unidades de um projeto imobiliário.

A história ganha um novo capítulo agora porque a empresa saiu do terreno onde cresceu por mais de três décadas. A Torresani passou a acelerar no litoral norte de Santa Catarina, uma das regiões com metro quadrado mais valorizado do país, com projetos em Balneário Piçarras, Barra Velha, Itapema e Porto Belo. Ao mesmo tempo, a Eletrisa, empresa de energia do grupo, completa quase 20 anos com mais de 50 usinas sob gestão e operação em seis estados.

“Eu resolvi ir para o litoral porque era um desafio. Construir fora da cidade, em um mercado consolidado, com muitas empresas, exigia outra estrutura”, afirma Torresani.

Nos próximos anos, o plano é somar novos projetos imobiliários no litoral, avançar na operação de usinas de terceiros e aproximar os dois negócios. A empresa prepara, por exemplo, um aplicativo para que compradores de apartamentos da Torresani possam contratar energia da holding do grupo com desconto.

O primeiro negócio veio do concreto

Valter Torresani cresceu em uma família ligada ao comércio. O pai tinha uma distribuidora de bebidas em Blumenau, mas gostava de construir. A entrada do filho na engenharia ajudou a abrir outro caminho para os negócios da família.

Em 1977, aos 17 anos, Torresani deixou Santa Catarina para cursar engenharia civil na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A mudança veio por convite de um amigo de família, também chamado Walter, cujo grupo trabalhava com projetos de usinas hidrelétricas. Esse contato voltaria a aparecer décadas depois, na entrada de Torresani no setor de energia.

“Eu tinha 17 anos e nunca tinha saído praticamente de Blumenau. Quando disse em casa que iria para o Rio estudar, meu pai falou: pode ir, porque você não vai passar e vai voltar. Acho que ali descobri que eu era movido a desafios”, diz.

Formado, casado e já pai, voltou a Blumenau no início dos anos 1980. Trabalhou no mercado imobiliário, passou pela área de planejamento da prefeitura e, depois, recebeu do pai o convite para abrir uma construtora.

A lógica familiar era simples. O pai via no filho engenheiro uma chance de entrar em obras. Também repetia uma frase que virou eixo da trajetória do grupo: não colocar todos os ovos no mesmo cesto.

No começo, a estrutura era pequena. Torresani cuidava do financeiro da distribuidora de bebidas, tocava a construtora e, à noite, fazia cálculos estruturais para complementar a renda. Usava programas criados por ele em Fortran, linguagem de programação comum em engenharia, numa época em que os dados ainda rodavam em fita cassete e televisão em preto e branco.

A decisão que mudou o modelo da construtora

O primeiro prédio próprio da Torresani foi lançado em outubro de 1989. Naquele momento, o mercado de Blumenau vendia apartamentos em 24 meses, prazo médio da construção. Não havia crédito bancário disponível para aquele tipo de operação local. O comprador precisava pagar o imóvel enquanto o prédio subia.

Torresani viu um problema de parcela. Se o cliente tinha pouco tempo para pagar, a mensalidade ficava alta. A solução foi dobrar o prazo.

“Eu fiz a média e pensei: se o mercado vende em 24 meses e vende mais no final da obra, por que não vender no início em 48 meses? Lancei o primeiro prédio da Torresani nesse prazo. Foi um sucesso, porque era metade do valor da parcela”, afirma.

Na prática, a construtora passou a financiar o cliente com o próprio caixa. O dinheiro das vendas entrava aos poucos e sustentava a obra. A família também colocou imóveis antigos à venda para reforçar a receita inicial.

Esse modelo continuou na empresa. Segundo Torresani, a construtora entregou mais de 110 prédios em Blumenau com gestão de recursos próprios. A empresa também afirma ter mantido as entregas dentro do prazo e os empreendimentos vendidos ao longo da obra.

Nos anos de inflação alta, a pressão vinha de todos os lados. O dinheiro perdia valor de um dia para o outro. Muitas empresas concentravam energia na administração do caixa. Torresani olhou para o canteiro.

“Naquela época, a maioria das empresas se preocupou com o financeiro. Eu, como engenheiro novo, tinha uma visão muito forte da economia da obra, de não desperdiçar nada”, diz.

A construtora desenvolveu sistemas próprios para controlar pagamentos, notas promissórias e lançamentos de obra. Também buscou mudanças físicas no canteiro. Uma delas foi a criação, em parceria com universidade e fabricante, de um tijolo maior. A peça reduzia o número de camadas de alvenaria e o consumo de argamassa, material usado para unir tijolos e blocos.

