Como uma empresa familiar do RS transformou amendoim em um negócio de R$ 463 milhões

Por Daniel Giussani 20 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como uma empresa familiar do RS transformou amendoim em um negócio de R$ 463 milhões

A cidade de Santo Antônio da Patrulha tem 42.000 habitantes, fica a 80 quilômetros de Porto Alegre e é de lá que saem 2 milhões de paçocas por dia.

A DaColônia é uma indústria de alimentos fundada em 1962 nessa cidade do interior gaúcho. Começou com rapaduras artesanais feitas no tacho por Israel Gomes de Freitas, pai de 10 filhos que precisava botar comida na mesa.

Hoje, é liderada pela terceira geração da família e produz mais de 1.200 toneladas por mês de alimentos à base de amendoim.

A empresa fechou o ano com 463 milhões de reais em faturamento, crescimento de 173% em cinco anos, partindo de 170 milhões de reais em 2020. A DaColônia é hoje vice-líder nacional em paçocas e lidera em pastas e cremes de amendoim, com 33,6% de participação em volume, segundo o painel Scanntech.

"A construção desse crescimento passa por decisões estratégicas consistentes. Investimos em inovação, sustentabilidade, certificações e melhoria contínua, sempre atentos às demandas do mercado e à diversificação dos canais de venda", afirma Willian Freitas, diretor-administrativo e neto do fundador.

O próximo passo é chegar ao meio bilhão. Para isso, a empresa aposta em três frentes: expansão no canal farma, crescimento no Sudeste e maior presença no e-commerce — que avançou 24% em 2025.

Qual é a história da DaColônia

A empresa nasceu da escassez. Em 1962, Israel Gomes de Freitas começou a produzir rapadura de melado de cana para vender a ambulantes que passavam por Santo Antônio da Patrulha, uma cidade que conecta Porto Alegre ao litoral norte gaúcho.

O doce era moldado em tabletes e colocado em caixas de madeira para revenda nas cidades vizinhas, no litoral e até na fronteira com o Uruguai.

"Era o que tinha de oportunidade na época. Muita cana-de-açúcar na região, muito melado. E o jeito era transformar isso em produto e tentar vender. A empresa começou assim, pela sobrevivência", afirma Willian.

Na década de 1970, o amendoim entrou em cena.

Os primeiros testes misturavam melado e amendoim — e surgiu o pé de moleque. Depois vieram a paçoca, o mandolate e os tabletes. O portfólio foi crescendo junto com a fábrica, que até hoje opera no mesmo endereço onde Israel plantou a primeira semente do negócio — literalmente: no centro do terreno, uma figueira com mais de 200 anos ainda está de pé.

Na virada dos anos 2000, uma nova ampliação da planta e a modernização da produção abriram caminho para abastecer redes maiores e iniciar as exportações. Mas o ponto de inflexão mais forte viria duas décadas depois.

A partir de 2020, com a onda de saudabilidade ganhando espaço nas gôndolas, a DaColônia dobrou a aposta em inovação. O portfólio passou a incluir barrinhas de proteína veganas, chips, granolas, biomassa de banana verde e produtos zero açúcar. Tudo sem conservante.

"Por muito tempo, o produto saudável era ruim de comer. Nosso desafio foi fazer o contrário: entregar saúde com sabor. A gente faz testes por meses, às vezes mais de um ano, até acertar", diz Willian.

A linha AmendoPower, pasta de amendoim lançada em 2015, foi uma das que mais cresceu nesse ciclo. Hoje representa mais de 14% da receita da empresa e consolidou a DaColônia na liderança nacional da categoria.

O portfólio chegou a mais de 250 itens, sendo 70% à base de amendoim. A categoria de paçocas responde por mais de 25% do faturamento.

Quais são as novas apostas

Uma das movimentações mais relevantes de 2025 foi a consolidação no canal farma, ou seja, a venda de produtos em farmácias.

A DaColônia entrou nesse segmento em meados de 2024 e registrou crescimento de mais de 130% no ano seguinte. No primeiro trimestre de 2026, o avanço já supera 40%.

A empresa tem mais de 60 produtos validados para o canal e está presente em redes como Farmácias São João, Panvel, Farmácias Indiana, Drogarias Araújo e Farmácia Catarinense. As barrinhas de proteína, paçocas, granola premium e pastas integrais estão entre os mais vendidos.

"A farmácia virou um ponto de venda estratégico. O consumidor ali já está pensando em bem-estar. Se ele encontra uma paçoca sem açúcar ou uma barrinha proteica gostosa, leva junto", diz o executivo.

Os desafios no meio do caminho

Crescer além do Sul do Brasil é o principal desafio da empresa. A região ainda responde por 35% do faturamento, com forte presença no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O Sudeste e o Nordeste são os mercados onde a marca ainda busca consolidação.

O problema logístico é concreto: o amendoim, matéria-prima central do portfólio, vem de São Paulo, percorre mais de mil quilômetros até a fábrica no RS, e depois volta embalado para abastecer o mercado consumidor, muitas vezes o próprio estado de origem da matéria-prima.

"É um contrassenso logístico. O produto vai e volta, e a conta pesa. Mas por enquanto é a estrutura que temos — e estamos aprendendo a operar com isso da forma mais eficiente possível", afirma Willian.

O desafio fica ainda maior porque a principal concorrente, a Santa Helena, está posicionada, justamente, em São Paulo.

A DaColônia estuda abrir uma planta em São Paulo nos próximos anos para ganhar competitividade logística e manter a fábrica histórica no RS em operação.

O que vem pela frente

Com 463 milhões de reais no retrovisor e o canal farma acelerando, a DaColônia mira o meio bilhão.

A empresa está presente em mais de 30.000 pontos de venda no Brasil e opera duas plataformas de e-commerce — uma B2C, voltada ao consumidor final, e uma B2B, para revendedores.

"No centro da nossa estratégia está a entrega de qualidade com consistência. Trabalhamos com matérias-primas selecionadas, processos tecnológicos e certificações reconhecidas", diz Wagner Freitas, diretor de marketing e irmão de Willian.

A fábrica segue no mesmo lugar onde Israel Gomes de Freitas começou a fazer rapadura em 1962. E a figueira centenária no meio do pátio continua de pé. Agora com 463 milhões de reais de história ao redor.

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