Com menos argamassa, havia menos transporte interno, menos mão de obra e menos perda.

“Conseguimos reduzir em um sexto a quantidade de argamassa, mão de obra, movimentação e recebimento de material com um estudo simples junto ao fabricante”, afirma.

Do apartamento para a usina

A entrada no setor de energia veio cerca de 20 anos atrás. O mesmo amigo que havia levado Torresani ao Rio de Janeiro voltou com um problema. A família dele fazia projetos de usinas hidrelétricas, mas não conseguia virar sócia dos próprios projetos. Faltava financiamento.

O caso envolvia pequenas centrais hidrelétricas, conhecidas como PCHs, usinas de menor porte que usam a força da água para gerar eletricidade. O grupo buscava crédito para viabilizar dois projetos, mas os investidores institucionais consideravam os ativos pequenos.

Torresani aplicou a fórmula da construção civil: dividir para vender.

“Eles me passaram os números e eu montei o processo. Eu disse: vamos fazer igual apartamento, vamos dividir e vender. Vamos fazer com que o pequeno investidor compre”, afirma.

O grupo estruturou sociedades anônimas fechadas, empresas com ações que não são negociadas em bolsa, e vendeu cotas para investidores qualificados. O plano permitia compras em diferentes faixas. Quem reunia amigos e comprava um lote maior tinha uma rentabilidade melhor por ação.

“A pessoa que queria comprar acabava chamando mais alguém e falando bem do negócio. Em três meses, colocamos as duas usinas no mercado”, diz.

A Torresani Energia, holding do grupo para o setor elétrico, passou a participar de 14 usinas. Mas vender cotas era só uma parte do trabalho. Era preciso administrar centenas de sócios, assembleias, conselhos fiscais, compra e venda de energia e a operação física das plantas, muitas delas longe de Blumenau.

Daí nasceu a Eletrisa.

A Eletrisa virou operadora de usinas

A Eletrisa começou como uma empresa para cuidar das usinas ligadas ao grupo. Com o tempo, passou a vender esse serviço para terceiros. Hoje, administra e opera mais de 50 usinas, com cerca de 300 megawatts de potência instalada sob sua responsabilidade, em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Rondônia.

O portfólio inclui PCHs, centrais geradoras hidrelétricas, usinas solares e térmicas. As térmicas geram energia a partir de calor, enquanto as solares usam painéis fotovoltaicos para transformar luz em eletricidade.

A empresa também montou em Blumenau um centro de operações remoto. Dali, monitora as usinas 24 horas por dia. O sistema mede mais de 1.000 itens por planta, acompanha o funcionamento de turbinas e equipamentos e permite ligar ou desligar unidades à distância.

“Se um disjuntor começa a aquecer, o sistema já avisa o centro de manutenção. A equipe pode levar uma peça de reserva antes de a usina parar. Se vai chover muito, a operação pode esvaziar o lago para receber mais água”, afirma Torresani.

A leitura dos dados também abriu uma parceria com a alemã Voith, fabricante de turbinas hidrelétricas. Segundo Torresani, a empresa procurou a Eletrisa durante a pandemia para usar a operação de Blumenau como centro de apoio na América Latina.

A razão estava nos dados das turbinas. Em projetos de retrofit, nome dado à modernização de máquinas e sistemas antigos, essas informações ajudam a calcular riscos, manutenção e garantias.

“Eles disseram: nós ganhamos dados. Não temos dados das nossas turbinas para, numa concorrência de retrofit, alongar a nossa garantia. Nós não conseguimos montar o que vocês montaram”, diz.

No fim de 2025, a Eletrisa também firmou parceria com a Nova Engevix, grupo de engenharia ligado à holding Nova Participações, para atuar em projetos de maior porte. Para 2026, a empresa estima crescimento acima de 30%, puxado por plantas solares, térmicas, retrofit e serviços para usinas de terceiros.

A volta ao litoral catarinense

Enquanto a energia crescia, a construtora seguiu concentrada em Blumenau. A virada veio entre 2020 e 2021, quando Torresani decidiu buscar terrenos no litoral norte de Santa Catarina.

A escolha mirou uma faixa do estado que se tornou um dos polos imobiliários mais disputados do Brasil. O litoral norte catarinense reúne cidades com alta procura por imóveis de praia, pouco espaço disponível em áreas centrais e preços por metro quadrado que colocam a região entre as mais valorizadas do país. Para uma construtora que passou 36 anos em Blumenau, a entrada nesse mercado significava disputar terrenos, corretores, investidores e compradores com empresas já instaladas.

A escolha não foi Balneário Camboriú, mercado de preço alto e pouca área disponível. A empresa foi para regiões como Balneário Piçarras, Barra Velha e Porto Belo, onde ainda havia terrenos grandes e frente para o mar.

“Perguntam por que fui para Piçarras e Barra Velha, e não para Balneário Camboriú. Primeiro porque Balneário já está praticamente tomado. Hoje estão demolindo prédios para reconstruir. Nessas praias, conseguimos terrenos bem localizados e podemos colaborar com a construção daquele espaço”, afirma.

No litoral, a concorrência é maior. Torresani cita mais de 120 construtoras na região de Porto Belo, Meia Praia e Itapema. Para disputar terrenos, a empresa usa o histórico de entregas em Blumenau e faz acordos de permuta, quando o dono do terreno recebe unidades futuras no lugar de vender a área à vista.

A decisão da construtora tem sido evitar o uso máximo do terreno. Em vez de fazer o maior volume possível de área vendável, a empresa afirma buscar projetos com desenho mais marcante.

“Quando o dono do terreno vem, eu digo: faço, mas não vou aproveitar o máximo. Vou fazer o melhor projeto. Não vou fazer o maior projeto, porque não é nosso interesse massificar”, diz.

Um dos exemplos é o Vértice, no bairro planejado Vivapark Porto Belo. O prédio está vendido e foi pensado para atrair investidores. Outro projeto em estudo fica em Balneário Piçarras, na área de um antigo camping, com 15.000 metros quadrados de terreno e 240 metros de frente para o mar.

O complexo deve ter fachada ativa, com lojas e circulação no nível da rua, apartamentos de um quarto com varanda frente mar e áreas de lazer separadas entre unidades menores e torres superiores. A área comum prevista é de 14.500 metros quadrados.

Os números da nova fase

A expansão muda a escala da Torresani. Em mais de três décadas, a incorporadora acumulou R$ 4,5 bilhões em VGV. Para 2026, a estimativa de vendas é de R$ 1 bilhão em vendas. A companhia tem cerca de 230.000 metros quadrados em construção: 145.000 metros quadrados no litoral norte catarinense e 85.000 metros quadrados em Blumenau.

A carteira em desenvolvimento soma 18 projetos, sendo 11 no litoral norte e 7 em Blumenau. Só nos projetos frente mar, há previsão de cerca de 120.000 metros quadrados de construção. A empresa trabalha com a possibilidade de quase dobrar de tamanho em cinco anos.

A ida ao litoral também exigiu uma nova estrutura. O grupo separou a gestão entre Blumenau e litoral, com executivos dedicados a cada operação. Mariana Torresani, filha do fundador, passou a ocupar cargo de alta gestão. A empresa também passou a ser auditada, primeiro pela Martinelli, de Joinville, e depois pela BDO, de São Paulo.

Na frente imobiliária, a Torresani atua em médio-alto padrão, alto padrão e projetos de uso misto, que combinam moradia, comércio, serviços e hotelaria no mesmo endereço. Em Blumenau, um dos projetos recentes é o Casa Royal, complexo multiuso com 42.000 metros quadrados de área construída, investimento estimado de R$ 200 milhões e hotel Novotel, bandeira da Accor, com 120 suítes.

Energia começa a entrar nos prédios

A ligação entre construção e energia aparece nos novos empreendimentos. Torresani afirma que os prédios passam a incorporar geração solar quando o projeto permite. O grupo também estuda centrais de baterias para substituir geradores a diesel, usados como fonte de energia em caso de queda da rede.

A ideia é aproveitar a experiência da Eletrisa em monitoramento, operação e automação de usinas para reduzir custos e organizar o consumo nos edifícios.

“Todos os nossos prédios, quando possível, têm geração solar. Estamos estudando centrais de baterias para substituir geradores. Isso veio da tecnologia das solares que estamos desenvolvendo”, afirma.

O próximo passo é comercial. A empresa prepara um aplicativo para que clientes da construtora possam comprar energia da Torresani Energia. A operação aproveita uma mudança do setor elétrico brasileiro, que permite que consumidores contratem energia fora da distribuidora local em alguns modelos.

“Nós estamos lançando um aplicativo em que todos os nossos clientes vão poder comprar energia da Torresani Energia com desconto”, diz.

Na Eletrisa, o foco declarado para 2026 está na prestação de serviços para usinas próprias e de terceiros. A empresa não prevê, por enquanto, entrar como empreendedora própria em novos leilões de energia nem fazer fusões e aquisições. A prioridade é operar projetos complexos, ampliar parcerias e usar tecnologia para acompanhar usinas à distância.

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